Orgulho: três casais mostram que, com respeito e parceria, qualquer maneira de amor vale a pena

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“Me relacionar com uma mulher foi a minha melhor escolha. O amor preto pode curar, se ele for respeitoso”, diz Maiane Boitrago que há pouco mais de um ano namora a dançarina Marcelly de Melo. As duas já se conheciam desde 2016, por causa dos amigos em comum, mas só se aproximaram no ano passado:

— Eu me lembro muito do primeiro beijo. Para mim, é inesquecível. Estava bem nervosa, mas foi um dos meus momentos mais marcantes — afirma Maia, 31 anos, que é hairstylist.

Nas redes sociais, o casal publica fotos, troca juras de amor e recebe o carinho dos amigos. A demonstração de amor em público, sobretudo entre mulheres negras, é uma ferramenta para lidar com o racismo e a LGBTfobia.

— Nós moramos em Copacabana, então sofremos constantemente, principalmente racismo. Mas acredito que o amor preto pode curar, sim, se souber respeitar quem você é, seu tempo e os seus limites. Ele cura e transforma — diz Maia.

Ainda no ensino médio, Letícia Pacheco, de 20 anos, já observava Thiago Peniche, 23, entre os demais colegas. Os dois se reencontraram em um curso de inglês onde ele era professor, e só aí Thiago olhou a estudante de Biblioteconomia de uma outra forma. O relacionamento nasceu em cima de uma amizade bonita, como lembra Letícia:

— Um dia saímos e Thiago levou o violão. Terminamos a noite sentados na calçada, comendo batata-frita e conversando, enquanto estranhos pediam música. É uma memória simples, mas nesse dia me apaixonei um pouquinho mais por ele.

Jornalista e influenciador digital, Thiago é um homem trans e publica diversos conteúdos sobre o tema em seu Instagram. Para ele que, assim como Letícia, é bissexual, a sociedade, apesar das mudanças lentas, precisa aprender sobre gênero e raça.

— O que eu espero é que nos deem visibilidade, respeito e condições de ter uma vida digna; que criem ambientes seguros nas escolas, nos deem oportunidade de emprego, nos amem, sintam orgulho de quem somos e que possamos caminhar livremente nas ruas, sem medo de não voltar para casa — afirma ele, que aposta no amor e no diálogo em sua relação com Letícia, uma mulher negra. — Acredito que gênero e raça perpassam nosso relacionamento. Sempre conversamos sobre essas questões e, principalmente, somos suporte um do outro quando transfobia e racismo tentam nos limitar.

Juntos há 26 anos, o maquiador e cabeleireiro Vini Kilesse, 44, e o cineasta Orlando Kilesse, 50, se conheceram pela irmã do maquiador. Na época, relacionamentos homoafetivos ainda eram pouco discutidos, sobretudo entre as famílias, o que causou desconforto.

— Eu acho que houve turbulências e adaptações. Minha mãe teve que se acostumar, meu pai fez perguntas, os pais do Orlando tiveram uma educação severa. Hoje, nós não temos mais os nossos pais, fomos construindo a nossa família — conta Vini.

Um grande passo nessa união de quase 30 anos foi o casamento no papel, concretizado há três. Para o casal, não é apenas uma assinatura, mas uma garantia de direitos.

— Parece que não faz diferença assinar um papel, mas faz. Para quem não tem direito a nada, e nunca teve, é muito importante ter respaldo legal, plano de saúde, visto e residência. É bonito adquirir poder legal sobre a sua união, ter certeza dos seus bens e sobre o que vai acontecer. É o que eu acho mais lindo de compartilhar — afirma Orlando.

Apesar da homofobia, Vini acredita que as próximas gerações serão mais conscientes e terão mais ferramentas de luta.

— Essa política atual desdenha da minha casa e da minha família, o que é estranho, porque meu lar tem cheiro de refogado, de amaciante, tem criança correndo, barulho de cachorro, velho na rede, cheiro de pipoca. O que importa é o amor, o respeito, o convívio, isso é que é lindo. Quando eu olho para uma geração jovem que vem mais respeitosa, menos rotulada e mais livre, acho que isso é resultado de algum avanço. O fato de podermos entrar no cartório e sair com o mesmo direito do casal ao lado é um avanço.

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