ONU preocupada com 'ataques' a tribunal que investiga crimes de conflitos na Colômbia

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Homem caminha em frente a pichação com a palavra "Paz", em repúdio a massacres executados este ano em Cali, Colômbia, 13 de novembro de 2020

A representante na Colômbia da Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Juliette de Rivero, expressou preocupação nesta terça-feira (23) sobre os ataques das forças a favor do governo contra o tribunal de paz que investiga os crimes mais atrozes do conflito.

"Nos preocupam as declarações de pessoas que buscam desacreditar a imparcialidade e independência dessas instituições (...) colocando-as em risco", afirmou de Rivero na apresentação do relatório que levará ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas em Genebra na próxima quinta-feira.

Em particular, a representante criticou uma iniciativa do partido de direita Centro Democrático de abolir a Jurisdição Especial de Paz (JEP), que surgiu dos acordos que levaram ao desarmamento da guerrilha das FARC em 2016.

"Constitui uma grave ameaça aos direitos das vítimas à verdade, justiça e reparação", enfatizou de Rivero.

Até o momento, o tribunal não emitiu nenhuma condenação, mas condenou oito ex-líderes da guerrilha por mais de 21.000 sequestros e recentemente revelou o número assustador de 6.400 civis executados pelos militares sob mandato do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), fundador e líder natural do partido no poder.

As vítimas eram apresentadas como mortos em combate para inflar os resultados na luta contra os rebeldes da esquerda.

Uribe negou ter instigado as tropas a "violar a lei" quando exigiu "eficiência" e descreveu o relatório do JEP como um "ultraje".

O tribunal, que não tem autoridade para julgar ex-presidentes ou militares que não se submetam voluntariamente, poderá impor penas alternativas à prisão para quem confessar seus crimes, além de reparar suas vítimas ou punir com até 20 anos de prisão os que descumprirem esses compromissos.

Rivero também expressou preocupação com a "grave situação de violência" na Colômbia, golpeada pelo pior ataque de grupos armados desde a assinatura do pacto de paz, em 2016.

Em 2020, a ONU, que documentou ao menos 292 vítimas de massacres, também foi surpreendida pelos assassinatos de ativistas de direitos humanos que exercem atividades de "alto risco", acrescentou.

Embora o pacto histórico com as FARC tenha reduzido a violência política, a Colômbia ainda está imersa em um conflito de quase seis décadas que deixa mais de nove milhões de vítimas, incluindo mortos, desaparecidos e pessoas deslocadas.

Dissidentes das FARC, guerrilheiros do ELN e grupos herdeiros do paramilitarismo de extrema-direita lutam atualmente pela renda do narcotráfico, da extorsão e do garimpo ilegal.

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