ONU pede investigação sobre morte de Kadafi e enterro é adiado

O Globo
21 de outubro de 2011

TRÍPOLI e GENEBRA - Detalhes sobre as circunstâncias da morte de Muamar Kadafi começam a surgir, após um dia inteiro de comemorações na Líbia pelo fim dos 42 anos de tirania do regime do ditador. Mas a possibilidade de que o ditador tenha sofrido uma execução sumária é um dos motivos que levou o governo interino do Conselho Nacional de Transição (CNT) a adiar seu enterro, previsto inicialmente para esta sexta-feira. O alto comissariado da ONU pediu nesta manhã uma investigação completa sobre o caso.

Mais uma vez, não há uma única versão para explicar a decisão. Mas, segundo Mohamed Sayeh, autoridade de alto escalão do CNT, a medida foi tomada para permitir que a morte seja analisada pelo Tribunal Penal Internacional. De acordo com ele, o corpo de Kadafi continua em Misurata, para onde foi levado após sua morte, e será enterrado seguindo a tradição muçulmana, mas sem um funeral aberto ao público.

Já o ministro interino do petróleo, Alo Tarhouni, afirmou que o enterro foi adiado para que fosse encontrado um local adequado. Na quinta-feira, autoridades disseram que o local não seria revelado. De acordo com Tarhouni, ainda não há uma decisão sobre o assunto.

Outra fonte do CNT revelou que há divergências no governo interino sobre o que fazer com o corpo. A divisão ilustra as dificuldades que o grupo enfrentará a partir de agora.

- Eles não concordam sobre o local do enterro. Sob o Islã, ele deve ser enterrado rapidamente, mas eles precisam chegar a um acordo sobre se ele será enterrado em Misurata, Sirta ou algum outro lugar - afirmou a fonte, que pediu para não ter seu nome revelado.

Combatentes do CNT disseram à al-Jazeera que o ditador foi encontrado com base em informações passadas por soldados leais a ele que haviam se rendido. Eles confirmaram a informação de que o ditador foi encontrado em um duto, junto com outras pessoas.

Novo vídeo, divulgado no site Global Post, mostraria o momento imediatamente após sua captura. Ele estava ferido, mas conseguia ficar em pé e parecia resistir.

O primeiro-ministro do CNT, Mahmoud Jibril, foi a público já durante esta madrugada para confirmar que Kadafi realmente estava vivo e ferido quando foi capturado.

Mas, segundo a versão oficial, ele morreu minutos antes de chegar a um hospital, ao ser baleado na cabeça em meio a um tiroteio entre kadafistas e opositores. Para a ONU, a explicação não foi satisfatória.

- Não está claro como ele morreu. Há necessidade de uma investigação - afirmou Rupert Colville, porta-voz do Alto Comissariado para Direitos Humanos das Nações Unidas.

Para Colville, imagens de vídeos que mostram Kadafi vivo após sua captura e depois, já morto, em meio a uma multidão são, "tomadas juntas, muito perturbadoras". Uma comissão internacional, montada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, já está investigando mortes, torturas e outros crimes que teriam acontecido durante a guerra civil na Líbia. O porta-voz disse esperar que o grupo também investigue a morte de Kadafi.

- É um princípio fundamental da lei internacional que pessoas acusadas de crimes sérios possam ser julgadas. Execuções sumárias são estritamente ilgais. É diferente de alguém ser morto em combate - afirmou.