Opinião: declaração sobre 'torcedoras atraentes' mostra que a Fifa não entendeu nada

Federico Addiechi exige que TVs não filmem “torcedoras atraentes” (imagem: FIFA/FIFA via Getty Images)

Por Olga Bagatini (@olgabagatini)

Diante das dezenas de casos de assédio e machismo registrados na Copa do Mundo da Rússia, a Fifa resolveu agir. Anunciou na quarta-feira que as emissoras de televisão deveriam reduzir as filmagens de “hot female fan” (torcedoras gostosas, em tradução literal) nas transmissões dos próximos jogos.

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O anúncio foi feito pelo chefe do departamento de responsabilidade social da Fifa, Federico Addiechi, para quem a medida serviria para diminuir os casos de assédio no Mundial. A entidade Fare Network, parceira da Fifa, revelou que 45 denúncias formais por assédio e sexismo foram registradas até agora — 30 torcedoras e 15 jornalistas –, mas estima-se que o número seja muito maior, já que a maioria dos casos não é documentado.

O pedido de Addiechi, contudo, mostra que a Fifa não entendeu nada sobre o machismo e sobre as formas de combatê-lo. É necessário, sim, que as lentes do jornalismo esportivo parem de objetificar as mulheres nas arquibancadas. Mas não porque isso seria um modo de colocar um ponto final nos casos de assédio.

Ao assumir essa postura, a entidade máxima do futebol dá a entender que os assediadores são movidos pelas suposta “beleza” das torcedoras, e que são incapazes de se controlar diante de alguém do sexo feminino. Sem contar que a definição de “hot female man” dada pelo funcionário da Fifa é muito subjetiva e reforça um padrão de beleza imposto, que oprime as mulheres que nele não se encaixam.

A visão de que os casos de assédio ocorrem por causa da presença e das imagens de mulheres nos estádios culpabiliza a vítima, e segue o mesmo raciocínio de quem acha que a culpa dos estupros é da roupa curta ou do comportamento da mulher.

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“Esconder” as mulheres nas transmissões dos jogos não vai ajudar a diminuir o assédio. Quem deve ser educado e conscientizado para não assediar é o homem, independente de onde a mulher esteja ou de como ela esteja vestida.

Em tempo: embora não haja relação entre deixar de filmar as torcedoras e diminuir os casos de assédio, já é tempo da imprensa esportiva e das entidades esportivas pararem de sexualizar mulheres. Elas têm o direito de ir ao estádio livremente, de gostar de futebol, de torcer por seu clube ou por sua seleção, e devem ser respeitadas. Na Rússia, no Brasil ou em qualquer lugar.

É papel das emissoras (assim como dos demais veículos, com suas “galerias de musas”) evitar imagens que reduzem a torcedora a um mero objeto decorativo, que está lá apenas para “enfeitar” a arquibancada.

Esse conteúdo, além de sexualizar o corpo feminino, é exclusivamente voltado para o público masculino e passa a mensagem de que mulheres não gostam nem entendem de futebol. Ao apelar para as “hot female fans” (definição da Fifa) para atrair público, os veículos agem como se houvesse apenas homens assistindo aos jogos da Copa do Mundo, como se só eles se interessassem pelo maior evento esportivo do planeta.

É interessante que uma entidade com o tamanho e poder da Fifa tome atitudes para repensar os problemas do futebol, combater o machismo e diminuir os casos de assédio. Porém, seus dirigentes devem se atentar para fazer isso de uma forma que realmente resolva o problema. A culpa não é da vítima.