Organização cancela exposição no Metrô por racismo e violência de seguranças

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Organização cancela exposição no Metrô por racismo e violência de seguranças
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  • Exposição em comemoração ao mês da Consciência Negra havia sido instalada em estações da Linha 4-Amarela do Metrô de São Paulo

  • Em outubro, um vendedor ambulante negro foi agredido por seguranças na estação Anhangabaú, da linha 4-Vermelha

  • Uneafro diz que o cancelamento da mostra é em solidariedade às vítimas de violência e a ViaQuatro não se posicionou

Texto: Letícia Fialho

A Uneafro Brasil, organização do movimento negro brasileiro que há mais de uma década atua pela educação, por direitos e pela defesa do povo negro, decidiu barrar uma exposição em comemoração ao mês da Consciência Negra no metrô paulista. Desde 1 de novembro, a mostra estava disponível nas estações São Paulo - Morumbi e Oscar Freire da Linha 4-Amarela, administrada pela ViaQuatro.

A exposição foi criada após um jovem negro de 21 anos, vendedor ambulante, ser agredido de forma brutal por seguranças da estação Anhangabaú do metrô, no final de outubro. Durante a ação dos agentes de segurança, uma mulher registrou com o celular imagens da imobilização, sufocamento e truculência, enquanto suplicava para que os seguranças não o matassem em frente ao filho, um bebê que chorava no carrinho.

Nas redes sociais, a mulher relatou que o jovem foi xingado pelos agentes e, ao descer as escadarias da estação para ir embora, foi empurrado, por isso reagiu cuspindo em quem o violentava de forma verbal, moral e fisicamente.

“Manter a exposição daria legitimidade, de que essa instituição se preocupa com o racismo e, de certo modo, pesaria menos sobre a responsabilidade da violência contra esses trabalhadores e trabalhadoras negras. Violentados na frente de seus filhos, roubados os produtos de seu trabalho. Os motivos se acumulam com o rastro de violência racial dentro desses espaços”, reflete o cientista social Wellington Lopes, militante da Uneafro Brasil.

Lopes concorda que a iniciativa tem um grande clamor por expor a memória da luta da militância negra organizada e que a exposição caberia em qualquer outro espaço, sem deixar de ter um grande efeito político, artístico e cultural. Por outro lado, tem a capacidade de legitimar instituições que são recorrentes em práticas de violência racial. Deste modo, seria como deixá-los dizer: "Eu não sou racista, até deixei meu 'amigo negro' fazer uma exposição dentro da minha casa".

“O racismo é um elemento estrutural que fundamenta e define as relações institucionais públicas e privadas. Decidir que não houvesse a exposição e se colocar diante de determinada relação com esse espaço, que não se encerra na mobilidade urbana mas é, também, um espaço de trabalho para milhares de pessoas negras que buscam uma alternativa de sobrevivência”, afirma o militante.

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Solidariedade às vítimas de racismo e violência no Metrô

“Casos como esse acontecem frequentemente no sistema metroferroviário. Ainda que as linhas atravessem, principalmente, lugares onde vivem a população branca e rica da cidade, os alvos da violência são sempre corpos negros ou de trabalhadoras e trabalhadores informais", diz nota publicada pela Uneafro.

Segundo a organização, o racismo motiva e naturaliza a violência estrutural do Estado. “Sendo assim, se manifesta também nas estações das linhas privatizadas – até porque estamos falando de um sistema interligado - o que iguala, desqualifica e requer medidas eficazes de ambas as formas de gestão para que casos como esse não se repitam”, completa o comunicado.

A organização reflete ainda sobre outro aspecto, que envolve a própria organização do sistema metroviário. Segundo a Uneafro, isso também vale para a lógica racista que organiza toda a cidade, uma vez que sua implantação intensifica a concentração de investimentos em determinados territórios e frequentemente remove, sem compensação adequada, a população negra que ali vivia, sem sequer indenizá-la adequadamente.

Na mesma nota, em solidariedade as vítimas da violência do estado, a organização reitera que "não contribui para manifestações marqueteiras que tentam promover uma falsa imagem de um sistema viário antirracista. Em solidariedade a todas as vítimas dessa violência, a exposição está cancelada".

A Alma Preta Jornalismo entrou em contato com a ViaQuatro, administradora das estações da Linha 4 - Amarela do metrô, que não se posicionou até o momento da publicação. Caso a companhia se posicione, o texto será atualizado.

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