Opositor russo Navalny é condenado a quase três anos de prisão

Anna SMOLCHENKO
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O opositor russo Alexei Navalny comparece perante um tribunal em Moscou em 2 de fevereiro de 2021

Um tribunal de Moscou determinou na terça-feira (2) a prisão do oponente russo Alexei Navalny por quase três anos, um caso que provocou manifestações em massa a seu favor em toda Rússia e novas tensões entre o Kremlin e o Ocidente.

A juíza Natalia Repnikova disse que Navalny, o principal crítico do Kremlin, violou as condições de um controle judicial e terá que cumprir a pena suspensa de prisão de 2014.

Para isso, terá de cumprir a pena original de três anos e meio, descontados os meses que passou em prisão domiciliar naquele ano.

Sua advogada, Olga Mijaylova, indicou que seu cliente terá de cumprir "cerca de" dois anos e meio de prisão. Ele vai apelar da decisão, acrescentou.

É a primeira sentença longa do ativista anticorrupção de 44 anos.

"Nos encontramos no centro de Moscou imediatamente", disse a organização no Twitter.

Após o anúncio da sentença, sua organização, o Fundo Anticorrupção, convocou uma manifestação diante do Kremlin.

Dezenas de policiais foram rapidamente para o local, de acordo com um jornalista da AFP. As estações de metrô da área foram fechadas, de acordo com agências russas, que já relataram as primeiras prisões.

Moscou categorizou essas chamadas como "interferência".

União Europeia, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, entre outros, pediram a libertação imediata do adversário. O Conselho da Europa juntou-se a eles, chamando a condenação de "contrária às obrigações de direitos humanos da Rússia".

Navalny ouviu a sentença, em pé, com as mãos nos bolsos, no cubículo de vidro reservado aos detidos. Ele fez um gesto em forma de coração para sua esposa Yulia.

Durante a audiência, ele denunciou um caso destinado a amordaçar os oponentes de Vladimir Putin.

- "O envenenador de cuecas" -

"O mais importante neste julgamento é assustar um enorme número de pessoas. Prendem uma delas para assustar milhões", disse o opositor na audiência.

Relembrando a repressão e a detenção de milhares de pessoas durante as manifestações, Navalny disse que esperava que cada vez mais pessoas se deem conta "de que prender milhões ou centenas de milhares de pessoas é impossível".

"Não podem prender todo país!", acrescentou.

Navalny também voltou a acusar o presidente russo de ordenar seu envenenamento no ano passado com um agente nervoso.

"Ficará na história como o envenenador das cuecas", disse, referindo-se à forma em que supostamente o veneno foi administrado.

Em dezembro, Navalny afirmou em um vídeo que havia desmascarado um agente do FSB por telefone, que revelou que o veneno havia sido colocado em sua cueca.

O julgamento de terça-feira foi sobre uma reclamação dos serviços penitenciários segundo a qual Navalny não respeitou seu controle judicial no contexto de sua pena suspensa.

O ativista disse ter informado as autoridades sobre sua convalescença na Alemanha. Ele foi preso imediatamente após seu retorno à Rússia.

Sua prisão provocou novas tensões entre Rússia e o Ocidente. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, planeja viajar para Moscou na sexta-feira e pediu para ver Navalny.

O governo russo afirmou nesta terça-feira acreditar que a União Europeia (UE) não vai cometer a "insensatez" de condicionar suas relações com Moscou ao destino de "um preso em um centro de detenção", segundo palavras do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

- Vários processos judiciais -

Navalny é alvo de vários processos judiciais.

Na sexta-feira ele comparecerá por "difamação" contra um ex-combatente. Ele também é acusado em investigação de fraude, crime passível de punição com até dez anos de detenção, por ter se desviado, segundo as autoridades, de doações direcionadas à sua organização.

Desde seu retorno a Moscou, a justiça russa multiplicou as ações contra Navalny e seus aliados políticos, dos quais quase todos estão em prisão domiciliar, presos ou processados por algumas semanas.

O adversário conseguiu mobilizar seus apoiadores por dois finais de semana consecutivos de manifestações em uma centena de localidades, não só em Moscou e São Petersburgo.

A resposta da polícia foi massiva: no domingo, houve mais de 5.400 prisões em todo o país, um recorde na história recente da Rússia, de acordo com a ONG OVD-Info.

Esses protestos também são alimentados pela disseminação de uma investigação da oposição acusando Putin de lucrar com um "palácio" nas margens do Mar Negro, baixado mais de 100 milhões de vezes no YouTube.

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