ONG de Sebastião Salgado lança campanha para recuperar Mata Atlântica

Ana Lucia Azevedo
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AIMORÉS (MG) - No alto da serra onde Minas Gerais se encontra com o Espírito Santo, uma peroba-amarela de 40 metros de altura, uma das gigantes da Mata Atlântica, parece fitar o Rio Doce, a dois quilômetros dali. A seus pés, jovens perobas, da altura de homens, crescem numa floresta criada onde há 20 anos havia pasto degradado. Perto delas, mudas estão prontas para o solo. Mais que futuras gigantes, são símbolos de esperança. Provam que trazer a mata de volta e recuperar a terra arrasada é possível.

As raras árvores nobres da Mata Atlântica chamam a atenção para a campanha que o Instituto Terra (IT) lança este mês em prol da restauração e para divulgar o próprio trabalho. Esta é uma história iniciada há 22 anos pelo casal Lélia Deluiz Wanick Salgado e Sebastião Salgado, fundadores do instituto, sede da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG).

A fazenda é a primeira e até agora única RPPN do país criada em terra totalmente degradada, um pasto estéril açoitado pela erosão e a seca, diz a diretora-executiva do IT, Isabella Salton.

Da velha pastagem restou uma imagem captada por Sebastião Salgado (ver abaixo). Hoje ali há uma floresta verde. Salton mira a mata e aponta árvores crescidas em torno da rainha, a velha peroba do alto da serra, que sobreviveu miraculosamente a séculos de exploração.

— Essa mata é fruto de um sonho concretizado com planejamento, ciência e anos a fio de trabalho pesado em campo — enfatiza Salton. — Aprendemos a selecionar espécies, plantá-las, a educar os produtores rurais sobre o valor da floresta em pé e ajudá-los a recuperar suas nascentes. É isso que queremos continuar a fazer.

Sebastião Salgado conta que decidiram fazer a campanha porque o IT não é conhecido nas cidades, a despeito do trabalho consolidado em campo.

— Temos o maior programa de águas do planeta, e almejamos recuperar o Rio Doce. Mas para isso precisamos do apoio da sociedade — afirma Sebastião Salgado, por telefone, de sua casa em Paris; ele e Lélia esperam voltar ao Brasil assim que tomarem a segunda dose da vacina contra a Covid-19.

Reflorestar o Brasil

Após plantar 2,3 milhões de árvores e proteger 2.000 nascentes em 35 municípios da Bacia do Rio Doce, o instituto quer muito mais. Almeja semear no Brasil a restauração florestal, pauta na qual é pioneiro e especialista.

Embalado pela voz de Gilberto Gil, o trabalho do Instituto Terra virou música. Depois de “Refazenda” e “Refavela”, Gil canta “Refloresta”, lançada no programa "Fantástico" deste domingo (21). A canção é uma declaração de amor às florestas brasileiras e tem como título o nome da campanha do IT, que chega junto com o início da Década Mundial de Restauração de Ecossistemas das Nações Unidas.

— Temos que trazer a Mata Atlântica de volta, fazer a vida possível outra vez no que hoje é terra arrasada, assim como fizemos em nossa RPPN — diz Sebastião Salgado. — Há 22 anos, a área era um deserto. Hoje, temos uma floresta renascida, com 173 espécies de pássaros, muitos mamíferos, até a onça parda voltou. É resultado de um projeto conjunto, da Lélia e meu e do conselho do Instituto Terra.

Reflorestar, na Bacia do Rio Doce, é preciso. O Doce é só amargor, a devastação dentro da destruição da Mata Atlântica. Se no Brasil resam 12,4% do bioma, nesta região há pouco mais de 1% das florestas que maravilharam naturalistas como o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que esteve por lá em 1818 e disse que “diante dessa natureza tão possante e austera; minha imaginação se assustava”.

Lélia Salgado destaca que restaurar a Mata Atlântica é “cuidar da casa onde vivem 70% dos brasileiros”.

— Precisamos de ar, de água, de clima regulado e de solos férteis. Sem florestas não teremos nada disso — diz Lélia. — Muita gente ainda não entendeu que o meio ambiente somos nós. E as pessoas precisam saber que mesmo a terra mais desgraçada tem salvação se houver vontade.

A peroba amarela, endêmica da Mata Atlântica do Sudeste, já foi abundante, mas séculos de derrubadas a transformaram em raridade. Cedeu lugar ao pasto e, depois, exaurida a terra, ao nada.

É uma história que se repete pela bacia. Do tamanho de Portugal, trata-se de uma sucessão de vales baixos cobertos, quando muito, por capim, que à primeira chuva se rompem e expõem as entranhas de argila vermelha. Esta arrasa propriedades, interrompe estradas e aumenta o assoreamento do Rio Doce e seus afluentes, num ciclo de destruição.

O destino da peroba tiveram centenas de outras espécies, como a braúna, o jequitibá, o jacarandá e a bapeba, explica o engenheiro florestal Fabio Tomas, responsável pela Unidade Ambiental do IT. A bapeba, cuja semente se assemelha a uma joia, é um tesouro da floresta, que alimenta pacas, porcos, cutias e, por consequência, as onças que caçam os herbívoros.

Essas espécies nobres não são chamadas de “mães da mata” à toa. A vida gira à sua volta. Fornecem alimento, abrigo e nutrientes para as criaturas da floresta. Porém, são exigentes para crescer e, sem as condições adequadas, jamais chega à fase adulta.

Mudar o futuro

A floresta renascida da Fazenda Bulcão ocupa 609 hectares e tem 230 espécies de árvores e arbustos nativos da Mata Atlântica da região do Doce. As mudas são produzidas e plantadas pelo IT, com técnicas de ciência de ponta. As sementes, porém, precisam ser coletadas a até 200 quilômetros da sede.

— Tenho 77 anos. Quando era criança ainda havia floresta e pensava que ela não terminaria nunca. Ela se foi quase que completamente — acrescenta Sebastião Salgado. — A Mata Atlântica nos mostra que se o país seguir o mesmo caminho, o futuro da Amazônia será sombrio.

O fotógrafo conta que, graças a uma parceria com o KFW (o banco de desenvolvimento da Alemanha), o IT tem um projeto para recuperar 5.000 nascentes, beneficiando cerca de 2.500 produtores rurais e plantar um milhão de árvores em oito anos. O projeto inclui ainda programas de educação ambiental e assessoria técnica aos produtores.

Outro projeto, este com a seguradora suíça Zurich, também prevê o plantio de um milhão de árvores de 120 espécies da Mata Atlântica até 2027. Este ano, já estão sendo produzidas e plantadas 100 mil mudas. Todo o trabalho conta consultoria de centros de pesquisa acadêmica e os resultados serão objeto de estudos científicos.

— Podemos levar essa experiência a toda parte e recuperar outros rios, como o Paraíba do Sul —entusiasma-se Sebastião Salgado. — Se o ser humano deixar, daqui a 500 anos, mil anos, essas florestas ainda estarão vivas. Serão dezenas de milhares de perobas, de jequitibás, uma coisa fantástica.

Retorno das nascentes

A chuva que caiu antes do carnaval disfarça com verde temporário as marcas da seca constante. Mas, quando não chove, o que é quase regra em Itueta (MG), no Vale do Rio Doce, a nascente protegida na fazenda em que Roberto Carlos Marques de Amorim trabalha se torna uma ilha de verde em meio à aridez de pastagens ressequidas e solo pobre.

A nascente começou a ser recuperada em 2019, como parte do projeto Olhos D’Água, do Instituto Terra. A meta do projeto é recuperar as nascentes da Bacia do Rio Doce.

E esse olho d’água cuidado por Amorim havia quase desaparecido, assim como os riachos e cachoeiras que deram à cidade o nome. Conta-se que Itueta é uma palavra de origem indígena que significa muitas cachoeiras.

Se foram córregos e nascentes porque desapareceram as florestas que os protegiam. Itueta se desenvolveu no início do século XX da exploração de madeira, hoje praticamente inexistente na região.

As nascentes se foram com a Mata Atlântica e para tê-las de volta é preciso replantar e proteger as árvores. Ensinar aos produtores como fazer isso e ainda cercar a área para evitar o pisoteio pelo gado é o trabalho de técnicos ambientais do IT, como Tiago da Silva de Jesus, de 23 anos, formado pelo próprio instituto.

_ É um trabalho sem fim de cuidados com as árvores e com as cercas, para técnicos e produtores _ diz Jesus.

Mas ele e Amorim não têm dúvida de que vale à pena. No auge da seca, quando não há nem uma gota d’água à vista, a nascente e sua matinha se tornam um oásis.

_ Antes, só achávamos água boa nos grotões, bem escondida, nas rochas. Mas a água daqui é boa. Por enquanto ainda não é muita, mas não havia nada e, como a floresta nem ganhou altura ainda, acho que ainda teremos mais _ afirma Amorim.

A mata cresce em ritmo infinitamente menor do que a capacidade do ser humano destruí-la. Mas mesmo jovem, protege. Uma necessidade em tempos de clima severo, observa Isabella Salton. Desde 2014, chove por ano na região cerca da metade da média histórica.

_ O projeto Olhos D’Água almeja recuperar o Rio Doce lhe devolvendo as nascentes. Mas salva também a população que depende dessa água _ frisa Salton.