ONU pressiona EUA para reverter classificação de 'terrorista' dos houthis do Iêmen

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(ARQUIVO) O subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários e coordenador de assistência de emergência, Mark Lowcock, em Genebra, em 10 de setembro de 2018.

Os Estados Unidos devem "reverter" sua decisão de classificar os houthis como "terroristas" ou o Iêmen poderá sofrer uma fome de proporções massivas sem precedentes em quase 40 anos, disse um alto funcionário ao Conselho de Segurança das Nações Unidas nesta quinta-feira(14).

“O que impediria? Reverter a decisão” que entrará em vigor no dia 19 de janeiro, disse o chefe de Assuntos Humanitários da ONU, o britânico Mark Lowcock, estimando que as isenções prometidas por Washington às ONGs que distribuem ajuda humanitária não vão reduzir a ameaça de fome generalizada.

A decisão tomada neste domingo pelo governo do presidente em fim de mandato Donald Trump de designar os houthis como "terroristas", medida que entrará em vigor na véspera da posse do democrata Joe Biden, foi comemorada pela Arábia Saudita, que luta contra esses rebeldes iemenitas.

Mas foi duramente criticada pela União Europeia e várias ONGs, e parlamentares democratas pediram a Biden que revogue a decisão assim que assumir o cargo.

Além de bloquear a ajuda humanitária, a decisão dos EUA vai atrapalhar o processo de negociações políticas para resolver o conflito, alertaram funcionários das Nações Unidas durante videoconferência do Conselho de Segurança nesta quinta-feira.

É a primeira vez que a ONU, geralmente cautelosa em suas declarações sobre os Estados Unidos, seu maior contribuinte financeiro, critica de forma tão clara e contundente uma decisão do governo de Trump.

Diante do Conselho de Segurança, o enviado da ONU ao Iêmen, Martin Griffiths, também britânico, disse que "compartilha fortemente" da posição de Mark Lowcock "segundo a qual a decisão contribuiria para a fome no Iêmen e, portanto, deveria ser revogada o mais rápido possível por razões humanitárias."

“Estamos preocupados que (a decisão dos Estados Unidos) diminua o ritmo e atrapalhe nosso trabalho de aproximação das partes”, disse o enviado, que mantém contato regular com os houthis.

"A prioridade mais urgente no Iêmen agora é evitar a fome generalizada", insistiu Mark Lowcock. "As projeções para 2021 mostram que 16 milhões de pessoas passarão fome", disse ele.

Se implementada, a decisão dos Estados Unidos ameaça paralisar a entrega de ajuda humanitária, ao impedir o contato com funcionários houthis, a administração tributária, o uso do sistema bancário, o pagamento de pessoal médico ou a compra de alimentos e combustível.

A posição de Mark Lowcock também foi compartilhada pelo americano David Beasley, chefe do Programa Mundial de Alimentos (PMA, Prêmio Nobel da Paz 2020), que, partindo de seu discurso preparado, improvisou falando da "catastrófica" decisão americana.

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