Origem do coronavírus ainda é mistério, e cientistas agora miram animais de criação

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ano e oito meses após os primeiros casos de Covid-19 na cidade de Wuhan, China, ainda é um mistério de onde veio o coronavírus Sars-CoV-2, agente responsável pela doença.

Na última semana, porém, três eventos independentes reacenderam o debate sobre a origem do vírus.

Primeiro, na última terça (24), o presidente americano Joe Biden recebeu a versão final do relatório das agências de inteligência, encomendado três meses antes por ele. O texto afirma que não foi possível confirmar ou negar a chamada teoria de escape laboratorial, isto é, que o vírus era estudado em um laboratório, de onde escapou e acabou e passou a infectar seres humanos.

Embora ainda exista uma certa suspeita do próprio governo sobre o resultado, as agências de inteligência americanas consideram que a hipótese de origem animal do vírus é a mais provável.

Na última quarta (25), uma equipe de especialistas da OMS (Organização Mundial da Saúde) cotada para fazer buscas na China a respeito da origem da Covid argumentou que está ficando cada vez mais difícil colher evidências sobre onde surgiu o patógeno. O relatório divulgado pela OMS em março deste ano também foi inconclusivo, embora também colocasse a hipótese de origem animal como mais provável.

E, por fim, um grupo de pesquisadores publicou na última sexta (27), na revista científica Science, um artigo de perspectiva que traz um bom resumo da situação e apresenta argumentos a favor de uma terceira via de transmissão: a cadeia de consumo, na qual animais selvagens capturados podem potencialmente infectar outros criados em fazendas.

Os cientistas argumentam que para além de uma passagem natural de um hospedeiro para humanos --o chamado spillover, ou o "salto" entre espécies, algo já conhecido para outros coronavírus-- é preciso considerar a hipótese de um contágio indireto através de um animal criado e comercializado, tanto para consumo de carne quanto de peles.

A hipótese a favor da origem natural do Sars-CoV-2 já trazia indícios de diversos outros estudos feitos no passado, incluindo o maior estudo evolutivo de coronavírus, com mais de 2.000 genomas únicos, evidenciando uma origem a partir de morcegos do vírus para os humanos.

No entanto, o fato de nunca ter sido encontrado o hospedeiro natural de uma espécie próxima ao Sars-CoV-2 -o coronavírus isolado de morcegos RaTG13, antes tido como o ancestral comum mais recente, compartilha apenas 96,3% do genoma com o Sars-CoV-2, o que representa um salto evolutivo grande- ainda intriga os especialistas.

Como, então, um vírus do tipo Sars-CoV, teria surgido em Wuhan, a cerca de 1.500 quilômetros de Yunnan, onde foi encontrado o RaTG13, quase uma década depois, evoluído e saltado para humanos?

O foco, dizem os pesquisadores, não deve ser na população de morcegos de Yunnan, mas sim a distribuição de espécies tidas como potenciais reservatórios para vírus em todo o território chinês, de leste a oeste, e ainda em grande parte do Sudeste Asiático do e Japão.

Como os morcegos do gênero Rhinolophus, também conhecidos como morcegos-ferradura, e de onde foram obtidas as amostras do RaTG13, têm distribuição ampla na Ásia, a distância não seria um problema.

Recentemente, um estudo publicado na revista Cell identificou, a partir de mais de 400 amostras de morcegos Rhinolophus, 24 genomas completos de coronavírus, dos quais sete eram desconhecidos e quatro eram do tipo Sars-CoV.

Uma dessas espécies de coronavírus encontradas nos morcegos, a RpYN06, é hoje a mais proximamente relacionada ao Sars-CoV-2, com quem compartilha uma extensa parcela do seu genoma viral.

A teoria defendida pelos cientistas é que, um salto para os humanos poderia ter ocorrido por meio da troca de vírus entre animais selvagens vendidos nos mercados e os criados em fazendas, uma vez que ambos são comercializados, transportados e confinados nos mesmos espaços na maioria dos mercados asiáticos. Porem, não há, ainda, uma definição clara de como essa passagem teria ocorrido.

A contaminação de carnes e outros itens de origem animal já foi investigada pela OMS, que testou cerca de 80.000 animais e produtos de origem animal para o coronavírus em sua investigação. Mas mesmo uma amostragem desse tamanho representa uma "agulha no palheiro" se não for considerado todo o universo de possibilidades ainda desconhecido.

"A escala em grandes quantidades do transporte de carnes, incluindo carcaças de animais suscetíveis de transmissão do Sars-CoV-2, pode ter tido um papel na emergência do coronavírus em Wuhan", afirmam os autores, e, portanto, ser proveniente de uma área muito mais distante, não apenas da cidade que foi o epicentro da Covid-19.

A argumentação dos autores é que a grande escassez de carne suína em 2019 devido ao vírus da febre suína africana na China teria deslocado o consumo para outras carnes, inclusive espécies selvagens, o que torna o contato desses animais com os de criação muito mais próximo.

Dois outros estudos divulgados ainda este ano já apontavam para os riscos do modo de transporte e produção associado à venda (ilegal ou não) de produtos derivados de origem animal. Um deles, inclusive, trazia uma classificação de risco para novos eventos de zoonose conforme o tipo de mercado, dividindo-os em para consumo ou não, com bens perecíveis (carne fresca, incluindo animais vivos) ou não-perecíveis.

A conclusão deste estudo é que há um maior risco sanitário e também para a biodiversidade nos chamados mercados úmidos, como era o mercado de Huanan.

O tema é complexo, uma vez que consiste em fazer um monitoramento genômico exaustivo em todas as populações de animais que podem ser reservatórios naturais desses vírus --que inclui espécies tão distintas quanto galinhas e visons--, e ainda não se sabe se a passagem do coronavírus de morcegos para humanos teve ou não um hospedeiro intermediário.

Para a ciência, quanto mais tempo passa, mais difícil fica juntar evidências que podem desvendar esse mistério. Isso porque as amostras biológicas, como amostras de sangue dos primeiros pacientes, começam a se degradar. Traços genéticos do vírus e de seus ancestrais nos locais prováveis de origem ou de contágio indireto, como o mercado de animais de Huanan, também se perdem.

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