ONU destaca tragédia no Paquistão como exemplo de 'inferno climático' na COP27

SHARM EL-SHEIKH, EGITO (FOLHAPRESS) - O Paquistão, país que recentemente foi atingido por enchentes catastróficas que deixaram mais de um terço do território inundado, levaram à morte de mais de 1.700 pessoas e impactaram outros milhões, virou um símbolo na COP27 (conferência do clima da ONU) do que pode ocorrer com o agravamento de eventos extremos no planeta.

"O que acontece no Paquistão não vai ficar no Paquistão", profetiza uma frase estampada no estande do país asiático no encontro que ocorre desde domingo (6) em Sharm el-Sheikh, no Egito.

Em discurso nesta segunda (7 ), o português António Guterres, secretário-geral da ONU, afirmou que o mundo está "numa estrada para o inferno climático com o pé ainda no acelerador".

"Se há alguma dúvida sobre perdas e danos [causados pela crise climática], vá para o Paquistão. Lá há perdas e há danos", disse Guterres, que visitou o estande do país, em solidariedade. Ele afirmou que a ONU tentará obter apoio internacional massivo para a reconstrução do país.

Na abertura da cúpula dos líderes mundiais na COP27, realizada nesta segunda, Guterres pregou por um pacto de solidariedade climática, para evitar o futuro terrível que pode aguardar a população mundial.

"A humanidade tem uma escolha: cooperar ou morrer", afirmou, reforçando que o mundo está chegando perigosamente perto do ponto de não retorno. "Ou é um pacto de solidariedade climática ou um pacto de suicídio coletivo."

Guterres convocou países desenvolvidos, emergentes e em desenvolvimento a trabalharem juntos na questão. O secretário-geral ainda citou diretamente as maiores economias do mundo.

"Estados Unidos e China têm uma responsabilidade particular de somar esforços para fazer desse pacto uma realidade. E essa é nossa única esperança de alcançar a nossa meta climática", afirmou.

Guterres também destacou a necessidade de uma rápida evolução nas discussões sobre financiamento para perdas e danos e enfatizou que o assunto não pode mais ser varrido para baixo do tapete.

Mesmo outras crises internacionais, como a Guerra da Ucrânia, não podem desviar a atenção mundial da crise climática, um problema que define uma geração e é "o desafio central de nosso século", segundo o secretário-geral.

Na passagem pelo estande do Paquistão, Guterres afirmou que, enquanto era alto comissário da ONU para os refugiados, viu a generosidade com que o país asiático recebia refugiados afegãos.

"Os exemplos de generosidade precisam ser imitados pela comunidade internacional, que, neste momento, tem o dever de apoiar massivamente o Paquistão", disse, em frente ao enorme painel com a frase símbolo paquistanesa nesta COP.

Pouco antes, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif havia estimado em cerca de US$ 30 bilhões as perdas e danos provenientes das enchentes históricas de 2022. Nas redes sociais, o Sharif agradeceu Guterres por oferecer um time da ONU para a construção de um programa de reconstrução.

Apesar da inclusão de última hora da discussão de financiamento para perdas e danos na agenda da COP, os países desenvolvidos não necessariamente levarão adiante decisões momentâneas sobre o assunto --e o debate pode se estender até 2024.

"Eu espero que seja possível para o Paquistão se beneficiar desses desenvolvimentos [sobre perdas e danos]", disse Guterres.

Ainda durante o seu discurso no início da tarde desta segunda-feira, o secretário-geral anunciou a criação de um plano de ação para, nos próximos cinco anos, haver um sistema universal de avisos meteorológicos --a ideia do projeto já tinha sido citada em março deste ano.

A ideia é conseguir investimentos de cerca de US$ 3,1 bilhões do ano que vem até 2027 para colocar o sistema em ação. Segundo Guterres, um alerta com 24 horas de antecedência para um evento de risco pode cortar os danos em até 30%.

A situação de falta de avisos de condições climáticas críticas afeta especialmente comunidades mais vulneráveis.

"Por isso peço para os países taxarem os lucros das empresas de combustíveis fósseis. Vamos redirecionar esse dinheiro para pessoas sofrendo com os aumentos de custos de energia e comida, e para países sofrendo pernas e danos causados pela crise climática", destacou Guterres.