Operação Patrón: Messer recebeu ajuda de família suspeita de encomendar fuzis clandestinos

Bernardo Mello

RIO — As investigações da Polícia Federa (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) no âmbito da Operação Patrón, deflagrada nesta terça-feira, apontam que o doleiro Dario Messer esteve, entre maio e outubro de 2018, sob a proteção de uma família que teria encomendado fuzis clandestinos e mantido relação com uma facção criminosa de São Paulo. Segundo os investigadores, a família do empresário Antonio Joaquim da Mota, conhecido como "Tonho", abrigou Messer em uma propriedade na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, na Tríplice Fronteira. Foi nesta propridade, de acordo com a investigação, que Messer fez uma selfie segurando uma pistola.

A Operação Patrón solicitou mandados de prisão preventiva para Antonio Joaquim da Mota e sua mulher, Cecy da Mota, além de mandados de prisão temporária para Antonio Mendes Gonçalves da Mota e Orlando Stedile, respectivamente filho e enteado de "Tonho". De acordo com os investigadores, informações obtidas com a quebra de sigilo telefônico apontaram uma encomenda, por parte dos filhos da família Mota, de 10 fuzis AR-10. Posteriormente, a encomenda mudou para dois fuzis do modelo G-36, encomendadas de um traficantes de armas que mora em Curitiba.

Segundo a PF, o contrabandista foi preso em flagrante nesta terça por porte ilegal de armas, ao ser alvo de buscas no âmbito da operação. Outras buscas foram realizadas em São Paulo e em Ponta Porã, na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. De acordo com a PF e o MPF, 8 mandados de prisão preventiva e 3 de prisão temporária haviam sido cumpridos até a manhã desta terça.

Uma outra operação recente da PF, que teve como alvo o narcotraficante Sergio de Arruda Quintiliano, o "Minotauro", identificou contratos firmados entre uma empresa de Mota com traficantes ligados a uma facção criminosa de São Paulo. As informações obtidas na Operação Patrón também apontam possível envolvimento da família Mota com o narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, conhecido como "Rei da fronteira", e executado a tiros em 2016.

— Os contatos no celular de Cecy Mota indicam relação próxima à família de Rafaat Toumani. A partir de um Relatório de Inteligência Financeira (RIF), também identificamos uma relação de entrada e saída de dinheiro envolvendo a família Mota com pessoas que já foram presas ou estão sendo investigadas por tráfico de drogas - declarou o delegado da Polícia Federal Alexandre Bessa.

De acordo com o MPF e a PF, Messer também esteve sob proteção de Roque Silvera, outro empresário que atuava na fronteira, e que teria sido o intermediário de pagamentos feitos pelo ex-presidente paraguaio Horacio Cartes ao doleiro, no valor de U$ 500 mil. Messer, por sua vez, fazia remessas de dinheiro mensais para sua namorada no Brasil, Myra Athayde, através de "Tonho". Myra também foi alvo da Operação Patrón e foi presa preventivamente nesta terça-feira, no Rio, acusada de também atuar na operaração dos negócios de Messer.

Segundo a investigação, Dario Messer e Horacio Cartes têm vínculos empresariais desde a década de 1980, quando o doleiro abriu uma casa financeira no Paraguai que tinha como sócio o pai de Cartes. Messer e Cartes teriam atuado, segundo o MPF e a PF, na lavagem de recursos provenientes do narcotráfico, do tráfico internacional de armas e do contrabando de cigarros ilegais.

— A intenção do doleiro é alocar dinheiro em países diferentes, e naturalmente ele vai lidar com dinheiro sujo neste processo. O que estamos mostrando é que essa atividade também pode envolver tráfico de armas e contrabando de cigarros. A vinculação indireta (de Messer) com essas atividades é clara — afirmou o superintendente interino da Polícia Federal do Rio, Tácio Muzzi.

Messer teria ficado sob a proteção da família Mota entre maio e outubro de 2018, após um curto período escondido sob os cuidados de Roque Silveira, outro empresário com atuação na fronteira. Segundo as informações obtidas pela investigação a partir de escutas telefônicas, Messer informou a Silveira em 2018 que só se entregaria às autoridades paraguaias "se Horacio (Cartes) deixar". Posteriormente, em setembro do ano passado -- após o fim do mandato presidencial de Cartes --, Silveira informou a Messer que se encontraria pessoalmente com o ex-presidente paraguaio, que já havia sido procurado pelo doleiro nos dias anteriores. Pouco depois, ainda de acordo com as investigações, Messer deixou o Paraguai e passou a se esconder no Brasil.

Quando se tornou foragido, em maio de 2018, Messer solicitou auxílio financeiro de U$ 500 mil a Cartes, segundo as investigações, além de quantias de outros empresários, totalizando um suporte de U$ 2,5 milhões entregue paulatinamente ao doleiro através de pessoas de confiança, como Roque Silveira e Antonio Joaquim da Mota. Os recursos permitiram, segundo o MPF, que a organização criminosa mantida por Messer, com ramificações em diversas offshores, seguisse operando, além de possibilitar a fuga do doleiro até sua prisão em São Paulo nesta terça-feira.

— O ex-presidente do Paraguai no mínimo financiou uma organização criminosa em determinado momento. Estamos apurando se a participação foi permanente ou se foi um financiamento pontual — explicou o procurador do MPF José Augusto Vagos.