Operação da PF no MA pode ser só a ponta do iceberg do orçamento secreto

Brazil's Lower House President Arthur Lira, Brazil's Chief of Staff of the Presidency Ciro Nogueira and Brazil's President Jair Bolsonaro attend the national convention of the Progressive Party, in Brasilia, Brazil July 27, 2022. REUTERS/Adriano Machado
O presidente da Câmara, Arthur Lira, com o ministro Ciro Nogueira e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Demorou, mas aconteceu.

Nesta sexta-feira (14), a Polícia Federal prendeu os primeiros investigados por crimes relacionados ao orçamento secreto. A notícia foi publicada em primeira mão pelo repórter Breno Pires, da revista "piauí".

Pires é autor de uma extensa reportagem publicada na edição de julho da revista e que deveria servir de roteiro para qualquer autoridade minimamente interessada em seguir o dinheiro e entender para onde vão os recursos do orçamento secreto.

A apuração já mostrava que esses recursos alimentavam fraudes escancaradas em prefeituras do interior do Maranhão, que inflavam dados de atendimento médico para obter recursos do seu, do meu, do nosso SUS, o Sistema Único de Saúde.

A estratégia era grosseira. Para receber as verbas, os gestores municipais registravam atendimentos médicos e consultas que jamais foram realizados. Uma das prefeituras informou, por exemplo, que realizou mais exames para detecção do vírus HIV do que toda a cidade de São Paulo em um ano.

Outra registrou tantas extrações dentárias que, se os procedimentos tivessem mesmo sido realizados, todos os seus habitantes teriam hoje em média 19 dentes a menos.

Esses recursos só alimentavam esquemas do tipo porque contavam com padrinhos em Brasília: os deputados que viram nas sombras do orçamento secreto uma forma de roubar sem deixar as digitais.

Tudo sob as bênçãos dos líderes do Congresso e do presidente Jair Bolsonaro (PL), que deixou o orçamento ser dragado por neoaliados em troca de governabilidade e agora finge que o problema não é com ele.

Até o momento, duas pessoas foram presas sob suspeita de integrarem a rede criminosa: os irmãos Roberto e Renato Rodrigues de Lima.

Outros endereços são alvo de busca e apreensão.

Segundo a “piauí”, a operação desta sexta-feira é só a primeira a colocar a PF nas ruas.

A operação tem tudo para chacoalhar o ambiente político em Brasília a pouco mais de duas semanas das eleições.

Nesta semana, já havia repercutido e muito uma auditoria do Tribunal de Contas da União que apontou a existência de um verdadeiro cartel de estradas montado durante o governo Bolsonaro.

Uma operação para investigar supostos desvios numa área tão delicada quanto a saúde não pega bem para o presidente que se gaba por ter acabado com a corrupção no país.

A Justiça Federal autorizou o bloqueio de R$ 57 milhões de 12 investigados até agora. Como lembrou Breno Pires em seu perfil no Twitter, “estamos falando de metade do valor total do mensalão só neste caso”. Os números envolvem uma única cidade. “Olha o que tem por vir”, escreveu.

Aparentemente esta é mesmo só a ponta do iceberg.