Operação Carne Fraca: PF desmantela esquema ilegal de carne adulterada

(Arquivo) Sede da BRF em Chapecó

A Polícia Federal lançou nesta sexta-feira uma vasta operação contra uma rede formada por inspetores sanitários e grandes frigoríficos para vender carne e outros alimentos adulterados - e, em alguns casos, "maquiados" com ácidos e produtos cancerígenos - tanto para consumo interno como para exportação.

O escândalo atinge em cheio outro setor-chave da economia brasileira, depois do abalo sofrido pelas grandes construtoras envolvidas no megaesquema de propinas do Petrolão.

Entre os investigados, figuram executivos de grupos importantes como JBS - dona das marcas Big Frango e Seara Alimentos - e BRF - dona da Sadia e Perdigão -, de acordo com os processos revelados pela justiça federal de Curitiba, base da operação.

A justiça também determinou o bloqueio de um bilhão de reais das empresas investigadas.

As ações dos grupos envolvidos desabaram durante a tarde na bolsa de São Paulo. A JBS perdia 8,51% e a BRF 7,70%.

A operação, fruto de anos de investigações, mobilizou 1.100 agentes para executar 309 ordens judiciais, incluindo 27 de prisão preventiva, em sete estados: Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e o Distrito Federal.

"Os funcionários públicos (...), mediante o recebimento de propinas, facilitavam a produção de alimentos adulterados, emitindo certificados sanitários sem realizar qualquer inspeção", indica um comunicado da PF.

Os produtos adulterados eram vendidos no mercado interno e no exterior.

Na lista de pessoas investigadas, figuram Flavio Cassou, executivo da JBS, assim como Roney Nogueira dos Santos, gerente de Relações Internacionais da BRF, e José Roberto Pernomian Rodrigues, diretor e vice-presidente dessa firma, de acordo com o comunicado da Justiça do Paraná.

A JBS indicou, em um comunicado, que três de suas unidades de produção (uma no Paraná e duas em Goiás) foram revistadas, mas destacou que "não houve qualquer medida judicial contra seus executivos" e que a sede de São Paulo não foi revistada.

Destacou que o funcionário incriminado é "um veterinário da companhia, mas que foi cedido ao ministério da Agricultura", conforme a legislação.

Assegura, além disso, que "a JBS no Brasil e no mundo adota padrões rigorosos de qualidade, com sistemas, processos e controles que garantem a segurança alimentícia e a qualidade de seus produtos".

A BRF não se pronunciou até agora sobre os procedimentos policiais.

O ministro da Agricultura Blairo Maggi ordenou "o afastamento imediato de todos os envolvidos nas acusações".

- 'Produtos cancerígenos' -

Nos frigoríficos de pequeno porte foi detectado o uso de "produtos cancerígenos para maquiar o aspecto do produto avariado, o odor", afirmou o comissário Mauricio Moscardi Grillo em coletiva de imprensa em Curitiba.

Também foi identificada a presença de salmonela em produtos que foram colocados à venda através do pagamento de propina.

Um contêiner da BRF foi bloqueado em um porto da Itália, quando detectada a presença dessa bactéria, informou, sem maiores detalhes.

A Confederação da Agricultura (CNA) pediu que sejam investigadas com rigor as acusações e mostrou preocupação em relação ao impacto do escândalo.

"Não é justo que a imagem (dos produtores rurais) seja manchada pela ação irresponsável e criminosa de alguns", afirmou.

A operação, a maior da história da PF, foi apelidada "Carne Fraca" em referência à expressão popular que "demonstra a fragilidade moral dos agentes públicos que deveriam velar pela qualidade dos alimentos", explica o comunicado.