ONU não vai repetir escolha de 'bebê bilhão' na marca de 8 bi

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Quando nasceu em Sarajevo, aos dois minutos do dia 12 de outubro de 1999, o bebê 6 bilhões tinha 3,55 kg e passava bem. Mas o primeiro filho do casal Fatima Helac e Jasminko Mevic ainda não tinha nome.

Por uma coincidência, o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, fazia uma visita de dois dias à Bósnia e Herzegovina, país ainda sofrendo as consequências da guerra que assolou a região entre 1992 e 1995. Por outra coincidência, as projeções da ONU para que a população atingisse 6 bilhões de pessoas se davam justamente naquele 12 de outubro.

Assim, Annan se dirigiu a uma maternidade e se deixou fotografar com a criança que havia nascido mais cedo naquele dia. O ato foi recebido com festa e gratidão pela família: por causa do líder da ONU, o rapazinho foi nomeado Adnan e ficou conhecido como o bebê 6 bilhões.

Anos depois, a coisa mudou um pouco de tom. Adnan cresceu em um modesto apartamento em Visoko, ao lado de Sarajevo, onde ainda vive com a mãe. Aos 23, se formou em economia, mas está desempregado.

Em 2011, quando estava para nascer a sétima bilionésima pessoa do mundo, repórteres visitaram a casa dos Mevic. Aos 12 anos, o menino gostava de geografia e dizia querer ser piloto de avião. Mas a família estava vivendo mal, o pai tinha problemas de saúde e a única receita da casa era uma pensão social paga pelo governo, com a condição de que Adnan continuasse a frequentar a escola.

Jasminko Mevic reclamava que a ONU não se preocupara com o futuro do menino. "Nós vimos Kofi Annan como se fosse um padrinho para Adnan", disse ao britânico The Guardian na ocasião, acrescentando que não havia recebido praticamente nenhuma comunicação da entidade após o dia do nascimento —que dirá ajuda financeira ou algum tipo de suporte.

Fatima Helac tinha 29 anos quando deu Adnan à luz, mas hoje também não tem recordações tão boas. "Percebi que algo estava estranho porque médicos e enfermeiras estavam se reunindo, mas não sabia o que estava acontecendo", disse ela à BBC. "Estava tão cansada, não sei como me senti."

Naquele dia, no hospital, Kofi Annan justificou a escolha simbólica: "O nascimento da sexta bilionésima pessoa do planeta —um belo menino em uma cidade que volta à vida, com um povo reconstruindo suas casas em uma região restaurando uma cultura de convivência após uma década de guerra— deve iluminar um caminho de tolerância e compreensão para todas as pessoas".

Mas seu porta-voz, Douglas Coffman, jogou água fria: "Não há razões políticas ou quaisquer outras por trás dessa decisão. Se o secretário-geral estivesse em Nova York, teria sido um bebê de Nova York".

A verdade é que não há como a ONU saber com certeza quem era efetivamente o bebê 6 bilhões em 1999 —como não há como apontar o bebê 8 bilhões nesta terça (15). Seja pela qualidade das informações mundiais, que variam a cada país, seja porque nascem cerca de três crianças por segundo no mundo.

Então, Mevic foi o segundo e último "bebê bilhão" indicado pela ONU. Em 2011, por exemplo, a instituição disse que todos os bebês nascidos por volta da meia-noite de 31 de outubro daquele ano poderiam se sentir o sétimo bilionésimo. E, efetivamente, diversos países elegeram o seu, com equipes de TV sendo enviadas para maternidades em todo o globo.

O primeiro indicado foi em 1987, e a história de decepção desse bebê 5 bilhões é semelhante à de Mevic. O croata Matej Gaspar, hoje com 35 anos, foi o escolhido porque o país sediava um evento esportivo na ocasião —mas parece ter detestado a escolha; ou, pelo menos, o fato de a ONU nunca ter dado bola a ele, com exceção do circo midiático que promoveu no dia de seu nascimento.

Adnan Mevic e Matej Gaspar não responderam a pedidos da reportagem para dar entrevistas. Ambos têm páginas no Facebook e são amigos entre si. Segundo uma reportagem recente da BBC, os dois "bebês bilhões" tem basicamente um único assunto: o que consideram um tratamento injusto por parte da ONU em relação a eles e a suas famílias.