Ordem para destruir caça-níqueis de rival precedeu série de ataques a contraventor morto

Rafael Soares, Fábio Gusmão, Marcos Nunes e Gustavo Goulart
·5 minuto de leitura
Domingos Peixoto em 10-11-2020 / Agência O Globo
Domingos Peixoto em 10-11-2020 / Agência O Globo

RIO — Uma ordem do bicheiro Fernando de Miranda Iggnácio, para que seus capangas quebrassem máquinas caça-níquel na favela Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio, no final de 2017, foi o estopim para uma série de atentados contra o contraventor. O dono dos equipamentos quebrados, segundo o depoimento de uma testemunha ao Ministério Público do Rio, era o também contraventor Rogério Andrade, com quem Iggnácio trava uma guerra que já dura 20 anos pelo espólio criminoso de Castor de Andrade. Ao todo, o MP conseguiu identificar quatro ataques contra Iggnácio e seus seguranças nos últimos três anos. O mais recente aconteceu na última terça-feira: o bicheiro foi morto a tiros numa emboscada no Recreio.

Bangu, onde fica a favela Vila Vintém, era o principal objeto da disputa entre os desafetos. Iggnácio herdou de Castor o controle das máquinas no bairro. Andrade, entretanto, já domina o jogo ilegal em todos os bairros ao redor e, segundo o MP, queria tirar o bairro das mãos do rival.

De acordo com o relato da testemunha, o primeiro dos atentados aconteceu no dia 6 de janeiro de 2018 e teve como alvo o então chefe da segurança de Iggnácio, o sargento reformado Anderson Cláudio da Silva, o Andinho. Ele foi atacado a tiros na Rua Ribeiro de Andrade, em Bangu, quando saía de uma das bases da contravenção no bairro.

Segundo a testemunha, o ataque “foi uma represália a uma ordem de Fernando Iggnácio para mandar quebrar máquinas caça-níquel na comunidade Vila Vintém, as quais seriam pertencentes ao contraventor Rogério Andrade”. Ainda segundo o relato, a determinação do rival “deixou Andrade furioso, a ponto de elaborar uma emboscada para tentar matar Anderson, uma vez que este era quem cuidava da parte da segurança do grupo de Iggnácio”. Na ocasião, Andinho trocou tiros e conseguiu fugir.

O MP já conseguiu provas de que o Escritório do Crime — quadrilha de pistoleiros responsável por dezenas de homicídios nas últimas duas décadas no Rio — foi contratado para a empreitada: dados do celular de Leandro Gouveia da Silva, o Tonhão, um dos dos chefes do grupo, mostram que ele estava na região no momento do ataque. Tonhão foi preso em junho passado e responde pela tentativa de homicídio. O segurança de Iggnácio, no entanto, seria morto três meses depois: num novo ataque, em abril de 2018, Andinho foi fuzilado após sair de uma reunião de trabalho e entrar em sua BMW, no Recreio.

PMs escoltavam o contraventor

Em junho passado, apenas cinco meses antes da morte de Iggnácio, foi a vez do braço-direito do bicheiro ser executado. O ex-PM Jorge Crispim Silva dos Santos, apontado por testemunhas como sócio e laranja de Iggnácio, teve a casa invadida por homens encapuzados, que o assassinaram e fugiram sem levar nada.

A Polícia Civil e o MP apuram se os três crimes estão interligados. Investigadores já sabem que o Escritório do Crime tinham um plano para matar Iggnácio desde 2018. Na ocasião, como o EXTRA mostrou ontem, o grupo planejou alugar um imóvel no prédio onde morava o bicheiro para emboscá-lo.

A série de ataques expôs a tropa que PMs que trabalhava para Iggnácio. Além de Andinho e Crispim, a Polícia Civil conseguiu identificar outros integrantes da escolta do contraventor. Dois deles se envolveram no primeiro atentado contra Andinho.

Durante a troca de tiros, o sargento — atualmente reformado — Natalino dos Santos Rodrigues foi baleado na mão e no tórax. Nesse dia, Natalino foi socorrido pelo ex-PM Jorge Fernando Pita da Costa. Os dois alegaram que o sargento havia sido vítima de um roubo. Ao analisar o celular de Andinho, entretanto, a polícia descobriu que ambos trabalhavam para Iggnácio, que não estava sendo escoltado quando foi executado.

Assassino usou um fuzil AK-47, afirma a polícia

Policiais da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) já sabem que a arma usada na execução do contraventor Fernando de Miranda Iggnácio é um fuzil AK-47. Na terça-feira, foram apreendidos estojos de munição de calibre 7,62, usado nesse tipo de arma, no terreno baldio ao lado da empresa Heli-Rio. A polícia também já sabe que cerca de dez tiros foram disparados e cinco projéteis atingiram o contraventor. Na terça-feira, policiais chegaram a informar que o fuzil usado pelo assassino era de calibre 5,56, cujo projétil é menor e menos potente do que o 7,62.

A DHC trabalha com a hipótese de que um único atirador foi o responsável pelos disparos. Outra informação que está sendo investigada é de que o assassino estaria escondido, desde o início da manhã do crime, no terreno baldio. Após o assassinato o atirador usou o terreno como rota de fuga.

Dez processos no TJ

De dez processos judiciais localizados no Tribunal de Justiça do Rio envolvendo Fernando Iggnácio, quatro deles são por homicídios qualificados, sendo que todos já foram arquivados em definitivo. Entre eles, um homicídio qualificado em 2007, que foi arquivado em 15 de junho de 2018. Outro homicídio qualificado em que Fernando foi indiciado ocorreu em 2014 e acabou arquivado em definitivo em 19 de março de 2018.

Os processos que seguem no TJ nas esferas criminal, cível e fazenda pública podem não responder a realidade do número de ações, já que podem haver casos em segredo de Justiça.

Fernando e outros quatro homens foram condenados, em 2018, por um triplo homicídio ocorrido em 2006. A pena foi de seis a 20 anos para os réus. Outro crime atribuído a ele e um outro homem é um homicídio qualificado. Como em outros processos, este foi arquivado em novembro de 2017.