ONGs cariocas fazem a ponte entre pessoas em busca de trabalho e empresas

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, o número de empregados sem carteira assinada no setor privado foi o maior da série histórica, iniciada em 2012: 13,2 milhões de pessoas. Hoje, são 10,1 milhões de desempregados. Para ajudar a mudar esse panorama, multiplicam-se ONGs, projetos e iniciativas que ajudam a fazer o elo entre essas pessoas e as oportunidades. Na Zona Sul, surgiu uma rede de mulheres criativas, que se conectam de forma colaborativa para acessar chances profissionais. É a Freelas Conecta, que tem como objetivo inserir mais mulheres capacitadas no mercado de trabalho, assim como oferecer um ambiente virtual para contratar e gerir freelancers de qualidade, promovendo impacto social.

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A iniciativa foi criada pela antropóloga, advogada, cineasta e pesquisadora de gênero Sophia Prado, que mora em Botafogo. Ela explica que, atualmente, devido às formalidades exigidas para o cadastro de novos fornecedores, as empresas enfrentam dificuldades ao realizar contratações para serviços pontuais:

— Desperdiçam tempo e recursos e acabam reféns de uma lista limitada de profissionais, não obtendo a diversidade que o mercado demanda atualmente. Assim, através de um único fornecedor, o Freelas, elas conseguem encontrar e contratar, por exemplo, profissionais de programação, design, marketing e edição a partir de um único contrato e pagamento.

Sophia acrescenta que o Freelas Conecta é a única plataforma do Brasil que tem como foco a economia criativa e a equidade de gênero. Conta hoje com cerca de 500 profissionais ativas e uma robusta carteira de clientes com empresas como Rede Globo, Petrobras, Play9 e Cultura Inglesa. E integra o portfólio da maior aceleradora social do país, o Instituto Ekloos, que trabalha com iniciativas sociais de forma a profissionalizar a gestão, apoiar o desenvolvimento sustentável e estimular a inovação, possibilitando o aumento do impacto social que cada organização gera em seu território de atuação. Uma das beneficiadas é Marcella Dottling, de 34 anos, editora de vídeo, moradora de Botafogo. Ela está no projeto desde a fase de testes e teve a oportunidade de participar da segunda edição da Mostra de Multilinguagens Corpos Visíveis, gravada no estúdio Labsonica, da Oi Futuro.

—O Freelas é uma plataforma moderna e muito simples de acessar e navegar. Tem um leque abrangente de serviços oferecidos e não só conecta mulheres que estão buscando trabalho, mas também ajuda a capacitar as que têm o sonho de empreender — afirma.

As freelancers podem se cadastrar de forma gratuita na plataforma (www.freelasconecta.com).

Cenário aponta que empresas agora focam em diversidade

A startup Freelas Conecta caminha junto a um mercado que atualmente está em plena expansão, que é o da indústria criativa no Brasil, responsável por movimentar cerca de 2,6% do PIB. Calcula-se que existam 1,3 milhão de pessoas trabalhando como freelancers hoje no país, o terceiro com mais profissionais deste tipo no mundo, demonstrando se tratar de um segmento com grandes perspectivas de crescimento.

—Oferecemos uma rede de apoio para um segmento que vem sendo precarizado no mercado. Além de desburocratizar esse tipo de contratação para empresas, transformando um investimento que já seria realizado em uma ação de impacto social para as mulheres — diz Sophia Prado, criadora da Freelas.

Em um efeito dominó do bem, a Freelas também é apoiada por outra organização, o Instituto Ekloos. Andréa Gomides, criadora do Ekloos, explica que a Freelas passou pelo programa de aceleração social. Organizações, como a criada por Sophia, podem ser impulsionadas nas áreas de gestão, projetos, negócios, marketing e tecnologia, por meio de reuniões e cursos com os mentores do instituto e convidados de várias áreas.

—Diante de um cenário em que as empresas precisam investir em diversidade, a startup aparece como uma solução para reduzir a complexidade de contratação das empresas e possibilitar a diversidade, principalmente de gênero — afirma Andréa.

Já na área da Tecnologia, a Recode, uma ONG que já impactou mais de 1,8 milhão de pessoas com seus projetos e que foi criada há há 27 anos, têm como objetivo desenvolver nos jovens habilidades digitais. Um dos braços da ONG são os Centros de Empoderamento Digital (CEDs). Hoje, são mais de 500 CEDs espalhados pelo Brasil. Na Zona Sul, há CEDs no Solar Meninos de Luz e na Estação Futuro, ambos em Copacabana; e no Instituto Dara, em Botafogo.

Os espaços têm internet, e a comunidade pode acessar as trilhas formativas gratuitas da Recode em uma plataforma de ensino on-line e também participar do projeto Recode Pro, com foco em inserir pessoas no mercado de trabalho. Eryc Freire e Luiz Miguel Ferreira, ambos de 15 anos, são alunos do 9º ano do Solar Meninos de Luz, onde fica um dos CEDs da Recode. Eles começaram a fazer as trilhas formativas no início do ano, por causa do incentivo do diretor de tecnologia e infraestrutura do Solar, Hermom Tangarife. Não demorou para que se destacassem. Hoje, os dois são monitores.

— Como tivemos destaque no curso, fomos convidados a ser monitores do departamento de tecnologia e ajudamos os outros alunos, explicando o que eles têm que fazer. O que mais me impactou foram as aulas de Power Platform, que nos ajudam no mapeamento que estamos fazendo dos dados do Solar — afirma Eryc.

Ele e Luiz Miguel podem optar por fazer uma oficina de orientação de carreira, patrocinada pela Microsoft, com uma especialista em RH, que ajuda os alunos a montarem o currículo e a se preparem para entrevistas, entre outras ações. Qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade — sobretudo LGBTQIA+, negros e mulheres — pode se matricular nos CEDs, pelo -mail comunicacao@recode.org.br.

Idealizado pela publicitária Luiza Serpa, o Instituto Phi também conecta pessoas, organizações e informações para promover a cultura da doação. Em oito anos, mais de R$ 146 milhões foram doados e 1.200 projetos sociais apoiados, beneficiando mais de dois milhões de pessoas. Uma das organizações apoiadas é o Instituto Dom, na Rocinha, que tem como missão apoiar microempreendedores em situação de vulnerabilidade social, por meio de doações e capacitações. Um dos destaques é o projeto Empreender e Crescer, que oferece apoio para 34 mulheres empreendedoras, vulneráveis social e economicamente, moradoras da comunidade. Este apoio empreendedor é oferecido ao longo de quatro meses, buscando geração ou aumento de renda.

— A importância do terceiro setor é fundamental porque é através da filantropia, fortalecendo os projetos sociais e as organizações sem fins lucrativos, que a gente consegue dar oportunidades para as pessoas com vulnerabilidade social, que, por muitas vezes, não conseguem ter acesso a essas oportunidades. Por meio das ONGs e dos projetos de capacitação profissional, as pessoas conseguem ter, num período menor de tempo, uma capacitação qualificada e, consequentemente, começam a gerar renda e serem inseridas no mercado de trabalho com um emprego formal — diz Luiza Serpa, fundadora e diretora-executiva do Instituto Phi.