Onde estarão os blindados militares em 1º de janeiro de 2023?

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Brazilian President Jair Bolsonaro along with Armed Forces commanders and ministers, attend a military vehicles paradre in front of the Planalto Palace in Brasilia, on August 10, 2021. - Bolsonaro is accused of using the armed forces for a show of force to intimidate National Congress, where a bill is being debated to modify the electronic voting system. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Foto: Evaristo Sá / AFP) (via Getty Images)

Quem duvida das inclinações golpistas de Jair Bolsonaro provavelmente estava dormindo ou não prestou atenção às suas manifestações públicas, para quem quisesse ouvir, desde que se abrigou na política para fugir da expulsão no Exército.

Pouco ou nada mudou entre o presidente de hoje e o deputado convicto de que com o voto não se mudaria nada no país. O mesmo parlamentar prometia que, caso um dia fosse eleito presidente, daria um golpe no dia seguinte. E lamentava o fato de a ditadura ter matado pouco, em seu entender.

Aquele deputado das bravatas é o mesmo sujeito que flerta agora com a irresponsabilidade ao acusar, sem provas, o sistema de voto fiador da democracia em seu país e promete jogar fora das quatro linhas quando precisa responder pelos atos e falas à beira da delinquência.

Acuado com o avanço da CPI da Pandemia, as suspeitas sobre compras de vacinas e as revelações sobre reembolso em verões passados nos gabinetes parlamentares da família, Bolsonaro apostou no caos ao eleger o voto impresso, esperta e equivocadamente chamado de “voto auditável” (o atual já o é), como seu novo cavalo de Tróia. 

A proposta de emenda constitucional foi derrotada em comissão especial na Câmara e já estava pautada para ser analisada em plenário no dia em que, veja a coincidência, alguém achou uma ótima ideia levar tanque e outros veículos militares blindados até Brasília para entregar em mãos do presidente o convite para assistir ao treinamento da Marinha em Formosa (GO). O desvio de rota, com os chefes das Forças Armadas posicionadas ao lado do presidente, era parte do espetáculo.

Para bom entendedor, meia demonstração de força, por mais bamba e esfumaçada, basta.

O projeto da moda Primavera-Verão 2022 com corpinho de 1964 verde-oliva tem levantado, com razão, todo tipo de discussão. Vai ter golpe ou já está tendo?

Bolsonaro já não tem projeto de governo. Quer apenas ficar onde está, da forma como for. Vai ultrapassar as quatro linhas, e daí, se precisar, e já se calcula a essa altura quem irá com ele até o fim.

Os contextos são diferentes, claro. A começar pelo alinhamento automático com as potências estrangeiras. Hoje o Brasil é governado por uma persona non grata aos olhares europeus e dos EUA de Joe Biden, contra quem Bolsonaro torceu (e revelou a torcida) antes mesmo da largada.

Bolsonaro também não conta, como contavam os militares pré-64, com o apoio maciço do empresariado nem com a anuência de outros Poderes. Pelo contrário, está na mira do TSE, do STF e das notas de repúdio dos representantes cada vez mais indignados do PIB.

Engana-se, porém, quem imagina que o enterro do voto impresso representaria o fim da escalada bolsonarista. Decerto não era uma “terrível coincidência” a presença do presidente, antes e durante a pandemia, em atos contra o Congresso e o STF coalhados de faixas pedindo “intervenção militar, com Bolsonaro no poder”.

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Como quem vende os anéis para não perder os dedos, o governo acena ao empresariado ao levar aos deputados, no mesmo dia, a proposta de renovação do programa de redução ou suspensão de salários e jornada de trabalho —outra boiada solta no território onde quase 570 mil pessoas morreram na pandemia e quase 15 milhões estão desempregadas.

Mesmo com o alarde da oposição, o projeto é discutido às pressas entre a névoa de jabutis e tanques blindados.

Não será o único aceno governista a quem pode estender as mãos ou as costas mais à frente. A privatização dos Correios e da Eletrobrás está também nesta conta.

É neste cenário que, para agradar ou obedecer o comandante em chefe, os veículos da Marinha cruzaram Brasília como se estes fossem tempos de guerra. Talvez sejam.

Há inúmeras conotações simbólicas no gesto, mas nenhuma responde à pergunta: onde esses mesmos blindados estarão em 1º de janeiro de 2023, quando Bolsonaro precisará estar de pé logo cedo para discursar na cerimônia de seu novo mandato ou passar a faixa para seu sucessor?

Dos muitos sinais, o lançamento do Auxílio Brasil, que substitui e incrementa o antigo Bolsa Família, deixa no ar a possibilidade de que Bolsonaro não desistiu de tentar ganhar a corrida de sua sucessão com votos, eletrônicos ou não. O que ele e seus blindados farão depois disso é o que ninguém, nem mesmo os oficiais em conversas reservadas, são capazes hoje de responder.

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