ONU aumenta pressão sobre autores do golpe militar em Mianmar

Agnès PEDRERO
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Min Aung Hlaing é um dos generais de Mianmar na mira das sanções americanas após o golpe

"O mundo inteiro está vendo" a repressão em Mianmar, alertou a ONU nesta sexta-feira (12), ao pedir sanções que castiguem diretamente os responsáveis pelo golpe militar e não afundem a população na miséria.

Em uma sessão extraordinária do Conselho de Direitos Humanos (CDH) dedicada a Mianmar, Nada Al-Nashif, adjunta da Alta Comissária, Michelle Bachelet, afirmou que a ONU "acompanha de perto a situação de mais de 350 responsáveis políticos, representantes de Estado, ativistas e membros da sociedade civil como jornalistas, monges e estudantes, que estão detidos".

"O mundo inteiro está vendo", disse, dirigindo-se aos militares no poder desde o golpe de Estado de 1o de fevereiro e considerando "inaceitável" o uso da força contra os manifestantes.

Al-Nashif também lamentou "as medidas draconianas tomadas para impedir as reuniões pacíficas e limitar a liberdade de expressão", assim como a implantação policial e militar nas ruas.

O embaixador birmanês na ONU, Myint Thu, justificou a ação do exército com "as irregularidades pós-eleitorais".

"Mianmar enfrenta desafios extremamente complexos e uma transição delicada (...). Esperamos impacientes que aconteça uma melhor compreensão da situação que prevalece no país, assim como uma cooperação construtiva por parte da comunidade internacional", disse.

Rússia e China, apoios tradicionais do exército birmanês, forneceram sem surpresa seu endosso a Mianmar. Seus embaixadores na ONU, Gennady Gatilov e Chen Xu, afirmaram que se trata de um "assunto interno" que precisa de um "diálogo" entre as partes interessadas.

"As ações do CDH precisam contribuir para resolver os problemas cruciais, mais do que agravar os conflitos e complicar a situação", insistiu Chen.

A junta militar questiona as eleições legislativas de novembro, vencidas por uma esmagadora maioria pela Liga Nacional para a Democracia (LND), partido de Aung San Suu Kyi.

- Empresas internacionais -

Nada Al-Nashif pediu à comunidade internacional que as sanções a serem tomadas sejam "seletivas". "Os autores deste golpe são o alvo adequado dessas medidas", disse.

"É muito importante que não cause nenhum prejuízo às pessoas mais vulneráveis do país e que o combate à pandemia possa seguir em frente, assim como a ajuda humanitária nas áreas de conflito", insistiu.

O relator especial da ONU para Mianmar, o americano Thomas Andrews, também pediu à comunidade internacional para impor sanções seletivas e embargos sobre as armas.

O enviado também pediu que a ajuda humanitária seja destinada diretamente à sociedade civil, "em vez de passar pela junta" e instou as empresas internacionais a não trabalhar mais com os militares.

Após os debates no Conselho, os países se pronunciarão sobre um projeto de resolução, proposto pela União Europeia (UE) e Reino Unido, condenando o golpe e pedindo a libertação da ex-chefe de fato do governo, Aung San Suu Kyi, e o retorno de um governo civil.

"Os direitos humanos têm que ser respeitados. A violência deve ser evitada", declarou o embaixador português Rui Macieira, em nome da UE.

O projeto de resolução também pede ao relator especial da ONU que avalie a situação no terreno, algo pouco provável porque Mianmar, que coopera pouco com as Nações Unidas, não parece muito disposta a aceitar sua visita.

"Pedimos às autoridades militares que concedam ao Alto Comissário e ao relator especial (...) um acesso ilimitado e imediato" a Mianmar, afirmou Nada Al-Nashif ao Conselho.

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