Onda de desemprego para o exército de migrantes internos na China

Por Dan MARTIN
Um trabalhador usando máscara facial em meio à pandemia de coronavírus conduz veículo elétrico cheio de bicicletas compartilhadas em Pequim, em 23 de abril de 2020

A vida nunca foi fácil para os quase 300 milhões de trabalhadores migrantes internos na China. Mas com o aumento do desemprego após o coronavírus, trabalhadores como Wei Guikun se sentem totalmente no limite.

Desde março, esse jovem de 29 anos percorre as regiões industrializadas do leste e sul do país em busca de emprego. Mas só encontrou portas fechadas ou salários de miséria em sua jornada de quase 3.500 km.

Atualmente em Xangai, capital econômica do país, enfrentará, como milhões de outros trabalhadores no Dia do Trabalho, a lenta recuperação da economia chinesa após a paralisia do coronavírus.

No auge da epidemia, Guikun permaneceu confinado por várias semanas em sua província de Shandong (leste), onde passou as férias do Ano Novo Chinês com sua família no final de janeiro.

Para o exército de migrantes, a regra costuma ser simples: não há emprego, não há salário.

O jovem é um dos 280 milhões de trabalhadores rurais do país, cujo acesso aos serviços sociais é limitado em comparação aos moradores da cidade.

No entanto, essa mão de obra flexível e barata é a espinha dorsal do milagre econômico chinês.

Em um país estritamente vigiado, nada permite prever uma explosão social, mas o certo é que o desemprego disparou nos últimos meses.

Como sempre acontece com a nação mais populosa do mundo, os números causam vertigem. Segundo a UBS Securities, cerca de 80 milhões de empregos podem ter desaparecido nos setores de serviços, indústria e construção desde o surgimento do coronavírus em Wuhan (centro) no final de 2019.

Outros 10 milhões de empregos podem ter sido cortados devido à queda das exportações chinesas para os mercados tradicionais da Europa e América do Norte.

"O mercado de trabalho chinês provavelmente está sob a maior pressão desde o final dos anos 1990 ou início dos anos 2000", analisa UBS.

- Recorde histórico de desemprego -

Em março, a taxa de desemprego era oficialmente de 5,9% da população ativa, mas esse número refere-se apenas a residentes urbanos, não a migrantes, que ainda são considerados rurais.

A agência de corretagem Zhongtai Securities estimou na semana passada que a taxa real de desemprego pode estar acima de 20%, ou cerca de 70 milhões de desempregados.

Como sinal da extrema sensibilidade política sobre o assunto, a empresa teve que retirar sua estimativa.

No entanto, entre aqueles que mantiveram seus empregos, espera-se que cerca de 250 milhões de trabalhadores vejam sua renda diminuir de 10% a 50% este ano, de acordo com um estudo da Economist Intelligence Unit.

Dezenas de movimentos de protesto já começaram no país, de acordo com o China Labour Bulletin (CLB), uma organização que lista greves e tensões sociais com sede em Hong Kong.

"O governo central está claramente muito preocupado", diz Geoffrey Crothall, do CLB, observando que, pela primeira vez, Pequim anunciou na semana passada auxílio desemprego para esse exército de trabalhadores migrantes.

Mas esses auxílios são mínimos e difíceis de obter, estima ele. "Cada vez mais trabalhadores ficam sem salários e corremos o risco de ver um aumento nos movimentos sociais", prevê.

O governo central também pediu às cidades que concedam mais permissões de residência aos migrantes, o que abriria caminho para que eles recebessem benefícios sociais.