Operação Caça-Fios: prefeitura inicia em Botafogo ação para tentar pôr ordem nos emaranhados em postes

Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Morro Dois Irmãos… Para apreciar muitos dos cartões-postais do Rio é preciso olhar para o alto. E é nas alturas que mora um antigo problema da cidade e que, dependendo do ângulo, pode atrapalhar e muito essa contemplação: os emaranhados de fios. Para amenizar a questão, a prefeitura, por meio da Rioluz, começou em Botafogo, na semana passada, a Operação Caça-Fios.

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De acordo com o município, é uma força-tarefa a fim de eliminar fiações que ficam soltas, partidas e caídas no chão em virtude dos constantes furtos de cabos da rede elétrica da cidade e de fiações de telecomunicações desordenadas. A meta é recolher em torno de uma tonelada por semana. O próximo bairro da região a receber a operação será o vizinho Humaitá, seguido do Jardim Botânico.

Segundo Flávio Valle, subprefeito da Zona Sul, a escolha se deu por serem os bairros com as maiores demandas. Em Botafogo, a operação foi iniciada pela Rua São Clemente, campeã de reclamações, onde, apesar das chuvas dos últimos dias, foram retirados 180 quilos de fiação inutilizada. Valle conta que o trabalho segue na via, mas afirma que pedidos urgentes em outras localidades também estão sendo atendidos.

— Foi o caso da frente de uma escola na Rua Visconde de Caravelas, também em Botafogo, que apresentava um emaranhado de fios. Imediatamente fomos ao local e executamos a retirada, evitando possíveis fatalidades — detalha Valle, acrescentando que se reuniu com representantes das concessionárias que aterraram suas fiações e deixaram os fios mortos pendurados, alertando sobre a demanda de retirada e informando que o descumprimento está sujeito a autuações.

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Ao todo, são 48 as empresas de telecomunicações autorizadas a instalar fios, dividindo espaço nos postes da Light, que, por sua vez, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), pode ser remunerada pelos pontos compartilhados. A multa para quem faz o procedimento sem autorização e abandona material degradado é de R$ 102,14 por ocorrência. O problema é que nem sempre se consegue identificar a empresa infratora. Segundo a Light, na cidade do Rio são mais de um milhão de pontos irregulares, de empresas informais que não têm contrato com a concessionária.

O presidente da Rioluz, Paulo Cezar dos Santos, salienta que, na Caça-Fios, os técnicos não mexem nos cabos em funcionamento, apenas naqueles sem utilidade e que enfeiam a paisagem urbana. Todo material recolhido na operação vai para o depósito da gerência de materiais em Marechal Hermes e ficará disponível por 30 dias para a empresa recolher. O material que não for retirado será leiloado; e a verba, revertida para os cofres municipais.

Para a presidente da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), Regina Chiaradia, o bairro oferece um parque de diversões para criminosos que furtam os fios, sobretudo, da rede de energia elétrica:

— Parece até uma piada, porque se trata da fiação excedente, que foi largada sem utilização, mas que chama a atenção de viciados em drogas. Eles furtam os fios e sabem quais têm mais valor. A prefeitura deveria fiscalizar as empresas, não poderia ter deixado chegar a esse ponto.

Regina alerta para podas de árvores que considera assassinas, frequentemente feitas em função dos fios, e acredita que a única solução para o problema é a implantação de cabeamento subterrâneo.

— É um absurdo cortarem as árvores porque elas atrapalham a fiação. É o contrário. O cabeamento é que prejudica o meio ambiente e não deveria ser aéreo. Há casarões cujas fachadas mal conseguimos ver atrás de tanta poluição visual causada pelos fios — diz.

Para Licinio Rogério, engenheiro urbanista e diretor da Amab, o problema vem se agravando nos últimos anos, com a grande quantidade de empresas que mudam suas operações. Ele acredita que o investimento em cabeamento subterrâneo seria um “mal” que traria benefícios a longo prazo:

— Muitas concessionárias estão mudando seu modo de operar, mas largam os fios para trás. Além disso, aqui em casa, por exemplo, cancelei uma empresa de telefonia e contratei outra, e a anterior nunca veio retirar a fiação. Para o cabeamento subterrâneo, mais do que os custos, seriam necessárias muitas obras, mas que no fim valeriam a pena. Teríamos menos vandalismo, furto de fios e gatos, o que representaria uma conta de luz mais baixa e menos prejuízo às árvores e riscos de acidentes. Sem mencionar a parte estética do Rio.

No Humaitá, segundo colocado na lista de reclamações, o problema é mais grave na rua que leva o nome do bairro, entre os números 12 e 422, afirma o presidente da Associação de Moradores e Amigos do Humaitá (Amahu), Luiz Carlos Santos.

O terceiro da lista, o Jardim Botânico, também tem problemas em várias ruas, segundo o presidente da Associação de Moradores e Amigos do bairro (Amajb), Heitor Wegmann, que mapeou algumas esta semana. Entre elas estão a Rua General Garzon, com a fiação baixa; a Avenida Borges de Medeiros, com fios cortados e soltos; e a Avenida Lineu de Paula Machado, com emaranhado de fios no chão.

— Acho um absurdo ainda termos fiação aérea no Rio, que tem vocação para o turismo. Os fios deixam a paisagem feia e causam a morte de animais. Como as concessionárias de energia são remuneradas pelas empresas de telecomunicação por cada poste utilizado, elas têm responsabilidade solidária e devem ser acionadas para resolver o problema — diz.

Quanto à rede aérea, a Secretaria de Conservação informa que o tema está sendo tratado na revisão do Plano Diretor (PL complementar nº 44/2021), com participação de vários órgãos municipais, sociedade civil e Câmara dos Vereadores. A pasta lembra que a propriedade dos postes e a responsabilidade sobre eles são da Light e que o STF, em 2013, deu liminar a favor da concessionária, que, por isso, não precisa converter sua rede aérea em subterrânea.

A Light, por sua vez, diz que não é obrigada a transformar sua rede aérea em subterrânea na sua área de concessão, uma vez que a regulamentação federal do setor elétrico não estabelece este padrão de rede em função do seu elevado custo e do impacto nas tarifas. A concessionária ressalta que realiza fiscalizações periódicas em seus equipamentos, com ações de ordenamento urbano.

A Conexis Brasil Digital, que hoje representa as empresas Algar, Claro, Vivo, Tim, Oi e Sercomtel, esclarece que a escolha entre fazer instalações enterradas ou em poste obedece à disponibilidade, por exemplo, de dutos subterrâneos, e, principalmente, a fatores técnicos, resultando assim em situações distintas em cada cidade e mesmo em cada bairro.

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