Origem de ódio político está no passado da humanidade e explica até briga em reality show

SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Crianças batendo boca na escola por causa da eleição presidencial, famílias divididas, antigos amigos que chegam a atirar uns nos outros por votar em candidatos diferentes: situações como essas se multiplicaram ao longo da campanha eleitoral de 2022, mas não há nada de propriamente inesperado nelas.

Uma ampla gama de estudos mostra que seres humanos de todas as épocas e lugares tendem a se comportar dessa maneira diante de adversários políticos ferrenhos. A dinâmica que leva as pessoas a se enxergarem como membros de grupos separados dos demais muitas vezes conduz também à desumanização de quem está fora desses grupos. Entre isso e a violência física, a distância é relativamente pequena.

De acordo com Paul Bloom, especialista em psicologia do desenvolvimento na Universidade Yale (EUA), provocar essa sensação de "nós contra eles" em experimentos de laboratório é muito fácil, a partir dos pretextos mais banais. Ele conta que, em uma pesquisa clássica, isso foi feito mostrando para os participantes quadros modernistas que teriam sido pintados por dois artistas diferentes, o russo Wassily Kandinsky e o suíço Paul Klee.

As pessoas tinham de dizer qual pintor era o seu preferido, ficando separadas em grupos de "fãs de Kandinsky" e "fãs de Klee".

Na verdade, porém, a atribuição dos quadros aos artistas foi feita de forma aleatória, de modo que os grupos de supostos fãs não tinham nada a ver com o gosto real dos participantes. Os voluntários, porém, não tinham ideia disso.

Quando os pesquisadores perguntavam, digamos, a um "fã de Klee" se ele achava que outros membros do seu grupo eram mais inteligentes que os "fãs de Kandinsky", em geral ele respondia que sim. Pior ainda, as pessoas também se diziam mais dispostas a emprestar dinheiro para um suposto fã do mesmo pintor do que para membros do outro grupo.

Segundo Bloom, efeitos parecidos acontecem mesmo quando os grupos são formados tirando cara ou coroa --e com os participantes do experimento sabendo que a divisão foi feita dessa maneira. É o mesmo fenômeno que costuma acontecer em "panelinhas" de aliados formadas em reality shows, quando pessoas que nunca tinham se visto antes na vida desenvolvem uma lealdade feroz entre si após poucos dias de programa.

Tudo indica que as origens desse mecanismo estão no passado remoto da humanidade, quando grupos relativamente pequenos (com, no máximo, algumas centenas de pessoas) correspondiam a unidades políticas e sociais independentes. Como não havia polícia, juízes ou qualquer outro aparato formal dos atuais Estados, qualquer grupo podia ser atacado por outro sem represálias legais.

Por isso, a coesão interna de cada grupo, bem como uma mentalidade "nós contra eles", foram essenciais para a autodefesa dessas sociedades de pequena escala durante dezenas de milhares de anos de pré-história humana. Para reforçar os elos entre os membros dessas sociedades, elementos como vestimentas e adornos característicos, costumes, mitos, lendas e crenças religiosas passaram a emergir e foram se tornando cada vez mais complexos.

Embora a política partidária seja um fenômeno extremamente recente na maior parte do mundo, ela é capaz de funcionar como um "puxadinho" cognitivo. Ou seja, ela é construída por cima desse tipo de instinto tribal mais básico, aproveitando sua infraestrutura, para reforçar identidades e fomentar conflitos.

Um estudo publicado em 2020 no período especializado Science, com coordenação de Eli Finkel, da Universidade Northwestern, mostrou como isso tem acontecido nas últimas décadas com os eleitores do Partido Democrata e do Partido Republicano nos EUA.

Como ambos os partidos existem desde o século 19, já houve muita convergência ideológica entre eles, e até trocas de posição. Há 150 anos, os democratas, hoje ligados a bandeiras de igualdade social, eram contra a abolição da escravatura, enquanto os republicanos defendiam o direito ao voto dos ex-escravizados, por exemplo. No século 20, até os anos 1960, as bandeiras dos dois partidos eram só ligeiramente diferentes.

No entanto, as mudanças culturais pós-1960 iniciaram uma divergência cada vez maior, fazendo com que hoje grande parte dos democratas ou republicanos rejeitem a ideia de ter um vizinho do partido rival, ou que seus filhos se casem com filhos de gente do outro grupo político.

Além disso, segundo o estudo, ambos os lados possuem visões muito distorcidas da natureza do outro. Republicanos creem que 30% dos democratas pertencem à comunidade LGBTQIA+, por exemplo (número verdadeiro: 6%). Já os democratas acham que 40% dos republicanos são endinheirados, ganhando mais de US$ 250 mil por ano (dado real: 2%).

De acordo com o pesquisador, três elementos fazem com que os dois grupos estejam cada vez mais fechados dentro de si mesmos. O primeiro é o chamado "othering", a tendência a achar que o adversário político é o Outro com O maiúsculo, estranho e alienígena. O segundo é a aversão e a desconfiança em relação aos adversários, e o terceiro é a moralização --a ideia de que o outro não apenas tem ideias equivocadas como é essencialmente mau.

O papel das lideranças políticas nisso não pode ser negligenciado. Diversos estudos recentes apontam que, em países nos quais líderes políticos empregam uma retórica violenta em seus discursos, a distância entre fala e ação é pequena, com aumento do terrorismo doméstico e agressão a imigrantes.

Haveria um antídoto? Em nível individual, a tomada de consciência sobre o que está acontecendo é o primeiro passo.

"Uma forma eficaz de combater isso, segundo alguns estudos, é enfatizar as similaridades e comunalidades morais entre 'nós' e 'eles'", diz Marco Antonio Correa Varella, pesquisador de pós-doutorado e professor visitante do Departamento de Psicologia Experimental da USP. "Enfatizar que todos somos humanos, temos famílias, amigos, nomes próprios, linguagem, sonhos e vontade de sobreviver."

"Uma forma eficaz de combater isso, segundo alguns estudos, é enfatizar as similaridades e comunalidades morais entre ‘nós’ e ‘eles’. Enfatizar que todos somos humanos, temos famílias, amigos, nomes próprios, linguagem, sonhos e vontade de sobreviver

Marco Antonio Correa Varella

Pesquisador de pós-doutorado e professor visitante do Departamento de Psicologia Experimental da USP