Oráculo das urnas no Rio: Taquara repetiu resultados das duas últimas eleições municipais

Dimitrius Dantas e Marlen Couto
·5 minuto de leitura
varios
varios

A apuração de uma eleição é a tradução, em números, da diversidade do país, dos estados e das cidades. Alguns partidos são mais fortes nas periferias, outros conseguem a maioria dos votos entre os mais abastados. O retrato final é o resultado eleitoral. Entretanto, em alguns casos, essa diversidade é replicada em alguns bairros.

Com base nos resultados das duas últimas eleições, o EXTRA identificou dois bairros que repetiram o resultado eleitoral de toda a cidade: Taquara, no Rio, e Butantã, em São Paulo (veja, abaixo, mais informações sobre a região da capital paulista). Segundo os dados, a “margem de erro” do resultado desses bairros é de cerca de 2 pontos, para mais ou para menos.

Ou seja, apesar de ir melhor ou pior em alguns bairros do Rio, o desempenho de Eduardo Paes nas eleições de 2012 em toda a cidade foi praticamente igual na Taquara: apenas no bairro, ele teve 63,9% dos votos válidos; em todo o município, conseguiu 64,6%. Em outras palavras, para saber o resultado na cidade inteira, é provável que seja o suficiente ver os resultados na Zona Eleitoral 180, onde votam, por exemplo, a professora de Educação Física Aika Kuriki e a nutricionista Mônica Marinho. Moradoras do bairro de Jacarepaguá, elas ainda não decidiram em quem vão votar neste ano. Em comum, uma certeza: querem fazer o melhor pela cidade.

Atravessada pelo BRT Transcarioca, inaugurado para as Olimpíadas de 2016, a Taquara representa a diversidade socioeconômica carioca. Ao mesmo tempo em que reúne famílias de classe média, além de ter vivido um boom imobiliário antes de a cidade receber os Jogos, há quatro anos, a área é marcada pela forte presença de grupos milicianos nas dezenas de comunidades que compõem a região.

Desilusão com voto

A paranaense, Aika Kuriki, de 26 anos, mora há oito anos na região de Jacarepaguá e há dois se mudou para a Taquara, mas sempre votou na região. Insatisfeita com a gestão dos últimos dois prefeitos do Rio — Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos), que concorrem novamente ao cargo neste ano — a professora de Educação Física tem buscado candidatos com chance de ir ao segundo turno e que possam desbancar os dois. Por isso, está atenta às pesquisas para direcionar seu voto útil.

— Acho péssima a gestão do Crivella. Não vejo melhora alguma na cidade: os hospitais e as UPAs têm demora no atendimento, os meios de transporte estão sem manutenção. Ao mesmo tempo, não quero Eduardo Paes como prefeito de novo. Chega dele, já foram dois mandatos — diz.

Aika conta que não acompanha o horário eleitoral pela TV e se informa sobre a eleição apenas pelas redes sociais:

— Não gosto mais de acompanhar. Em época de campanha, são mil maravilhas. Depois você não vê o resultado.

Propostas para saúde e educação são prioridade para ela, e, assim como a rejeição aos ex-prefeitos, podem ajudar a sacramentar seu voto:

— São serviços essenciais. Precisam de mudança significativa na qualidade.

Saúde como prioridade

Moradora da Taquara há seis anos, a nutricionista Mônica Marinho, de 45 anos, trabalhou em um hospital de campanha. Hoje, avalia que a resposta dos governos à crise associada à pandemia de Covid-19 poderia ter sido melhor. Não à toa, será justamente a saúde a área decisiva para seu voto.

— A condução da pandemia poderia ter sido melhor. A prefeitura deveria ter se preparado e atuado para garantir atendimento, para melhorar as estruturas dos hospitais do Rio. Como sou da saúde, darei mais peso à área na hora de decidir em quem votar — avisa a nutricionista de Jacarepaguá.

A duas semanas da eleição, Mônica ainda não decidiu em quem votar no dia 15 de novembro. E a moradora da Taquara não está sozinha. O eleitorado feminino no Rio é mais indeciso que o masculino, segundo o Ibope. A diferença chega a dez pontos percentuais, quando considerada a pesquisa espontânea, em que não são apresentadas as opções.

A única certeza da nutricionista é a de que o apoio do presidente Jair Bolsonaro a qualquer candidato pesará negativamente, embora ela considere que não deixaria de votar em um candidato apenas por isso:

— Votei em Bolsonaro na eleição de 2018 e me arrependo por tudo o que ele fala e fez, principalmente na saúde.

Como vota o Butantã, em SP

A exemplo da Taquara, Butantã, na capital paulista, é um retrato das últimas eleições municipais, repetindo praticamente o mesmo resultado de toda a cidade. A Zona Eleitoral do bairro vai das mansões do Jardim Everest à comunidade pobre do Jardim Jaqueline, sendo boa parte composta por bairros de classe média, como a Vila Sônia e o Morumbi. Um espelho da própria São Paulo.

Morador da região, o marceneiro David Salatine faz parte de uma fatia do eleitorado importante para o atual prefeito Bruno Covas (PSDB): os idosos. Desde o início da campanha, mesmo quando Celso Russomanno (Republicanos) ainda liderava as intenções de votos, o tucano tinha preferência entre os eleitores mais velhos, possivelmente por causa da influência do sobrenome ainda fortemente associado ao governador Mário Covas, morto em 2001.

— Para prefeito, eu vou votar no Covas. Parece que ele é uma boa pessoa, honesto. Eu acho que ele é bom — diz.

Já o corretor Leandro Sardinha, vizinho de Salatine no Butantã, ainda não se decidiu; está entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo Márcio França (PSB) e Russomanno. Ele diz que seu principal foco no primeiro turno é evitar que o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, avance para o segundo turno. Em relação a Bruno Covas, ele teme que seus problemas de saúde o impeçam de terminar o mandato:

— Acho que ele vai ter que se tratar e deixar a prefeitura.