"Brexit" põe a toda prova coesão política do Reino Unido

Guillermo Ximenis.

Londres, 16 mar (EFE).- O processo do Reino Unido para sair da União Europeia (UE), que foi sancionado nesta quinta-feira pela rainha Elizabeth II e que pode ser ativado a partir de agora, põe a toda prova a coesão política de um país onde estão mais afloradas do que nunca as velhas rivalidades entre europeístas e eurocéticos.

Theresa May, primeira-ministra conservadora, administra um complexo cenário no qual a Escócia quer um novo referendo de independência, a paz na Irlanda do Norte está em jogo e surgem vozes de alarme sobre as consequências do "Brexit" no próprio partido do governo, historicamente dividido em relação à Europa.

"Claramente, há sérios riscos para a estabilidade do Reino Unido", afirmou à Agência Efe Akash Paun, pesquisador do Institute for Government (IfG).

"Não houve uma reflexão profunda antes do referendo de junho sobre o que significa realmente o 'Brexit' e como será implementado", argumentou.

Na Escócia, a perspectiva de perder o acesso ao mercado único levou a primeira-ministra, Nicola Sturgeon, a propor a possibilidade de uma nova consulta em 2018.

O apoio à independência somou apenas alguns pontos nas pesquisas desde setembro de 2014, quando 55,3% dos escoceses optaram por ficar no Reino Unido, mas o "Brexit" trouxe de volta a hipótese de uma autonomia do país, onde 62% da população queria ficar na UE.

"Será difícil para o governo britânico se negar a realizar outro referendo, porque há um precedente. Mesmo assim, pode ser que argumente que os escoceses ainda não conhecem as circunstâncias finais do 'Brexit', por isso não deve ser votado ainda", afirmou à Efe Thomas Lundberg, analista político da Universidade de Glasgow.

Além de uma eventual consulta, o sistema autônomo britânico enfrenta o desafio de distribuir as competências que o Reino Unido recuperará com o "Brexit", em áreas como agricultura, pesca, energia e pesquisa.

Para os governos regionais, as competências que não estão especificamente reservadas para Westminster passarão a ser responsabilidade autônoma, algo que Londres está decidida a reivindicar.

O desacordo ameaça levantar uma nova "tempestade política", nas palavras de David Cetrà, investigador do Centre on Constitutional Change, da Universidade de Edimburgo.

"A União Europeia oferecia um quadro no qual os debates sobre a soberania e as pressões nacionalistas eram acomodados e apaziguados. O 'Brexit' desestabiliza os equilíbrios precários que existiam", indicou Cetrà.

May enfrenta esse quebra-cabeças doméstico em paralelo às difíceis negociações para formular um tratado comercial com a UE, com a possibilidade de não conseguir formalizar um pacto no prazo de dois anos estabelecido no Tratado de Lisboa.

O ex-primeiro-ministro britânico John Major advertiu que o futuro desenhado por May, no qual o Reino Unido se transformará no "campeão global do livre-comércio" quando romper os laços com a União, é "irreal e excessivamente otimista".

Já para o ex-vice-primeiro-ministro conservador Michael Heseltine, o referendo de junho não dá ao governo carta branca para sair do bloco europeu "a qualquer custo".

Poucas horas após fazer essa advertência na Câmara dos Lordes, o veterano político foi retirado do posto de assessor do Executivo.

Essas divergências quebraram a voz única que o Partido Conservador manteve a favor do "Brexit" desde junho, apesar de a maioria dos deputados defender a permanência antes da votação.

"Existe uma poderosa corrente europeísta, ou talvez mais pragmática, dentro do Partido Conservador, que por razões políticas está se mantendo em silêncio", afirmou o analista do Institute for Government.

Para Paul Taggart, analista político e diretor do Sussex European Institute, o partido de May "estava, está e sempre estará enormemente dividido sobre qual deve de ser a relação com a Europa".

Quando "batalha" das negociações com Bruxelas se acirrar, alertou Taggart, os conflitos "não só entre os partidos, mas também dentro deles" podem se multiplicar.

Essas mesmas tensões estão há meses afetando a oposição trabalhista, que viveu diversas rebeliões do grupo parlamentar contra seu líder, Jeremy Corbyn.

O veterano eurocético pediu que seus deputados se alinhem com o governo para facilitar o início do "Brexit", a fim de respeitar o desejo de 51,9% dos britânicos que votaram pela saída da UE.

Em fevereiro, 52 de seus parlamentares se negaram, no entanto, a respaldá-lo na Câmara dos Comuns, após o governo derrubar emendas trabalhistas para defender os direitos dos comunitários e assegurar a transparência das negociações com Bruxelas. EFE