ONU prevê renda menor e dificuldades para recuperação econômica na América Latina e no Brasil

O Globo, com agências internacionais
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Fila em busca de emprego no Rio: falta de trabalho é fator preocupante.

GENEBRA - Pessoas em vários países, principalmente na América Latina e na África subsaariana, verão sua renda se estagnar ou diminuir este ano, disse a Organização das Nações Unidas nesta quinta-feira.

Segundo o relatório "Perspectivas da Situação Econômica Global", o crescimento das maiores economias da América Latina — Brasil, Argentina e México — foi muito menor que o esperado em 2019, quando o Produto Interno Bruto (PIB) da região cresceu apenas 0,1%, contra 0,9% no ano anterior, "em meio a condições internacionais incertas, o aumento da incerteza política e ventos contrários em países específicos".

Recuperação acidentada

A desaceleração no Brasil e nos outros países foi acentuada, diz o informe, e uma "recuperação lenta e acidentada é projetada para os próximos dois anos".

A ONU espera um crescimento de apenas 1,3% no PIB da região este ano e de 2% em 2021.

A entidade vaticina que a demanda doméstica provavelmente será ajudada por uma política monetária mais adaptável e pressões inflacionárias moderadas, e aposta em retomada do consumo e do ambiente de negócios, especialmente no Brasil e no México.

Incertezas políticas

Mas aponta como risco à recuperação o cenário internacional. "No front externo, a região é vulnerável a uma maior desaceleração no comércio global e a preços menores nas commodities. No front doméstico, as incertezas nas políticas econômicas, a própria turbulência politica e a inquietação social vão afetar o crescimento dos países".

Para a ONU, em muitos casos os problemas têm a ver com a falta de uma política tributária, enquanto os governos "continuam a enfrentar déficits públicos substanciais e a sobrecarga de dívidas".

O relatório lembra que em 14 países, incluindo o Brasil, o PIB per capita ficou quase estagnado ou caiu. "Desde o fim do boom das commodities, em 2013/14, a região não conseguiu obter um crescimento econômico significativo".

Desigualdade persiste

Ao mesmo tempo, a redução da desigualdade social desacelerou. "Com muito poucas exceções, o nível de desigualdade na região continua muito alto, e vastos segmentos da sociedade não têm oportunidades econômicas", diz o texto.

Em meio à renda mais baixa e à persistente desigualdade, os níveis de pobreza só fizeram subir nos últimos anos. Estima-se que "63 milhões de pessoas na região viviam abaixo da linha de pobreza em 2018, contra 46 milhões em 2014".

E o nível de pobreza provavelmente cresceu ainda mais no ano passado, com a queda de 0,8% no PIB per capita.

Declínio no investimento

O relatório afirma que, apesar da inflação reduzida, o aumento no consumo privado praticamente estagnou, devido ao aumento do desemprego e à lentidão em ganhos salariais.

"Enquanto o Brasil viu uma recuperação moderada na formação de capital fixo em meio a taxas de juros em baixa recorde, houve forte declínio no investimento no México e, especialmente, na Argentina, devido à incerteza política".

Assim, o clima para os investidores permanecerá um desafio este ano na região.

O PIB da América do Sul caiu 0,1% em 2019, diz o relatório. Segundo o informe, a desaceleração do comércio mundial e os preços mais baixos das commodities levaram à contrações na produção de minério e produtos agrícolas no Brasil, no Chile e no Paraguai. A crise econômica argentina também afetou as economias desses países.

Assim, a entidade projeta um crescimento de 1,1% este ano e 2% no ano que vem no continente.

Lentidão global

Uma década após a crise financeira, a economia global permanece lenta e as tensões comerciais e geopolíticas podem prejudicar ainda mais a recuperação, disse a ONU.

A economia mundial se expandiu apenas 2,3% no ano passado, seu ritmo mais lento em uma década, e poderá crescer 2,5% em 2020 se os riscos negativos forem afastados, informou um relatório da ONU.

— Para este ano, há uma esperança de aceleração, mas os riscos e vulnerabilidades negativos permanecem muito significativos — disse Richard Kozul-Wright, chefe de estratégias de globalização e desenvolvimento da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento e autor do relatório.

— Boa parte da aceleração que vemos para este ano dependem do desempenho de grandes economias emergentes — disse Kozul-Wright em uma entrevista coletiva, citando Argentina, México, Turquia e Rússia.

Fardo de dívidas

A Organização das Nações Unidas estima que o crescimento permaneça "anêmico" na maioria das economias avançadas, incluindo os Estados Unidos. O Japão pode se sair melhor por causa das Olimpíadas, disse Kozul-Wright.

— Um grande número de países verá realmente estagnação ou declínio na renda per capita este ano, predominantemente na América Latina e na África Subsaariana — disse ele, sinalizando o fardo do pagamento da dívida pública e do pagamento de juros.

Na semana passada, o Banco Mundial cortou sua previsão de crescimento global para 2019 e 2020 devido a uma recuperação mais lenta do que o esperado no comércio e no investimento. A instituição também prevê o crescimento de 2020 em 2,5%

Os Estados Unidos e a China assinaram a Fase 1 do acordo comercial na quarta-feira, amenizando uma disputa de 18 meses que atingiu o crescimento global.

— O impacto direto das tarifas na desaceleração provavelmente não é tão grande ... mas os efeitos indiretos da quebra das cadeias de suprimentos e outras partes dessa história no investimento parecem ser mais significativos — disse Kozul-Wright.