Operação na praça Princesa Isabel completa 1 mês com dois alvos presos e mobilização de moradores

***ARQUIVO*** SÃO PAULO-SP, BRASIL, 02-06-2022 - AÇÃO CRACOLÂNDIA - Polícia faz ação na Crocolândia, rua Helvetia, no final da tarde desta quinta. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO-SP, BRASIL, 02-06-2022 - AÇÃO CRACOLÂNDIA - Polícia faz ação na Crocolândia, rua Helvetia, no final da tarde desta quinta. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um mês após a operação policial que desmantelou a cracolândia da praça Princesa Isabel, na região central de São Paulo, o local ainda não voltou a ser um espaço de convivência. Desde o último dia 11, grades de ferro usadas para controlar a entrada dividem espaço com carros da polícia. Os canteiros continuam desarrumados com amontoados de terra e nem sinal dos vizinhos.

Na madrugada em que a praça deixou de ser endereço da cracolândia, a Polícia Civil iniciou a operação com 37 alvos de mandados de prisão expedidos e uma permissão da Justiça para revistar as barracas que estavam no local.

A ação foi feita com base na operação Caronte, que infiltrou investigadores no local para filmar e fotografar casos de tráfico de drogas. Um mês depois, apenas dois dos 36 alvos foram presos.

Neste período, a Polícia Civil fez mais três incursões no fluxo de dependentes químicos e traficantes em dois endereços:, na rua Doutor Frederico Steidel, entre as avenidas São João e Duque de Caxias, e na rua Helvétia, novo endereço da cracolândia desde 20 de maio.

Nas três ocasiões, a atuação foi a mesma. Agentes da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e oficiais das polícias Civil e Militar invadiram a rua onde funcionava o fluxo (nome dado a concentração de usuários) e mandaram todos se sentarem no chão até toda droga e armas serem recolhidas. Depois, cada pessoa foi revistada e impedida de ficar no local.

No total, 16 pessoas foram presas em flagrante por tráfico de drogas nas quatro operações policiais desde o dia 11 de maio.

Na última ação, feita na tarde do dia 2, a polícia afirmou não ter encontrado muitas drogas. Não foram informadas, porém, as quantidades apreendidas em cada uma das operações. Nenhum traficante foi preso em flagrante, sinal de que o "comércio de drogas chegou ao mais baixo nível", segundo nota da 1ª Delegacia Seccional da Sé. O tráfico, porém, continua ininterruptamente na rua Helvétia.

Proibidos de voltar para a praça Princesa Isabel, os grupos de dependentes criaram uma espécie de rotina itinerante nas semanas seguintes. Maior parte se fixou na Helvétia, onde caixotes foram improvisados como mesas para dispor as pedras de crack pouco depois de cada incursão da polícia.

Durante a madrugada, outra parte passou a ocupar a esquina das ruas dos Gusmões e dos Andradas, na Santa Ifigênia. Comerciantes relatam que só podem abrir as portas e começar o dia de trabalho depois que equipes da GCM e de zeladoria tiram os usuários da calçada e fazem a limpeza.

Houve confronto mais de uma vez neste mês, segundo os comerciantes, quando os guardas-civis jogaram bombas de efeito moral para obrigar a aglomeração a se dispersar. Mesmo assim, ao longo do dia, o entorno é ponto de encontro de grupos de usuários que se formam e se desfazem assim que a droga chega ou é consumida. A nova rotina tornou ainda mais visível o uso ostensivo de crack nas calçadas e canteiros da região central.

Pontos que haviam deixado de aglomerar dependentes químicos, como o entorno da praça Júlio Prestes, onde a cracolândia funcionou por mais de 20 anos, voltaram a ser focos das equipes da GCM há poucos dias.

Outro ponto onde as aglomerações se tornaram frequentes desde a ação na praça Princesa Isabel é o estacionamento de uma agência bancária na avenida Duque de Caxias, ao lado dos conjuntos habitacionais construídos na praça Júlio Prestes para revitalizar a área. Há registro frequente de pequenos fluxos nas ruas Apa e Mauá.

Moradores relatam que a movimentação é intensa durante a noite, o que se repete nas proximidades da Helvétia. A situação mobilizou os vizinhos a organizarem grupos virtuais para reunir relatos de violência e para reclamar com o poder público.

O movimento dos moradores organizou ao menos três protestos em um mês para pedir mais segurança na região. Durante reunião do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) de Santa Cecília na terça-feira (7), algumas pessoas se exaltaram ao cobrar respostas das autoridades sobre o prazo para que a cracolândia seja retirada da rua Helvétia. Houve bate-boca com o delegado do 77º DP (Campos Elíseos), Severino Vasconcelos, responsável pela Caronte.

"A rua Helvétia será liberada em breve", disse o delegado ao jornal Folha de S.Paulo na quarta-feira (8). "Não se trata [apenas] da rua Helvétia, mas da cidade como um todo. Massas de usuários não podem ser toleradas em hipótese alguma. O trabalho é para sanarmos este problema".

Um dos moradores mais ativos nos grupos é o produtor de eventos Marcelo Mendes, 49. Ele conta que está com o braço mobilizado em uma tipoia desde quando caiu na rua durante discussão com usuários de drogas que insistiam em ocupar a rua onde ele mora. "Vi o grupo se aglomerar na esquina e logo desci para a calçada. Gritei para os vizinhos descerem também e fizemos um corredor humano", conta.

Os vizinhos foram xingados pelo grupo e houve discussão, segundo o morador. "Aquilo me tirou do sério. Estamos vivendo à beira de um ataque de nervos. Um deles me ameaçou com uma vassoura", disse. Ao reagir, ele escorregou e rompeu um tendão do ombro.

Para ajudar na mobilização, condomínios da região fixaram cartazes com telefones de promotores, delegados e secretários municipais nos elevadores.

"Algumas pessoas já se mudaram com medo dessa situação toda. Isso é justo com os moradores?", questiona a aposentada Márcia Penteado Martini, 70, moradora há 30 anos no prédio que, agora, é vizinho da cracolândia.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o governador Rodrigo Garcia (PSDB) defendem que as operações são eficientes em dispersar os usuários e facilitam a adesão ao tratamento. Ambos foram procurados para comentar as ações dos últimos 30 dias. O prefeito não atendeu ao pedido de entrevista, enquanto o governador não respondeu.

Segundo a gestão municipal, nos primeiros 15 dias, foram feitas 4.558 abordagens e 857 atendimentos de saúde, o que representa, em média, 1 atendimento para cada 5 contatos feitos pelos funcionários municipais entre os usuários. Desse total, 1 em cada 20 atendimentos resultou em encaminhamento para o serviço de acolhimento especializados no tratamento de uso abusivo de drogas, o Siat (Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica).

Dados do município também apontam que no mês de maio aumentou 25% a busca por tratamento nas unidades do Siat em comparação com abril. O período coincide com o início das operações policiais. Foram registrados 166 encaminhamentos ante 133 no mês anterior.

A prefeitura tem incentivado parentes de dependentes químicos a recorrer às internações involuntárias, permitidas desde 2019. Segundo Nunes, entre abril e maio, 22 usuários foram internados à revelia no hospital Bela Vista.

A Folha mostrou que quase metade dos usuários de drogas internados de forma involuntária no período deixou o tratamento em até 20 dias, segundo dados oficiais.

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