ONGs querem arrecadar cestas básicas para 223 mil famílias

Pedro Zuazo e Rafael Nascimento
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RIO — “Aqui é assim: só tem uma refeição, ou é almoço ou jantar”, diz Valquíria dos Santos, de 28 anos, enquanto mostra o interior de seu pequeno barraco de madeira. Para alimentar os dois filhos, a ambulante conta com a ajuda de uma ONG. As crianças brincam em meio ao lixo espalhado pela rua da comunidade Parque Vila Nova, em Duque de Caxias, onde vivem cerca de 60 famílias, todas abaixo da linha da pobreza.

— O que me machuca é o meu filho vir pedir alguma coisa e eu não poder dar nada — conta Valquíria.

Os moradores da comunidade recebem doações de cestas básicas e itens de higiene pessoal da ONG Movimenta Caxias. A organização chegou a entregar mais de 40 mil cestas no ano passado, após fazer uma campanha de arrecadação pela internet. Mas, nos últimos meses, a fonte de solidariedade secou.

— Quando chega alguma coisa, a gente direciona para quem está passando mais fome — lamenta Vitor Lourenço, idealizador da ONG.

O caso não é isolado. Após uma onda solidária no início da pandemia, um novo cenário atormenta o trabalho das ONGs que distribuem alimentos em comunidades e favelas cariocas: de um lado, o aumento dos pedidos de ajuda; do outro, a queda generalizada nas doações.

O movimento União Rio, uma rede de 73 organizações que atuam em 237 comunidades na Região Metropolitana, viu suas entregas despencarem 95% desde o início da pandemia. Em abril de 2020, foram distribuídas 67.801 cestas básicas. Já no mês passado, apenas 3.020.

— As doações caíram no pior momento, quando as famílias deixaram de ter auxílio emergencial, mesmo com muitos ainda sem poder trabalhar. Então estamos tentando sensibilizar as pessoas a voltarem a doar — apela Andrea Gomides, fundadora do instituto Ekloos, que integra a União Rio.

Uma pesquisa do Instituto Locomotiva feita em comunidades de todo o país mostrou que 82% dos entrevistados dependem de doações para alimentar a família. Segundo o levantamento, o consumo médio dessas famílias não chega a duas refeições por dia.

Campanha nacional

Para tentar reverter o quadro, mais de 200 organizações sociais se juntaram em uma campanha nacional de arrecadação batizada de “Tem Gente com Fome”. Lançada na última terça-feira, a iniciativa pretende doar cestas a 223 mil famílias em todo o Brasil. Para isso, precisa arrecadar R$ 133 milhões em doações diretas, que podem ser feitas no site do projeto (temgentecomfome.com.br). Ontem, a campanha já havia passado a marca de R$ 1 milhão.

Uma das apoiadoras da campanha, a ONG Rede da Maré reduziu sua atuação por causa da estiagem de doações. No ano passado, até o mês de outubro, a organização atendeu 18 mil famílias. Esse ano, foram seis mil.

— Como diminuiu a chegada de doações, paramos com a entrega diária de cestas e passamos a fazer entregas eventuais — diz a idealizadora da ONG, Eliana Sousa. — Ontem, levamos cesta para uma família composta por uma mulher e seis filhos. O marido morreu, e ela não pode deixar as crianças para ir trabalhar.

Moradora da Cidade de Deus, Camila Felix, de 30 anos, passou a pedir a ajuda para alimentar as filhas.

— Tem hora que não tem nada. Fico esperando a ONG ligar para dizer que chegou uma cesta básica — diz.

A busca por alimentos nas comunidades se tornou tão dramática que a ONG Apadrinhe um Sorriso, em Caxias, mudou de função: antes voltada para aulas de teatro, passou a arrecadar alimentos. Chegou a distribuir 1.700 cestas básicas por mês na pandemia, mas no mês passado foram só 50 cestas.

— As doações diminuíram, mas a fome não — diz a fundadora da ONG, Fabiana da Silva, de 40 anos.

Saiba onde e como ajudar

Campanha “Tem gente com fome”: As doações podem ser feitas diretamente no site da campanha: temgentecomfome.com.br. A contribuição pode ser feita via boleto ou cartão de crédito, nos valores de R$10, R$ 50, R$ 100, R$ 500 e R$ 1.000 reais. Também é possível doar qualquer quantia via PayPal, Pix ou depósito bancário.

Redes da Maré: Além de fazer doações pontuais, a ONG também oferece a possibilidade de aderir a planos mensais de contribuição. As instruções estão no site da organização: redesdamare.org.br. Há diversas opções de valores e formas de pagamento.

Ação da Cidadania: As orientações para doações podem ser encontradas no site: acaodacidadania.org.br. As contribuições podem ser feitas via cartão de crédito, PayPal e boleto, entre outras opções.

Movimento União Rio: No site do movimento (movimentouniaorio.org) além de fazer a doação o benfeitor tem o direito de escolher para onde irá o dinheiro. As opções são: a ativação de leitos em hospitais e compra de equipamentos ou para a distribuição de alimentos e itens de limpeza para comunidades.