Operação policial no Complexo do Alemão, no Rio, deixa ao menos quatro mortos

*Arquivo* RIO DE JANEIRO, RJ, 10.09.2020 - Vista do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*Arquivo* RIO DE JANEIRO, RJ, 10.09.2020 - Vista do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP - RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Operação realizada pela Polícia Militar e pela Polícia Civil no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, na manhã desta quinta-feira (21), já resultou na morte de ao menos quatro pessoas.

A PM confirmou a morte de um de seus agentes. Moradores denunciaram que uma mulher dentro de um carro foi assassinada por um policial militar. A corporação diz que dois homens foram encontrados mortos em meio aos confrontos e que dois fuzis foram apreendidos.

A ação conta com 400 policiais do Equipes do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da Polícia Militar e da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) da Polícia Civil. Também estão sendo utilizados dez blindados e quatro helicópteros.

Nas redes sociais, moradores relatam intenso tiroteio na comunidade, com disparos atingindo suas casas.

A Polícia Militar afirma que as bases das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) Fazendinha e Nova Brasília foram atacadas por criminosos, que também derramaram óleo em via pública e atearam fogo em objetos.

Em nota, a corporação diz que as equipes policiais foram atacadas por disparos de arma de fogo em diferentes pontos do Alemão.

A PM confirmou a morte do cabo Bruno de Paula Costa, 38, baleado enquanto estava trabalhando, em ataque à base da UPP Nova Brasília. Segundo a corporação, a morte foi uma retaliação à operação.

Costa foi socorrido ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, mas não resistiu ao ferimento. Ele ingressou na polícia em 2014, era casado e deixa dois filhos.​

Moradores denunciaram que a Polícia Militar matou Leticia Marinho, 50, uma mulher que mora no Recreio, zona oeste da cidade, mas que estava no Alemão visitando a tia do namorado, identificado como Denilson.

Ele afirmou ao Voz das Comunidades, mídia local, que saíram da casa da tia de carro e pararam no sinal, com os vidros abertos, ao lado de um veículo da polícia. Segundo Denilson, não havia confronto no local naquele momento.

Ainda assim, segundo ele, a polícia atirou contra o seu carro. "Nem percebi que ela tinha sido alvejada. Quando olhei, ela já estava caindo para o meu lado", disse.

Segundo Denilson, os agentes não explicaram por qual motivo efetuaram os disparos. Leticia deixa três filhos.

A UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Alemão informou que a paciente deu entrada na unidade, mas que morreu pouco tempo depois.

A investigação da morte está a cargo da Polícia Civil. Entidades de defesa dos direitos humanos frequentemente criticam o fato de a polícia investigar a própria polícia.

Ouvidor Geral da Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Guilherme Pimentel afirma que o órgão recebeu muitas denúncias sobre invasão de residências pela polícia e de helicópteros sendo utilizados como base para tiros.

Ele diz que moradores narraram intenso tiroteio, inviabilizando a saída de casa para trabalhar e estudar. Também relataram que o comércio e unidades de saúde estão fechados.

"As pessoas dentro de casa estão em pânico. Muito inseguras dentro da própria casa", afirma.

Interligada a esta operação, policiais militares do 3ºBPM (Méier), do 41ºBPM (Irajá) e de outros batalhões do 2º Comando de Policiamento de Área (zonas norte e oeste do Rio de Janeiro) também estão atuando nas comunidades Juramento e Juramentinho.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que informações dos setores de inteligência indicaram a presença de criminosos do Complexo do Alemão praticando roubos de veículos, principalmente nas áreas dos bairros do Grande Méier, Irajá e Pavuna.

Segundo a polícia, este grupo criminoso vem realizando roubos a bancos e roubos de carga, além de planejar tentativas de invasão a outras comunidades.

Entre os roubos de carga, de acordo com a corporação, constam roubos de óleo diesel para derramar em ladeiras durante operações policiais, com o objetivo de dificultar o avanço das equipes.

Em entrevista ao Bom Dia Rio, da TV Globo, o major Ivan Blaz afirmou que a operação é necessária para coibir a ação do crime na comunidade, inclusive em outros pontos do estado. Ele também disse que criminosos de outros estados estão sendo abrigados no Alemão.

Blaz afirmou que os confrontos foram muito intensos pela manhã e que as tropas estavam encontrando dificuldade para avançar. Segundo ele, o ataque à base da UPP foi "muito duro".

O major também disse que os criminosos colocaram muitas barricadas e trilhos de trem na região para impedir o avanço dos agentes.

Blaz reconheceu que o impacto na vida dos moradores do Complexo é muito grande, mas pede que eles evitem sair de suas casas. Afirmou, ainda, que equipamentos públicos como escolas não irão funcionar na região enquanto durar a operação.​

A operação ocorre em meio à decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que restringiu as operações policiais para casos excepcionais no estado do Rio de Janeiro, enquanto durar a pandemia da Covid-19.

Em maio, operação policial na Vila Cruzeiro, a segunda mais letal no estado, resultou na morte de 23 pessoas. A favela é vizinha ao Alemão, alvo da ação desta quinta-feira.

A operação mais letal ocorreu em maio de 2021, na favela do Jacarezinho. Foram mortas 28 pessoas, sendo um policial civil.

A Defensoria Pública do Rio de Janeiro e a Ordem dos Advogados do Brasil no estado pedem que o governo do estado reduza em 70% as mortes por intervenção policial no prazo de um ano. As propostas foram encaminhadas ao Palácio Guanabara em junho.

Ao fim de maio, o ministro do STF Edson Fachin decretou que o Governo do Rio de Janeiro ouvisse, em um prazo de 30 dias, o Ministério Público, a Defensoria Pública e o Conselho Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil para concluir o plano de redução da letalidade policial no estado.

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