Onde o Rio falhou no combate ao coronavírus

Entrada da unidade de Nova Iguaçu tinha pouco movimento na quinta-feira

RIO - Ao fim do mês que o Rio de Janeiro viu a explosão de casos de Covid-19 e o pico da pandemia do coronavírus está previsto para o início de junho, estado e município tratam, no momento, da reabertura gradual da economia e das atividades não essenciais a partir da próxima semana. A recomendação dos especialistas, nas últimas semanas, era no caminho contrário: o lockdown. Os números ratificam a visão dos experts. No recorte entre  o dia 1º maio até a quinta-feira, dia 28, o número de mortes teve um salto de 527% (de 921 para 4.856 óbitos, ultrapassando a China), aceleração maior que a brasileira, que cresceu 422%.

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O estado prometeu sete hospitais de campanha, que abririam 1.300 novos leitos exclusivos para Covid-19, até o final de abril. Até agora, apenas o do Maracanã foi inaugurado, com atraso, com 400 leitos, sendo que há vagas ociosas e médicos têm desistido do trabalho por falta de condições. O cronograma para a abertura já foi adiado quatro vezes e, agora, não há mais data definida para a entrega dos demais, segundo a Organização Social Iabas, que ganhou um contrato de mais R$ 700 milhões pelas unidades. O Tribunal de Contas do Estado bloqueou o repasse dos recursos por indícios de fraude.  Os casos que chamam mais atenção são em Nova Iguaçu e São Gonçalo. Ao longo do mês, a fila de espera chegou a mais de mil pacientes. Na última atualização, são quase 300 pessoas.

 

No avanço diário do vírus no Rio em maio, operações da Polícia Federal atingiram a Secretaria estadual de Saúde numa investigação de suspostas fraudes nas contratações emergenciais durante a pandemia com valores de quase R$ 1 bilhão no total. O ex-subsecretário Gabriell Neves foi preso acusado de integrar organização criminosa que visava a ter vantagens nos contratos sem licitação. A Operação "Mercadores do Caos" trouxe à tona que dos mil respiradores comprados com três empresas  apenas 52 foram entregues. Nenhum deles era específico para o tratamento da Covid-19. Outra investigação chegou até a Iabas, responsável pelas unidades de campanha, que tem ligação com grupo acusado de desviar recursos da saúde do estado. O secretário de Saúde Edmar Santos, também investigado, foi exonerado do cargo e colocado numa secretaria especial de especialistas; o órgão foi desfeito na quinta-feira. Por fim, a Operação "Placebo" bateu na porta do Palácio Laranjeiras para investigar o envolvimento do governador Wilson Witzel e a primeira-dama Helena Witzel com empresas acusadas de fraudes.

Apesar das determinações do Ministério Público Federal, os seis hospitais federais na capital ainda contam com 770 leitos ociosos por falta de profissionais. O MPF exigiu a contratação imediata dos recursos humanos para que as vagas sejam abertas. No início da pandemia, o Hospital Geral de Bonsucesso foi esvazido para ser unidade de referência ao coronavírus, mas não disponibilizou todos os leitos.

A prefeitura passou a ocultar na segunda semana de maio os números de mortos por Covid-19 na capital. De acordo com a Secretaria municipal de Saúde, o método de contagem seria refeito apenas com o número de mortes cujos atestados de óbito contêm confirmação de infecção pelo vírus. Os casos registrados nos hospitais como Covid-19 mas sem o resultado do teste não seriam contabilizados. Dessa forma, os números caíram e havia uma diferença entre o publicado pela cidade e o pelo estado. Após críticas de especialistas, a SMS passou a publicar os dois números no painel diário.

O estado e a prefeitura não criaram um programa de testagem em massa para identificar os casos de contaminados no Rio e, dessa forma, isolar os locais mais afetados e fazer o caminho da infecção. Inicialmente, a dificudade estava na compra dos insumos e na capacidade de testagem. Porém, não há mais esse problema uma vez que os laborátorios privados realizam testes pagos em maior quantidade que o sistema público. O protocolo não mudou na rede de saúde: apenas pacientes internados, profissionais da saúde e outras categorias são testados. Esrudos apontam que o estado pode ter até 15 vezes mais o número de casos confirmados.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, a falta de profissionais da saúde e de equipamentos de proteção são denunciados nas unidades municipais, estaduais e federais do Rio. Eles têm sido um dos mais afetados pela Covid-19 pelo contato direto com o vírus e, por isso, um alto número de profissionais já precisou ficar afastado das suas funções. Ao todo, o estado contabilizava mais de 60 mortes de médicos e enfermeiros até meados de maio. As más condições de trabalho, seja por falta de EPIs, insumos e de garantias trabalhistas, também afastam os profissionais das vagas oferecidas. Ao todo, a prefeitura abriu 5 mil vagas e ainda não havia preenchido metade delas até a primeira semana de maio.

No primeiro mês da pandemia, a prefeitura manteve as escolas abertas apenas para a entrega da merenda. O MP determinou o fechamento das escolas para evitar aglomerações e o município decidiu oferecer vouchers de compras para as famílias dos alunos usarem nos supermercados. No entanto, milhares de famílias ainda não foram beneficiadas.

Apesar de os decretos municipais e estaduais determinarem o fechamento dos serviços não essenciais, recomendarem a permanência da população em casa e implementarem medidas de distanciamento social, o isolamento social não foi massivo. As taxas variaram ao longo dos últimos meses, com cenas de aglomerações em transportes públicos, calçadões comerciais, orla da praia, parques e agências da Caixa Econômica Federal por causa do auxílio emergencial. Além de denúncias de comércio não essencial aberto e festas clandestinas. Nas últimas semanas, as taxas aumentaram e chegaram a 80% de isolamento na capital.