Onde está o alerta do Datafolha para Bolsonaro

Miguel Caballero

Se a avaliação da população sobre a atuação do presidente Jair Bolsonaro na crise do conoravírus, medida pela pesquisa Datafolha, mostra grupos de tamanhos equivalentes entre os que a consideram ótima/boa (35%) ou ruim/péssima (33%), um recorte específico deve preocupar o Planalto. Os que consideram o desempenho do presidente ruim ou péssimo chega a 51% na faixa dos mais ricos (46% entre os mais escolarizados).

É um salto, se comparado à pesquisa Datafolha de avaliação do governo em dezembro. No grupo dos que ganham acima de dez salários mínimos, Bolsonaro tinha 44% de ótimo/bom. Há três meses, eram apenas 28% os que, nessa faixa, achavam sua gestão péssima/ruim, número que saltou para 51% na crise sanitária. Embora minoritário na sociedade brasileira, o eleitorado de renda mais alta foi um dos pilares da vitória do presidente em 2018. É, também, uma parcela que costuma ter mais acesso às notícias, refletindo mais rapidamente tropeços políticos como os que Bolsonaro vem acumulando nas últimas semanas.

Bolsonaro voluntariamente colou em si mesmo a pecha de governante que minimizou a crise. Ignorou recomendações médicas, deu seguidas declarações minimizando a pandemia, até ser obrigado pela realidade a mudar de tom. Seu comportamento errático diante da crise já lhe custou desgastes, evidenciados por exemplo nos panelaços da semana passada, e eles podem se avolumar.

O presidente tem tempo para tentar evitar que a avaliação negativa na faixa dos mais ricos se expanda para estratos mais populosos. Entre os mais pobres, a reprovação à sua atuação diante da pandemia ainda é de 33%, segundo o Datafolha. Mas as perspectivas não são boas.

No Brasil, a crise do coronavírus ainda está no estágio de corrida para prevenir uma tragédia maior. Ainda há poucas mortes contabilizadas, e elas virão em maior número, preveem os especialistas. Se o drama explicitar a estrutura hospitalar insuficiente no país, ficará mais difícil convencer as pessoas de que os governantes estão atuando bem. A outra frente no horizonte não é mais animadora para Bolsonaro. As projeções dos economistas apontam para uma estagnação, com risco de recessão da economia brasileira.

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