Operações do Bope nas comunidades: moradores dizem se sentir 'no abate'

Operações do Bope assustam moradores; na Vila Cruzeiro, pelo menos 26 foram mortos (AP Photo/Bruna Prado)
Operações do Bope assustam moradores; na Vila Cruzeiro, pelo menos 26 foram mortos (AP Photo/Bruna Prado)
  • Rotina de operações do Bope no Rio assusta moradores

  • Na última terça, operação na Vila Cruzeiro deixou pelo menos 26 mortos

  • Relato mostra apreensão de moradores de serem as próximas vítimas

Era por volta das 4h quando Ana Cláudia* levantou da cama assustada, achando que uma chuva estivesse caindo. O que era apenas uma preocupação com peças de roupas deixadas ao ar livre se transformou em agonia ao notar gritos, barulhos de carros de polícia e tiros vindos de uma rua próxima. A dona de casa, que vive há quase 30 anos no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, acompanhou ali o início das movimentações da operação policial ocorrida na última terça-feira (24) na Vila Cruzeiro, que resultou, até o momento, na morte de 26 pessoas.

Da janela, Ana chegou a ver mulheres com crianças buscando abrigo enquanto o tiroteio se intensificava e helicópteros rodeavam o local. Ela, que viu de perto em 2010 a noticiada ocupação da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, conta que sempre existe uma expectativa de que algo vá acontecer dentro das comunidades em dias como esses, e que tudo tende a ser esquecido facilmente. Só não por quem mora por ali.

“As pessoas aqui adoecem, têm problemas emocionais, as crianças sofrem os impactos e isso não sai da cabeça delas nunca mais. De certa forma todo mundo sai baleado, de um jeito ou de outro”, comenta.

A operação na Vila Cruzeiro já é a segunda mais letal da história da cidade, ficando atrás apenas da ação de maio de 2021 no Jacarezinho, que resultou em 28 mortes. Ambas ocorreram sob a gestão de Claudio Castro (PL) no governo do Rio. Segundo pesquisa da Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), o atual governador está empatado tecnicamente com o ex-prefeito da capital, Marcelo Crivella (Republicanos), e com o deputado federal Marcelo Freixo (PSB), em um possível cenário para a eleição do Poder Executivo do estado em 2022.

Operações são um medo constante

Faz pouco mais de dois anos que o menino João Pedro, de 14 anos, foi assassinado no bairro de Itaoca, parte do Complexo do Salgueiro em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. Para a arquivista e estudante de Psicologia Julia Marins, vizinha de muro da casa da tia do adolescente, onde ele foi executado, o trauma do acontecimento e o medo que surge toda vez em que há operação policial na região são sensações permanentes.

“Acontece muito da polícia chegar e abrir sua geladeira, sem qualquer indício de que tenha um bandido dentro dela, sentar no seu sofá, olhar seu guarda-roupa”, diz a estudante, que já teve a casa invadida sem qualquer mandado de busca e apreensão diversas vezes. “Vou dizer não para um homem armado até os dentes?”, questiona.

Divone Ferreira da Cunha, 74, vela a filha Gabrielle Ferreira da Cunha, 41, morta na operação do Bope (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Divone Ferreira da Cunha, 74, vela a filha Gabrielle Ferreira da Cunha, 41, morta na operação do Bope (AP Photo/Silvia Izquierdo)

Como Itaoca é uma ilha, a única ligação por terra é por uma ponte de concreto, que é fechada com um pedaço de linha de trem pelo tráfico local toda vez que tem operação, de forma que a polícia costuma chegar por helicópteros ou de barco, pela Baía de Guanabara. Toda vez que precisa sair de casa, Julia se planeja com pelo menos três dias de antecedência, já que o ônibus que circula pelo bairro sai apenas em quatro horários.

“Eu vejo Itaoca como uma grande prisão”, afirma. “Eu vejo que estou ali pronta para abate, que eu posso morrer a qualquer hora e não importa para ninguém.” Apesar de estar nos seus planos um dia se mudar, ela teme pela permanência da família no Complexo do Salgueiro. Assim como ela, eles fazem acompanhamento psicológico desde o assassinato de João Pedro. “É triste ver a minha família ali”, relata. “Como eu vou vencer na vida sozinha? Eu vou deixar a minha família, a minha mãe, os meus irmãos?”

Na comunidade Camarista Méier, Zona Norte da capital, Fabrícia* vive experiências, ora parecidas, ora diferentes de Ana Cláudia e Julia. Nos quase 30 anos em que mora no local, foram raras as vezes em que presenciou um tiroteio. Mesmo assim, o medo e a sensação de impotência em relação à segurança pública é uma questão que a inquieta.

“As operações acontecem na cidade por volta das 6h, quando as crianças estão indo para a escola. A gente não pode falar de um horário específico para isso quando nas comunidades tem pessoas transitando a todo o momento. Quando encontram fuzis dentro de um condomínio da Barra da Tijuca ninguém atira. É complicado quando coloca na balança”, comenta.

Sensação de ineficácia

Apesar de nunca ter passado por uma situação parecida como a de Ana Claudia e Julia, o estudante de Filosofia Bruno Dias já naturalizou a sensação de que, a qualquer momento, ele pode ser revistado ou ter a sua casa invadida pela polícia. O carioca de 23 anos é morador da Rocinha, uma das maiores favelas do país, que ocupa a divisa entre os bairros da Gávea e de São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro. De acordo com a Polícia Militar, a operação da Vila Cruzeiro visava a prisão de traficantes que planejavam se locomover para lá.

“É complicado porque os problemas continuam sendo os mesmos, você acorda escutando tiro, escutando helicóptero”, relata sobre as operações policiais. “Não tem como ser eficaz se tem tanto tempo acontecendo, sempre acontece a mesma coisa e não termina, não faz diferença… Se elas têm objetivo de mudar alguma coisa, não estão resolvendo.”

Familiares esperam desesperados por notícias no hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro (AP Photo/Bruna Prado)
Familiares esperam desesperados por notícias no hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro (AP Photo/Bruna Prado)

Ana Cláudia faz coro ao que diz Bruno. Para ela, o poder público tem condições para melhorar as formas de abordagem, da mesma maneira que o envolvimento com o tráfico pode ser combatido por meio da educação e da cultura. “Não é fácil ver vizinhos sofrendo com a esperança de dias melhores se desmanchando em lágrimas. Nenhuma mãe põe um filho no mundo pra viver isso”, afirma

Fabrícia diz que já não coloca expectativas em relação às ações de governantes, ainda que promessas sobre melhorias na segurança sejam comuns, principalmente em época de eleição. A única certeza que tem é da proteção que não encontraria em outro lugar. “Morar na comunidade é saber que roubos não vão acontecer por aqui. O maior problema vem quando acontece uma invasão”.

*O nome das entrevistas foi ocultado a pedidos delas, por motivos de segurança.

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