Oposição boliviana pressiona por renúncia de Morales

Por José Arturo Cárdenas, Francisco JARA
Opositores exigem a renúncia do presidente Evo Morales em La Paz, no dia 6 de novembro de 2019.

O líder opositor regional boliviano Luis Fernando Camacho voltou nesta quarta-feira a La Paz para desafiar novamente o presidente Evo Morales com a entrega de uma carta de renúncia para que assine, em uma jornada marcada pela morte de um manifestante e dezenas de feridos na cidade de Cochabamba.

"Tenho a esperança de que vamos conseguir nosso objetivo", declarou Camacho em um vídeo no Facebook duas horas após pousar no aeroporto de El Alto, vizinho a La Paz, procedente de Santa Cruz.

Camacho saiu do aeroporto em um veículo protegido pela polícia, mas não seguiu para a Casa de Governo, onde era esperado por dezenas de jornalistas, e foi para um local não revelado, onde deve passar a noite.

"Viemos buscar a paz do país, não queremos dividir a Bolívia, queremos uma só Bolívia", disse Camacho, manifestando sua esperança no "fim dos confrontos".

Também chegaram de Santa Cruz para acompanhar Camacho o ex-presidente boliviano Jorge "Tuto" Quiroga (2001-2002) e Gustavo Pedraza, candidato à vice-presidência nas eleições de 20 de outubro na chapa do ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005).

O ministro da Defesa, Javier Zavaleta, disse que Camacho "pode entregar as cartas que quiser" na Casa de Governo, mas não será recebido por Morales.

Camacho, um advogado de 40 anos, se tornou o rosto mais visível da oposição depois das eleições, embora não tenha sido candidato à presidência, ofuscando o ex-presidente centrista Carlos Mesa (2003-2005), segundo na votação.

- Morte nos protestos -

A pressão pela renúncia prossegue, em todo o país, e em Cochabamba um estudante de 20 anos morreu na quarta-feira durante violentos choques entre opositores e partidários do presidente, que também deixaram 50 feridos.

A vítima foi Limbert Guzmán, que deu entrada no hospital com "traumatismo cranioencefálico grave, fratura na base de crânio e morte cerebral, e apresentou parada cardiorrespiratória", segundo o boletim médico.

"Expresso meu profundo pesar pelo falecimento do jovem Limbert Guzmán, vítima inocente da violência promovida por grupos políticos que estimulam o ódio racial entre irmãos bolivianos", tuitou Morales.

Dois homens morreram na semana passada, baleados durante um protesto em Montero, na região de Santa Cruz. As manifestações já deixaram 170 feridos no país, de acordo com a imprensa.

Grupos pró e contra Morales se enfrentaram em Cochabamba com paus, pedras e rojões, e alguns estudantes utilizaram uma espécie de bazuca artesanal.

O canal de TV Unitel mostrou estudantes com escudos de metal para se proteger dos objetos lançados.

Em meio aos confrontos, a sede da prefeitura da vizinha cidade de Vinto, controlada pelo governista MAS, foi incendiada.

A prefeita de Vinto, Patricia Arce, foi humilhada publicamente pela multidão por transportar camponeses pró-Morales para confrontar os manifestantes.

Arce teve o cabelo cortado, foi pintada de rosa e obrigada a andar descalça por vários quarteirões em meios aos gritos de "assassina! assassina!". A prefeita foi resgatada pela polícia horas depois.

Sindicatos de camponeses realizaram uma marcha para restabelecer o tráfego em estradas bloqueadas há dias em Cochabamba, e houve confronto com universitários opositores na Praça Bush e em outras zonas da cidade.

Também ocorreram protestos na quarta-feira nas cidades de Santa Cruz (leste), Sucre (sudeste), Tarija (sul) e Potosí (oeste).

Em quase todas estas cidades os opositores fecharam as repartições públicas e os escritórios das empresas estatais, como a Entel (telecomunicações), a YPFB (petroleira) e a BOA (aérea).

Durante a noite foram registrados confrontos entre a polícia e manifestantes na capital La Paz.

A Agência Nacional de Hidrocarbonetos advertiu para um possível desabastecimento de gasolina caso persistam os bloqueios de estrada.

Morales liderou nesta quarta-feira, no Lago Titicaca, o ato de 193º aniversário da Marinha boliviana, onde declarou que os militares devem "prestar serviço ao povo boliviano".

"As Forças Armadas sempre têm que garantir a soberania do povo boliviano, à margem do papel constitucional de garantir o território nacional", declarou Morales, em uma aparente resposta a Camacho, que no sábado pediu aos militares que fiquem do lado da oposição nessa crise política.

Os militares se mantêm à margem da controvérsia eleitoral.