Oposição em Israel confirma pacto por novo governo, e era Netanyahu fica por um fio

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A menos de 1 hora do fim do prazo para confirmar a existência de um acordo para formar governo em Israel, a oposição enfim conseguiu montar uma coalizão. Às 23h26 desta quarta (2), no horário local, o líder do bloco, Yair Lapid, anunciou a conclusão do pacto com os últimos três partidos, conquistando apoio suficiente para indicar um premiê e, assim, tirar Binyamin Netanyahu do poder depois de 12 anos.

Caso o prazo máximo -meia-noite (18h de Brasília)- não fosse respeitado, Lapid perderia o direito de conduzir as negociações, o que encaminharia o país a uma nova eleição, a quinta em pouco mais de dois anos. Nesse cenário, Netanyahu ganharia sobrevida e poderia permanecer no cargo ao menos até o pleito.

Lapid recebeu no início de maio do presidente Reuven Rivlin a tarefa de montar em até 28 dias o novo governo e usou quase todo o tempo disponível para negociar a formação de um heteregoêneo bloco de sustentação no Parlamento --a coalizão une partidos que vão da ultraesquerda à direita nacionalista.

Como teve êxito, ele agora comunicará Rivlin oficialmente que está pronto para apresentar a formação de governo. Na sequência, o novo gabinete deve ser aprovado pelo Knesset, o Parlamento de Israel -a previsão é a de que a votação só aconteça na próxima quarta (9). Apenas quando todo esse processo acontecer, o novo primeiro-ministro tomará posse e Netanyahu deixará o cargo.

Uma reviravolta, entretanto, ainda é possível, já que o bloco formado pela oposição tem apenas 61 das 120 cadeiras no Legislativo. Assim, caso um deputado se rebele, a aliança perde a maioria e não consegue remover o atual premiê. A nova coalizão governista é formada por siglas que têm pouco em comum além da vontade de afastar Bibi, como é conhecido o mais longevo primeiro-ministro da história israelense e que enfrenta hoje na Justiça acusações de corrupção, suborno e fraude.

"Na prática, a grande mudança é que o novo governo não terá Netanyahu. Mas ele não vai conseguir mudar muita coisa", afirma Gideon Rahat, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém e pesquisador do Instituto da Democracia de Israel. "Como a coalizão tem muitas forças diferentes, terá de fazer tudo muito lentamente, negociar muito. É um governo para manter o status quo."

No geral, a nova coalizão deve se concentrar na recuperação econômica da pandemia de coronavírus e em outros temas de consenso, deixando de lado questões sobre as quais os membros discordam, como o papel da religião na sociedade e as aspirações palestinas por um Estado próprio na região.

Por outro lado, de acordo com Rahat, o novo governo pode tentar atuar para enfraquecer o Hamas, grupo radical que controla a Faixa de Gaza e que protagonizou um conflito com o Exército israelense nas últimas semanas. Os confrontos terminaram com um cessar-fogo após 11 dias e mais de 240 mortos, a maioria palestinos, e acabou reforçando na opinião pública a necessidade de um governo de união nacional.

Embora Lapid seja o chefe da oposição por comandar o maior partido do bloco --o centrista Yash Atid, que detém 17 cadeiras--, quem vai assumir o cargo de primeiro-ministro nos primeiros dois anos do novo governo será Naftali Bennett, líder da legenda de ultradireita Yamina, que tem apenas seis assentos.

Antigo aliado e protegido de Netanyahu, ele anunciou em um discurso televisionado para todo o país no domingo (30) que estava deixando as negociações com o atual premiê de lado para se juntar à oposição, em uma tentativa de pôr fim à crise política. "Nós podemos partir para uma quinta eleição, uma sexta eleição, até que a casa desabe em nossas cabeças, ou podemos parar com essa loucura e assumir responsabilidades", disse Bennett ao anunciar que faria parte do novo governo.

Ex-empresário que fez fortuna no setor da tecnologia e entrou na política relativamente tarde, Bennett, 49, defende o ultraliberalismo econômico, a linha-dura contra o Irã e a anexação de quase dois terços da Cisjordânia ocupada, o que dá a seu partido de ultradireita grande popularidade entre colonos judeus.

Filho de imigrantes americanos, Bennett se estabeleceu no início dos anos 2000 como um dos queridinhos da "nação start-up", graças à sua empresa de segurança cibernética Cyotta, vendida por US$ 145 milhões em 2005, antes de dar o salto para a política no Likud de Netanyahu no ano seguinte.

No total, a coalizão será formada por oito partidos: Yamina, Israel Nossa Casa, Nova Esperança (as três de direita), Yash Atid, Azul e Branco (ambas de centro), Trabalhista, Meretz (dupla de esquerda) e Ra'am (sigla conervadora islâmica). Inicialmente, a expectativa era a de que o Ra'am apenas apoiasse a aliança no Parlamento, sem fazer parte formalmente do governo. Na segunda-feira, no entanto, o líder da sigla, Mansour Abbas, afirmou que irá fazer parte do grupo e que espera indicar alguns nomes para o segundo escalão --será a primeira vez na história que uma legenda árabe vai integrar o governo israelense.

"Chegou o momento para um novo governo. É uma oportunidade histórica para romper as barreiras que dividem a sociedade israelense, para unir os religiosos e os laicos, a esquerda, a direita e o centro", declarou Lapid há alguns dias, enquanto conduzia as negociações.

A união entre diferentes forças do espectro político foi a única maneira encontrada para pôr fim à atual crise política em Israel, que já dura mais de dois anos. Nesse período foram realizadas quatro eleições, mas todas terminaram com resultados inconclusivos, com um bloco de apoio a Netanyahu e, outro, de oposição -nenhum dos dois lados tinha cadeiras suficientes para governar sozinho, criando um impasse.

Com a sociedade cada vez mais polarizada, Netanyahu seguiu como premiê interino durante todo esse período, mas com dificuldades para aprovar projetos no Parlamento, no qual seu governo era minoritário.

No fim, a solução encontrada por Lapid para resolver a questão foi atrair Bennett, que antes apoiava o premiê. O movimento só teve sucesso porque o líder opositor ofereceu a ele o cargo de primeiro-ministro, algo que Netanyahu hesitava em fazer. O arranjo, porém, é provisório e deve durar dois anos. Depois desse prazo, Bennett deve se tornar ministro da Fazenda, e Lapid, o novo primeiro-ministro.

Em um sinal do desgaste de Netanyahu entre a classe política, grande parte da nova cúpula do governo é formada por antigos aliados do premiê. Dos oito partidos integrantes da coalizão, cinco são liderados por pessoas que ocuparam ministérios na atual gestão, entre os quais Bennett, Lapid e Benny Gantz -que, mesmo rompido com o premiê, segue como ministro da Defesa e deve manter a pasta no novo governo.

A grande questão no país agora é o que Netanyahu, um político conhecido pelo instinto de sobrevivência, vai fazer. Da outra vez em que foi removido do cargo de premiê, em 1999, ele anunciou que se aposentaria da vida pública e passou a trabalhar como executivo de uma empresa de telecomunicações -apenas para retornar à política alguns anos depois. Desta vez, porém, a expectativa é a de que, enquanto se defende das acusações na Justiça, ele siga no Parlamento como líder de seu partido, o Likud, e da oposição, preparando o terreno para tentar reassumir o cargo nas próximas eleições, daqui a quatro anos.

QUAIS PARTIDOS INTEGRAM O NOVO GOVERNO DE ISRAEL

Yash Atid (17 cadeiras)

Liderado por Yair Lapid, antigo apresentador de um dos principais telejornais do país, é o maior partido do novo governo e se situa na centro-direita do espectro político

Azul e Branco (8)

Centrista, a sigla liderou a oposição a Netanyahu entre 2019 e as últimas eleições, em março, quando perdeu espaço para o Yash Atid. Seu líder e fundador é Benny Gantz, ex-comandante do Exército israelense e atual ministro da Defesa

Yamina (6)

Sigla de direita radical que tem como principal bandeira a luta pelos assentamentos israelenses na Cisjordânia. É liderada por Naftali Bennett, filho de imigrantes dos EUA que ficou milionário quando vendeu sua empresa de software e que deve ser o novo premiê

Israel Nossa Casa (7)

A sigla une discurso nacionalista de direita e um forte sentimento secular, opondo-se ferozmente à presença de ortodoxos na política. Seu líder é o controverso Avigdor Lieberman, que nasceu na União Soviética e migrou para Israel aos 20 anos de idade

Nova Esperança (6)

O partido de direita foi criado pelo advogado e ex-ministro Gideon Sa'ar e por outros ex-integrantes do Likud que estavam insatisfeitos com a liderança de Netanyahu na sigla

Trabalhista (7)

De centro-esquerda, é historicamente o principal partido israelense, com raízes no movimento sionista e importante participação na fundação do país. Nos últimos anos, porém, perdeu força. Sua líder é a jornalista Merav Michaeli

Meretz (6)

Partido de esquerda radical que tem ganhado força nos últimos anos, com a perda de apoio dos trabalhistas. Liderado pelo jornalista Nitzan Horowitz, faz duras críticas às ações israelenses na Cisjordânia e na Faixa de Gaza

Ra’am (4)

Sigla islâmica conservadora que no início do ano decidiu romper a aliança que mantinha com os outros partidos árabes, mais progressistas. Liderada por Mansour Abbas, será a primeira legenda árabe a fazer parte oficialmente do governo israelense