Ondas de calor: O que são, quais as causas e por que a Europa sofre tanto com elas

Não foi por falta de aviso. Em 1995, um relatório do então desconhecido Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), criado sete anos antes pelas Nações Unidas, reconheceu, pela primeira vez, que o aumento na frequência e na intensidade as ondas de calor no Hemisfério Norte estaria relacionado à atividade humana no planeta. Desde então, a ocorrência e a ferocidade desse evento extremo, que este ano, mais uma vez, assola a Europa, só fez aumentar.

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De acordo com a Organização Mundial Meteorológica, uma onda de calor é definida quando, durante cinco ou mais dias consecutivos, as temperaturas máximas diárias superam em 5 graus a temperatura máxima média para aquela região. Na maior parte do século XX, ondas de calor eram consideradas um fenômeno natural, mais ou menos como terremotos ou furacões, que ocorriam ocasionalmente. Em 1911, por exemplo, uma onda de calor matou cerca de 40 mil pessoas na França.

A partir dos anos 1990, porém, os cientistas que se debruçaram sobre o tema observaram que o "fenômeno" vinha se intensificando. Eles reuniram evidências robustas o suficiente para mudar de opinião. As ondas de calor, então, passaram a ser vistas como um efeito colateral do aquecimento da temperatura do planeta, que, hoje, está 1,1 grau Celsius mais quente do que na segunda metade do século XIX, antes de a Revolução Industrial começar a bombear dióxido de carbono para o ar.

Os estudos nesse campo se avolumaram até que, em 2004, um ano depois de uma onda de calor que causou mais de um recorde de 70 mil mortes na Europa, um artigo publicado na prestigiada revista "Science" soou o alerta que se tornou referência para trabalhos seguintes: "Século XXI terá ondas de calor mais intensas, mais frequentes e de mais longa duração", dizia o título, resumindo o que a maior parte dos cientistas especializados no clima já esperavam para os anos seguintes.

Naquele ano, os hospitais em Paris ficaram abarrotados. Durante oito dias, a França registrou mais de 40 graus Celsius de temperatura em diferentes regiões no mês de agosto. O calor pegou desprevenida uma população desacostumada a lidar com o problema, já que os verões no continente sempre foram amenos. Até hoje, há pouquíssimas residências equipadas com aparelhos de ar condicionado no país, onde as pessoas idosas, mais vulneráveis, também não se hidratam como deveriam no calor.

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Não levou muito tempo até que o estudo publicado pela "Science" em 2004 fosse corroborado por novos fatos. Em 2006, a Europa foi atingida pela segunda grande onda de calor em quatro anos, com mais temperaturas acima de 40 graus Celsius novamente na França. Países como Reino Unido, Holanda, Dinamarca e Alemanha registraram o seu mês de julho mais quente de todos os tempos. Mais de 3,4 mil pessoas morreram no Velho Mundo. Ondas de calor também afetaram os Estados Unidos naquele ano. Em Los Angeles, a temperatura chegou a 48 graus.

Em 2010, uma onda de calor na Rússia levou a extensas perdas agrícolas, muito incêndios florestais e algo em torno de 55 mil mortes, principalmente na capital do país, Moscou.

Ondas de calor acontecem quando sistemas de alta pressão se tornam estacionários, influenciadas por ventos na "traseira" que continuam jogando ar quente para a região, que vira uma "fornalha". Grandes cidades sofrem ainda mais, por serem "ilhas de calor". A frequência e a intensidade com que esses eventos passaram a ocorrer nos últimos anos não podem, de acordo com os estudos, ser explicadas por variações naturais do clima global. Somente se levarmos em conta as mudanças causadas pelo homem, esses picos de temperatura fazem sentido.

De acordo com uma pesquisa publicada recentemente pela revista "Nature", as ondas de calor vêm ocorrendo com mais força e frequência em diferentes partes do mundo, mas a Europa é a área mais afetada por esse recrudescimento. Segundo o trabalho, esse evento extremo se agravou de forma três ou quatro vezes mais rapidamente no Velho Mundo. Para especialistas, alterações derivadas do aquecimento global na corrente de jatos atmosféricos do círculo polar ártico são uma causa provável para o aumento de fenômenos como ondas de calor e chuvas torrenciais na Europa.

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Um estudo publicado no períodico científico "Nature Climate Change" em 2021 mostrou que 37% das mortes causadas por calor não teriam acontecido se não fossem as mudanças climáticas provocadas pela ação do ser humano. A equipe de epidemiologistas investigou dados de temperatura e mortes no verão de 732 localidades em 43 países, de 1991 a 2018.

Mas como alguém morre de calor?

Manter a temperatura corporal em torno dos 36 graus é essencial para as funções biológicas de uma pessoa. A exposição ao calor extremo interfere nessa capacidade e, se um indivíduo não consegue controlar sua temperatura, corre o risco de experimentar uma série de adversidades. Câimbras, exaustão e insolação grave são condições médicas ligadas a altas temperaturas. Mas o calor extremo pode levar, indiretamente, a problemas cardiovasculares, o que aumenta a incidência de enfartes.

As câimbras de calor causam forte dor e até espasmos em músculos das pernas e abdômen, além de intensa sudorese. Já a exaustão pode levar a sudorese, enjoo, fraqueza, pulso fraco e desmaios. A insolação grave gera alterações do estado mental, dor de cabeça, náusea e tonteira, além de aceleração da circulação sanguínea, sudorese e perda de consciência. Dessas três consequências do calor extremo, a insolação é a mais séria e, normalmente, exige atendimento médico.

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