ONU vai ajudar exportações agrícolas russas em contrapartida a acordo com Ucrânia

Em contrapartida ao acordo com a Ucrânia para facilitar as exportações de grãos do país, com a criação de corredores marítimos seguros pelo Mar Negro, a Rússia obteve uma promessa das Nações Unidas: o comprometimento de que a organização internacional irá ajudar Moscou a exportar alimentos e produtos agrícolas.

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Dois documentos foram assinados entre o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e o ministro da Defesa de Vladimir Putin, Sergei Shoigu, que representou o Kremlin na cerimônia em Istambul nesta sexta-feira. O primeiro diz respeito às exportações ucranianas. O outro é um memorando de cooperação relativo às exportações agrícolas russas, incluindo alimentos e fertilizantes.

As atuais sanções americanas e da União Europeia (UE) à Rússia não impactam diretamente o setor agrícola do país, por causa do papel fundamental deste na alimentação global.

Mesmo assim, muitos bancos e comerciantes na Europa e nos EUA evitam financiar e comprar produtos russos, com medo de sofrerem punições ou de as regras mudarem. Credores têm incerteza sobre quais negócios são efetivamente permitidos, e quais podem vir a ser proibidos de modo repentino.

O mesmo ocorre na Suíça, que espelha as regras da UE e tradicionalmente desempenha um papel fundamental no financiamento do comércio das commodities russas.

De duração prevista de três anos — em comparação a 120 dias do acordo com a Ucrânia —, o memorando de cooperação determina que a ONU vai trabalhar para eliminar essas restrições contra a Rússia que impedem a exportação de produtos agrícolas do país.

Segundo a agência russa Tass, citando um alto funcionário das Nações Unidas não identificado, a ONU se esforçará para que as isenções de sanções "realmente funcionem". Segundo ele, a organização vai atuar junto a empresas privadas e Estados-membros para esclarecer a situação em torno das exportações supracitadas russas.

— Existem várias razões para que essas complexidades e problemas existam. As soluções incluem, entre outras coisas, o diálogo com o setor privado e os países membros (...) Celebramos este acordo para esclarecer os Estados Unidos e a União Europeia sobre este assunto — afirmou a autoridade da ONU segundo a Tass.

O acordo assinado com a ONU parece se harmonizar com outro combinado entre os 27 Estados-membros da União Europeia, atualmente em fase de conclusão. Na quarta-feira, embaixadores do bloco concordaram em tornar mais evidentes que as sanções contra a Rússia não são válidas para os produtos agrícolas do país.

“O pacote também reitera que as sanções da UE não visam de forma alguma o comércio de produtos agrícolas entre países terceiros e a Rússia. Da mesma forma, o texto esclarece o escopo exato de algumas sanções financeiras e econômicas”, disse a Comissão Europeia em comunicado.

Segundo o site Politico, o rascunho do acordo também permitiria que alguns ativos de entidades sancionadas selecionadas fossem descongelados se as autoridades concluíssem “que esses fundos ou recursos econômicos são necessários para a compra, importação ou transporte de produtos agrícolas e alimentícios, incluindo trigo e fertilizantes”.

Além disso, a UE também deve esclarecer que os portos de onde essas mercadorias são enviados não estão sob sanções, acrescentou o Politico.

A ONU há meses mantém negociações discretas com UE e Estados Unidos para estes aumentarem as entregas de fertilizantes, grãos e outros produtos agrícolas da Rússia e da Ucrânia, de modo a evitar uma crise alimentar global.

Embora supostamente faltassem apenas “detalhes técnicas” para a oficialização do documento da UE e sua divulgação estivesse prevista para a quinta-feira, isto ainda não aconteceu, o que sugere a existência de diferenças entre os países.

Na segunda-feira, está prevista a chegada no porto de Nova Orleans, nos Estados Unidos, de um navio-tanque repleto de fertilizante russo. Chamada Johnny Ranger, a embarcação de bandeira da Libéria transporta cerca de 39 mil toneladas de solução de nitrato de ureia e amônia, e carregou no mês passado em São Petersburgo.

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Em junho, a Bloomberg noticiou que o governo americano tem discretamente incentivado empresas agrícolas e de navegação a comprarem e transportarem mais fertilizantes russos, também sob estímulo da ONU. Segundo a agência, um representante de Washington esteve em Moscou no mês passado para tratar do assunto, em uma visita não divulgada pelo Departamento de Estado.

Segundo o Departamento de Comércio, os Estados Unidos importaram US$ 262,6 milhões em fertilizantes de nitrato de ureia e amônia da Rússia em 2021,

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