ONU registra recorde de deslocados e refugiados no mundo em 2021

Se o alfabeto de variantes da Covid-19 prorrogou a pandemia e suas restrições, a crise sanitária não foi capaz de pôr um freio no deslocamento forçado em 2021. No ano passado, mais de 89,3 milhões de pessoas estavam longe de suas casas, fugindo de guerras, violência, perseguições ou abuso de direitos humanos — o maior número já registrado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) em seu levantamento anual.

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O volume de pessoas deslocadas, que cresceu 8% em comparação com 2020, mais que dobrou desde 2012, segundo o relatório “Tendências Globais”, divulgado nesta quarta pelo Acnur. Apesar de ter como foco o ano passado, o documento já antecipa como a situação no primeiro semestre de 2022 configura uma das crises mais graves desde a Segunda Guerra Mundial.

Entre o início da invasão russa na Ucrânia, em 24 de fevereiro, e o fim de maio, cerca de 7,1 milhões de ucranianos já haviam sido deslocados internamente, e outros 6,8 milhões de refugiados deixaram o país. O número de pessoas deslocadas pelo planeta, portanto, já ultrapassa a marca dos 100 milhões: ou seja, uma em cada 78 pessoas foi forçada a fugir de casa.

— É um número sem precedentes que mostra como essa situação vem se agravando ao longo dos anos. Não é um pico de uma hora para a outra — disse Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur no Brasil. — Mostra que a comunidade internacional não vem conseguindo solucionar as causas desses problemas: as disputas, guerras, perseguições.

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A maioria dos refugiados ucranianos foi recebida por países europeus ricos — mais de 2,8 milhões deles se registraram para receber status de proteção temporária da União Europeia (UE), por exemplo. O acolhimento não é tão caloroso para a maioria dos que foram obrigados a deixar seus lares, fenômeno que afeta desproporcionalmente mulheres e crianças.

— Esperamos que a recepção dada aos ucranianos pelos países vizinhos possa inspirar outras partes do mundo a adotarem posturas semelhantes com populações de outras nacionalidades — disse Godinho, citando como exemplo negativo o plano britânico de enviar imigrantes em situação irregular para Ruanda, bloqueado pela Justiça, e destacando que a crise ucraniana ainda está em fase emergencial. — Se o conflito se estender por mais tempo, vamos passar para uma fase de integração e novos desafios irão surgir.

Países em crise

Segundo o Acnur, do total de 89,3 milhões de pessoas deslocadas no ano passado, 27,1 milhões eram refugiados e 4,6 milhões, solicitantes de asilo. Há também 4,4 milhões de venezuelanos deslocados no exterior — número que chega a 6,1 milhões se conterrâneos solicitantes de refúgio, refugiados e residentes também forem contabilizados.

Quase sete em cada 10 refugiados vêm de apenas cinco países: são 6,8 milhões de sírios e 4,6 milhões de venezuelanos, incluindo refugiados e deslocados no exterior. Os afegãos são o terceiro maior grupo, seguidos pelos sudaneses do sul e birmaneses. Vão principalmente para os países vizinhos, que conseguem acessar com maiores facilidades e menos recursos.

Turquia e Colômbia são as nações mais sobrecarregadas, junto com Uganda, Paquistão e Alemanha. Excetuando-se este último, são países de renda média e baixa que acolhem 83% daqueles forçados a abandonarem suas terras natais. Vinte e sete por cento dessas pessoas vivem no grupo das 46 nações menos desenvolvidas do planeta, cujas dificuldades são fortemente agravadas pelo aumento global da inflação e do preço dos alimentos.

Mantendo uma tendência dos últimos anos, mais de um quarto daqueles que foram forçados a deixar seus países moravam na África Sub-Saariana. No fim de 2021, a África Oriental, o Chifre da África e a região dos Grandes Lagos Africanos abrigavam mais de 4,7 milhões de refugiados, 5% a mais que no ano anterior, acolhidos principalmente em Uganda, no Sudão e na Etiópia.

Há ainda 53,2 milhões de deslocados internos por conflitos armados, violência e violações dos direitos humanos, o maior número já registrado e mais que o triplo de 2012. Palco de uma sangrenta guerra civil que começou em 2020, a Etiópia viu mais 2,5 milhões de novos deslocados internos.

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No Sudão do Sul, uma insurgência na região de Equatoria e o aumento da violência intercomunitária fizeram com que o número de deslocados internos chegasse a 2 milhões. No vizinho Sudão, o golpe de Estado fez a estatística passar de 3 milhões. Ambos os países, junto da República Democrática do Congo, da Nigéria, da Síria e do Iêmen, registraram entre 100 mil e 500 mil novos deslocados internamente no último ano.

Outras 23,7 milhões de pessoas precisaram se deslocar em seus próprios países devido aos impactos da crise climática e eventos extremos, com 5,9 milhões ainda longe de suas casas ao fim do ano. As consequências do aquecimento global para o fluxo global de pessoas, ressalta o relatório, são incertos e mensurá-los continua a ser um desafio. A melhor maneira de mitigá-los, contudo, é diminuindo as emissões e acelerando a transição para uma economia mais verde.

850 milhões afetados por conflitos

Segundo o Banco Mundial, há hoje 23 países que vivem conflitos de média ou alta intensidade, número que dobrou na última década. Juntas, essas nações abrigam mais de 850 milhões de pessoas — para fins comparativos, desde o início da pandemia que forçou o mundo a repensar seu funcionamento, foram diagnosticados 537 milhões de casos de Covid-19.

O agravamento da crise humanitária deve-se ainda à piora da violência em lugares como Mianmar, país que no ano passado foi palco de um golpe militar que pôs fim a seus passos claudicantes rumo à democracia. No Afeganistão, onde 55% da população não tem o suficiente para se alimentar diariamente, o caótico fim das duas décadas de invasão americana causou uma crise de refugiados e deslocados internos, que aumentaram pelo 15º ano consecutivo. A guerra na Síria, por sua vez, entra na sua segunda década.

Já as Américas somam mais de 5,1 milhões de deslocados internacionalmente — 86% deles natais da Venezuela, de onde 524 mil pessoas saíram no ano passado. O número, diz o relatório, aumentou com o alívio das restrições nas fronteiras: Colômbia e Equador receberam respectivamente 112,9 mil e 102,1 mil venezuelanos a mais que no ano anterior.

No Brasil

No Brasil, há quase 50 mil venezuelanos reconhecidos como refugiados, cerca de 95 mil solicitantes de refúgio e outros 215 mil com residência no país, de acordo com Godinho. O número de pedidos de refúgio pendentes em território nacional caiu “significativamente” em 2021, segundo o relatório da ONU, algo que o porta-voz credita a dois motivos:

— Devido à pandemia, ainda havia muitas restrições de entrada em 2021, então o número de pessoas solicitando o reconhecimento da condição de refugiado foi menor. Mas no ano anterior, houve também um esforço do governo brasileiro para processar os pedidos dos cidadãos venezuelanos, o que diminuiu a fila.

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O relatório, contudo, traz algumas luzes no fim do túnel. O número de retornos, tanto de refugiados quanto de deslocados internamente, cresceu em 2021 e retornou aos níveis pré-pandemia, com a repatriação voluntária crescendo 71%. Se o número de apátridas cresceu discretamente, 81,2 mil delas adquiriram uma nacionalidade ou a confirmaram, o maior número desde que a ONU começou uma campanha neste sentido, em 2014. Tratam-se de avanços tímidos, porém avanços.

— Isso tem acontecido em lugares específicos, como a cooperação regional para a repatriação na Costa do Marfim, e essas importantes decisões precisam ser replicadas e aumentadas em todos os lugares — disse o alto comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, referindo-se às repatriações.

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