Onda ultraconservadora chega ao Brasil pelas mãos de Bolsonaro

Por Jorge SVARTZMAN
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Simpatizantes do candidato Jair Bolsonaro durante sua visita à Arquidiocese do Rio de Janeiro em 17 de outubro de 2018

A onda ultraconservadora que se espalhou pelo mundo tem tudo para chegar ao Brasil no próximo domingo, quando Jair Bolsonaro (PSL) deve se eleger presidente, salvo algo extraordinário aconteça, impondo uma derrota histórica ao candidato do PT, Fernando Haddad.

A chegada ao poder de Bolsonaro, de 63 anos, representaria um golpe fatal para o Partido dos Trabalhadores (PT), depois do impeachment sofrido pela presidente Dilma Rousseff em 2016 e pela prisão de seu líder e cofundador, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado a 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro.

A vitória do capitão do Exército, que em 27 anos como deputado se destacou pelos insultos proferidos contra mulheres, negros e homossexuais e pela defesa da ditadura militar (1964-1985), parecia impensável alguns meses atrás.

Mas o militar da reserva, com propostas como a de flexibilizar o porte de armas e suas denúncias contra a corrupção, se afirmou como a única alternativa para uma população cansada de violência e de escândalos.

Em um país onde quase 64.000 pessoas foram assassinadas em 2017, Bolsonaro esteve prestes a se tornar uma vítima a mais em 6 de setembro, quando Adélio Bispo de Oliveira, ex-filiado ao PSOL, deu-lhe uma facada no abdômen durante um comício em Juiz de Fora (MG).

O atentado o humanizou aos olhos de muitos eleitores e a convalescença lhe deu um argumento a mais para se ausentar dos debates televisivos, aos quais já era reticente.

- A irresistível ascensão -

A mensagem de Bolsonaro alcançou todos os setores, graças ao manejo hábil das redes sociais.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, várias empresas financiaram ilegalmente sua candidatura, comprando milhares de pacotes de mensagens de Whattsapp para fazer campanha ao seu favor e difamar seu adversário.

O mercado acabou dando-lhe seu apoio, após o derretimento de candidaturas de centro-direita mais "apresentáveis".

A adesão virou entusiasmo quando Bolsonaro anunciou que seu ministro da Fazenda seria Paulo Guedes, partidário de privatizações em massa para reduzir a dívida pública e relançar a atividade, depois de dois anos de recessão e outros dois de fraco crescimento.

O setor do agronegócio, por sua vez, foi seduzido por seus projetos de facilitar o avanço dos cultivos intensivos. Um de seus assessores criticou os entraves administrativos dos projetos de obras de infraestrutura na Amazônia.

Finalmente, as igrejas evangélicas lhe deram sua bênção, atraídas pela mensagem pró-família deste católico que preferiria, segundo disse em uma ocasião, que um de seus filhos morresse em um acidente a que fosse homossexual.

No primeiro turno, Bolsonaro obteve 46% dos votos e Haddad, 29%. Para o segundo turno, as pesquisas de opinião, atribuem a ele uma vantagem de 59% contra 41% para seu adversário.

Nas legislativas, o Partido Social Liberal (PSL), ao qual Bolsonaro aderiu em março, passou de 8 para 52 deputados, tornando-se a segunda força da Câmara.

Mas mesmo assim, se for eleito, ele terá que lidar com um Congresso com mais de vinte partidos sem cair no "toma lá, dá cá" de cargos públicos, que contribuiu para o desprestígio das principais instituições da democracia.

Caso contrário, os eleitores brasileiros poderão lembrar que este "outsider" foi um parlamentar que aprovou apenas dois projetos em quase três décadas em Brasília.

- "Democracia ameaçada" -

Ivar Hartmann, professor de direito público na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, atribui a ascensão incontrolável de Jair Bolsonaro a dois fatores: o impacto da operação Lava Jato e "a falta de autocrítica do PT".

A 'Lava Jato', assim como a "Mãos Limpas [da Itália]" foi "uma operação que conseguiu com sucesso enfraquecer uma parte grande da classe política corrupta, mas acabou por criar um vácuo, preenchido por populistas", afirmou Hartmann, referindo-se a Silvio Berlusconi.

O PT, como muitos de seus líderes históricos na linha de frente das acusações, "poderia ter se desvinculado ou desfiliado esses elementos e seguir adiante, se renovar", enumerou Harmann. Neste caso, "não chegaria enfraquecido como chegou" a estas eleições.

O acadêmico avalia que Bolsonaro representa "uma ameaça" para a democracia.

"Para Bolsonaro, os que cometeram um crime deixam de merecer o reconhecimento de seus direitos constitucionais", explica Hartmann, antes de emendar: "Assim começou o nazismo".

"Acredito que se a Constituição sobreviver a uma Presidência de Jair Bolsonaro, pode sobreviver a qualquer coisa", conclui, com humor.

- Outro Brasil, outro mundo -

Se Bolsonaro for eleito presidente da República, a potência sul-americana de 209 milhões de habitantes se somaria a uma corrente de líderes ultranacionalistas que chegaram ao poder pelas urnas, questionando a globalização e os direitos cívicos.

Uma onda que abrange das Filipinas aos Estados Unidos, passando por Turquia, Rússia, Polônia, Hungria ou Itália.

"O Brasil também muda! A esquerda derrotada, sopram novos ventos!", tuitou o vice-primeiro-ministro ultradireitista da Itália, Matteo Salvini, após o primeiro turno.

Bolsonaro mostrou posições próximas às do americano Donald Trump, ao evocar a transferência para Jerusalém da embaixada brasileira em Israel e colocando o governo socialista de Nicolás Maduro no centro de suas críticas.