ONGs fomentam negócios nas favelas para potencializar efeito local do consumo dos moradores

O movimento de motos, carros e pedestres começa cedo na rua Itamotinga, em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo. À medida que o dia avança, o vaivém fica ainda mais intenso, especialmente no número 100. Ali está o pavilhão do G10 Favelas, uma das principais organizações sociais do país voltadas ao desenvolvimento socioeconômico dos moradores das favelas.

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Paraisópolis e Heliópolis estão entre as comunidades de São Paulo que integram o G10. Há ainda Rocinha e Vila Cruzeiro, no Rio, e outras em Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Maranhão e Distrito Federal. O nome G10 é uma alusão ao G7, grupo dos países mais industrializados do mundo, e pretende traduzir a geração de riqueza nestas comunidades. Atualmente, são 389 favelas ligadas ao grupo.

Pesquisa da Outdoor Social Inteligência indica que há no Brasil 6,2 mil comunidades espalhadas pelo país, que abrigam cerca de 11 milhões de pessoas. O potencial de consumo é estimado em R$ 167 bilhões por ano. Boa parte desses recursos fomentam pequenos negócios nas próprias comunidades. De acordo com o instituto de pesquisa de Paraisópolis, Favela Diz, 71,5% dos moradores da comunidade fazem suas compras no comércio local.

— Os moradores de Paraisópolis e Heliópolis são diretamente impactados por ações de empreendedorismo que vêm acontecendo naturalmente nas comunidades — afirma Marx Rodrigues, CEO do Grupo Sou+Favela.

Crédito de até R$1,5 mil

Pelas contas do presidente do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, existem hoje mais de 200 empreendimentos sendo tocados nessas comunidades pelos próprios moradores. Para impulsionar esses negócios, Rodrigues criou a Sociedade de Crédito Direto Slum (favela, em inglês). As operações são exclusivamente para a abertura ou expansão de negócios locais e o valor dos empréstimos pode chegar a R$ 1,5 mil.

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Para ter acesso ao dinheiro, o candidato precisa se submeter a uma análise de crédito, com critérios que variam de reputação do tomador no bairro a viabilidade do negócio pretendido. A nota aceitável vai de 15 a 25 pontos. Se ficar com pontuação abaixo da mínima, o candidato recebe uma espécie de consultoria para melhorar seu score e conseguir o dinheiro.

— Não emprestamos dinheiro para reforma de casa. É sempre para empreender e depois de uma avaliação criteriosa sobre quem está pedindo — afirma Jaqueline Amorim, diretora da sociedade de crédito e que acaba de se tornar CEO do G10 Bank, banco digital que acaba de ser criado em Paraisópolis como serviço complementar à Slum.

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Desde 2020, a Slum já realizou 85 operações, das quais 15 para pessoas jurídicas e 70 para microempreendedores individuais. O que faz a diferença para o tomador são as taxas de juros, que não passam de 0,99% ao mês.

— Nossa taxa de inadimplência é zero. Quando alguém precisa atrasar o pagamento, vem se explicar pessoalmente — diz Jaqueline.

O G10 Favelas não é o único hub de negócios instalado em comunidades. O Favela Holding, uma espécie de spin off da Central Única das Favelas (CUFA), reúne sob seu guarda-chuva 24 empreendimentos e estima fechar 2022 com receita de R$ 178 milhões. Celso Athayde, CEO do Favela Holding, projeta movimentar R$ 1 bilhão dentro de três anos, o que o colocará como um dos maiores ecossistemas de negócios de impacto social da América Latina.

App para medir efeitos

Atualmente, segundo ele, o Favela Holding tem mais de 32 mil colaboradores, em negócios que vão de agências de viagem, como a Favela Vai Voando, até o Favela Money, plataforma de pagamentos e compras on-line. Há ainda o Favela Filmes — empresa de audiovisual, responsável pela produção dos vídeos das ações da CUFA e da Favela Holding —, que se prepara para lançar documentários focados na realidade local.

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Gilson Rodrigues, do G10 Favelas, Celso Athayde, da CUFA, e Edu Lyra, de outra organização, a Gerando Falcões, formam a trinca de empreendedores sociais que não só conhecem o potencial das comunidades, por serem oriundos delas, como trabalham para reduzir o estigma que acompanha seus moradores.

— Desde muito cedo percebemos que a maneira como somos vistos pode nos ajudar ou atrapalhar — resume Rodrigues, que desde os 5 anos mora em Paraisópolis.

A Gerando Falcões conduz um dos maiores cases de reurbanização de comunidades do país. Nada menos que 239 famílias foram removidas da favela Marte, de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Em parceria com o poder público e a iniciativa privada, elas estão construindo novas casas, asfaltando ruas, instalando iluminação e saneamento onde não tem.

O investimento total no projeto é de cerca de R$ 15 milhões, segundo Beatriz Riba, gerente de projetos da Favela 3D — que quer dizer favelas dignas, digitais e desenvolvidas.

— A favela é aquele resto de cidade, é o lugar que ninguém quis. E transformar esses locais é uma forma de derrubar as barreiras invisíveis que separam esses espaços do resto da cidade — afirma Beatriz.

O trabalho de reurbanização das comunidades é apenas uma das várias frentes da Gerando Falcões. Ela trabalha com cerca de 1,2 mil ONGs no país, oferecendo aos líderes comunitários dessas organizações cursos com temas sobre relação com o poder público, captação de recursos e gestão de orçamento, entre outros. Tudo sob o guarda-chuva da Falcons University, criada em 2020. No total, eles impactam mais de 6,4 mil favelas e alcançam 715 mil pessoas.

Medir o impacto de cada ação não é tarefa fácil. Com esse objetivo, a ONG vai lançar o Índice de Desenvolvimento Social, um aplicativo que deve ser lançado ao longo de 2023, para mensurar os efeitos das iniciativas.