Onde cabemos todos

É claro que o Brasil não anda lá muito bem das pernas. Se você não tiver preconceitos, se for uma pessoa que não se importa em falar mal do que ama, não vai sofrer quase nada com essa intuição crítica difícil de ser ignorada. A única saída a que você pode recorrer é lembrar e repetir sempre que não é o Brasil que não anda muito bem das pernas. É o mundo.

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Houve um tempo, uma metade do século XX, em que ainda se recorria a mitos através dos quais as pessoas alimentavam seus sonhos de bem-estar, de progresso e liberdade, de igualdade e justiça. A coisa era tão grave e tão típica que perdi uma adorável namorada porque não estava de acordo com ela — não havia fome em Cuba, embora a liberdade fosse uma dúvida.

A pandemia da Covid não foi o fim da História. Ela tem mais a cara de ter sido assim como um teste para a entrada da humanidade no ringue de seu terceiro e decisivo encontro para a formação de uma civilização viável. No primeiro, antiquíssimo, aprendemos a reconhecer a nós mesmos no outro, descobrimos nossa inteligência original e criadora, nossa capacidade de abstração para o bem e para o mal, nossa capacidade de viver nesse planeta. Éramos muitos, mas aprendemos que não éramos parecidos com nenhum outro bicho ou planta.

Quando achamos que, embora meros hóspedes, podíamos nos tornar senhores do mundo, achamos também que seríamos mais fortes se vivêssemos juntos e organizados. Para isso, foi preciso criar regras e modos de viver incontornáveis, que nos permitissem existir e fazer parte de tudo, como as montanhas, as ondas do mar e o ar em que os passarinhos voam. Inventamos a sociedade.

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Depois explodimos bombas para ver quem era mais forte e merecia ficar com o melhor pedaço do cadáver do planeta. A natureza aturou nossa bagunça por uns 13 bilhões de anos, mas agora parece não estar mais a fim de segurar a onda.

Aí solta, para cima de nós, os seus cachorros doidos, dos quais esse vírus é apenas uma matilha de vanguarda. Ou a gente faz um acordo com a natureza ou é melhor desistir de existir. Bobos somos nós, que confiamos mais em nossas cabeças e em nossos músculos que, nesse caso, não servem para nada, mesmo se contarmos com todos os cerca de oito bilhões de seres humanos que moram no planeta. Todos eles, juntos ou separados, são inúteis.

A única coisa que faz nossa diferença no mundo, que nos destaca diante dos outros, é a solidariedade. Os bichos podem andar em grupos homogêneos, mas sem a participação indesejável dos que são diferentes. Mesmo sem o desejo disso, a hipótese de nossa vontade.

Foi o ser humano que inventou a solidariedade e somente nós a praticamos sobre a face da Terra. Se não a praticássemos, a natureza se reduziria a uma constante guerra entre todos pelo melhor abrigo e alimento. Uma guerra sem vencedor e sem sobrevivente. Por que temos que nos submeter ao mal natural se podemos inventar outro mundo a partir de um pensamento solidário?

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