Oposição mira Flávio Bolsonaro e quer ouvir empresário sobre vazamento da PF no caso Queiroz

RENATO ONOFRE E RICARDO DELLA COLETTA
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 18-02-2020 - O senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ). O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do presidente do senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), participa de Cerimônia de Posse do General Walter Braga Netto como novo ministro chefe da Casa Civil, que substitui o ministro Onyx Lorenzoni, que deixa a casa civil e toma posse como ministro da Cidadania. No palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em reação às revelações feitas à Folha de S.Paulo pelo empresário Paulo Marinho, ex-aliado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), senadores e deputados cobraram neste domingo (17) investigação para apurar se o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) foi informado antes pela Polícia Federal sobre operação contra ele e então integrantes de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio.

O empresário e suplente de Flávio no Senado afirmou que um delegado da Polícia Federal antecipou em outubro de 2018 para o filho do presidente que a Operação Furna da Onça seria realizada.

A operação, segundo Marinho, teria sido "segurada" para que não atrapalhasse Bolsonaro na disputa do segundo turno da eleição. Os desdobramentos da Furna da Onça revelaram um suposto esquema de "rachadinha" na Alerj (Assembléia Legislativa do Rio) e atingiu Fabrício Queiroz, policial militar aposentado amigo de Jair Bolsonaro e ex-assessor de Flavio na Assembleia.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) classificou as declarações do empresário como "gravíssimas" e afirmou que elas revelam "a interferência de Bolsonaro e de sua família na Polícia Federal antes mesmo do início de seu governo".

Líder da minoria no Senado, ele disse que vai pedir que Paulo Marinho seja ouvido no inquérito que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) para apurar as suspeitas de interferência de Bolsonaro na Polícia Federal.

"A nação não suporta em meio à uma pandemia, o presidente da República criando crises políticas e se envolvendo em todos os tipos de crimes. É urgente superarmos Jair Bolsonaro. O impeachment é urgente. Só assim reconduziremos o país a um caminho seguro", escreveu o senador em rede social.

Randolfe afirmou ainda que vai protocolar na segunda (18) uma representação no Conselho de Ética do Senado contra Flávio Bolsonaro pedindo a apuração dos fatos. Se aceito, o pedido pode levar a abertura de um processo de cassação do senador.

Também neste domingo, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro usou uma rede social para desqualificar as declarações do empresário. "Paulo Marinho, coordenador de campanha de Bolsonaro... . QG em sua residência.... .... Bolsonaro tratava mal os empregados... . Tudo é tão verdadeiro quanto a declaração de seu filho dizendo que foi ele que traduziu a conversa de Trump com o Bolsonaro."

O empresário Paulo Marinho, 68, foi um dos mais importantes e próximos apoiadores de Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Ele não apenas cedeu sua casa no Rio de Janeiro para a estrutura de campanha do então deputado federal, que ainda hoje chama de "capitão", como foi candidato a suplente na chapa do filho dele, Flávio Bolsonaro, que concorria ao Senado.

Os dois foram eleitos. Hoje o empresário está filiado ao PSDB, do governador João Doria (SP), e é pré-candidato a prefeito do Rio.

De acordo com ele, em dezembro daquele ano, Flávio o procurou "absolutamente transtornado" em busca de uma indicação de um advogado criminal. Marinho afirmou que o filho do presidente disse que soube com antecedência que a Operação Furna da Onça, que atingiu Queiroz, seria deflagrada.

Foi avisado da existência dela entre o primeiro e o segundo turnos das eleições, por um delegado da Polícia Federal que era simpatizante da candidatura de Jair Bolsonaro. Mais: os policiais teriam segurado a operação, então sigilosa, para que ela não ocorresse no meio do segundo turno, prejudicando assim a candidatura de Bolsonaro.

O delegado-informante teria aconselhado ainda Flávio a demitir Fabrício Queiroz e a filha dele, que trabalhava no gabinete de deputado federal de Jair Bolsonaro em Brasília. Os dois, de fato, foram exonerados naquele período --mais precisamente, no dia 15 de outubro de 2018.

Neste domingo, o líder do PSOL na Câmara, Ivan Valente, afirmou que, se comprovadas as acusações, o interesse do presidente na PF do Rio estaria explicado.

"Quando o delegado da PF 'vazou' para Flávio a operação que pegaria Queiroz, Ramagem [Alexandre Ramagem, diretor-geral da Abin] já era o responsável pela segurança do Jair Bolsonaro. O que ele tem a dizer sobre isso? O fortíssimo interesse na Superintendência do Rio está mais do que explicado", disse.

Para Valente, as acusações provam que houve fraude nas eleições. "Sim, houve fraudes nas eleições. Mas, o óbvio, não foi quem perdeu quem fraudou", disse pelas redes sociais. "Num país com 'instituições funcionando' levaria à cassação da chapa e novas eleições", afirmou Valente.

Para Orlando Silva (SP), líder do PCdoB na Câmara, as declarações do empresário também explicam a "obsessão" de Bolsonaro em interferir na PF.

"Paulo Marinho indica que essa é a razão da obsessão de Jair Bolsonaro em interferir na Polícia Federal, particularmente na superintendência do RJ. Lembram quando ele disse que "não iria visitar o filho na Papuda"? Pois é, talvez ainda acabem sendo companheiros de cela", disse, em publicação no Twitter.