Os 3 milhões de votos no presidente eleito da Colômbia não apareceram “de forma inexplicável”

Publicações que alegam que 3 milhões de votos apareceram “de forma inexplicável” nas eleições da Colômbia para beneficiar o presidente eleito, Gustavo Petro, foram compartilhadas mais de 1,8 mil vezes desde 20 de junho de 2022. Os usuários sugerem que houve “fraude eleitoral”, mas especialistas explicaram à AFP que os eleitores do primeiro turno não necessariamente são os mesmos do segundo e dados mostram que a votação diminuiu nos departamentos em que seu rival, Rodolfo Hernández, tinha vantagem. Observadores internacionais e o candidato derrotado reconheceram a legitimidade do pleito.

“3 milhões de votos aparecem de forma inexplicável nas urnas beneficiando o Narco-Presidente eleito na Colômbia, isso mesmo que você leu 3 MILHÕES!!”, diz uma das publicações no Twitter (1, 2) e no Facebook (1, 2, 3) junto a uma captura de tela de um artigo espanhol que sugere uma “suspeita de fraude” nas eleições.

Captura de tela feita em 23 de junho de 2022 de uma publicação no Twitter ( . / )

Conteúdo semelhante também circulou em espanhol (1, 2).

Petro, senador e ex-prefeito de Bogotá (2012-2015), foi eleito presidente da Colômbia após obter 50,4% dos votos válidos (11.281.013, na pré-contagem) em 19 de junho de 2022, em segundo turno acirrado contra o ex-governante de Bucaramanga (2016-2019) Rodolfo Hernández, que somou 47,31% (10.580.412).

O artigo cuja captura de tela é compartilhada nas publicações virais que denunciam uma fraude no segundo turno das eleições foi, na verdade, publicado pelo jornal espanhol La Razón em 28 de maio de 2022, um dia antes do primeiro. O texto reúne uma série de denúncias de possíveis irregularidades nessas votações, a maioria delas feitas por Petro.

3 milhões de votos

Participaram do segundo turno das eleições 22,6 milhões de cidadãos, 1,2 milhão a mais do que no primeiro turno de 29 de maio. Trinta e nove milhões de colombianos estavam aptos a votar. Diferentemente do Brasil, na Colômbia o voto não é obrigatório.

Os usuários, então, questionam como tendo apenas 1,2 milhão de eleitores a mais no segundo turno, Petro conseguiu somar 3 milhões de votos àqueles obtidos no primeiro.

Segundo três especialistas consultados pela AFP, não é possível supor que todas as pessoas que votaram no primeiro turno o fizeram no segundo, e que os "novos eleitores" foram apenas 1,2 milhão.

"No total, vemos uma diferença de 1,2 milhão de votos entre o primeiro e o segundo turno, mas é uma diferença de número, certamente não de 'novos eleitores'. Poderia ter havido muito mais eleitores no segundo turno que não participaram, e outros que votaram na primeira mas não votaram na segunda, ficaram em casa", disse Juan Albarracín, doutor em Ciência Política e professor assistente do Departamento de Ciência Política da Universidade de Illinois, em Chicago, Estados Unidos.

O presidente eleito da Colômbia, Gustavo Petro, comemora com sua esposa, Verónica Alcócer (c), e sua vice-presidente, Francia Márquez, em Bogotá, em 19 de junho de 2022 (AFP / Daniel Muñoz) ( AFP / Daniel Muñoz)

Em quem os novos eleitores votaram?

Os dados mostram que nos departamentos da Colômbia onde a participação dos cidadãos mais aumentou, Petro obteve a maior vantagem, enquanto nas regiões em que Hernández foi mais favorecido, a participação cresceu timidamente.

"O Caribe e a Costa do Pacífico foram as regiões onde a participação mais aumentou, acima do aumento do agregado nacional, e essas são áreas mais petristas, que ampliaram sua margem de vitória. Podem até ser eleitores que nunca exerceram seu direito [ao voto] e fizeram isso pela primeira vez", sugeriu à AFP Sebastián Londoño, cientista político da Universidade de Rosário, de Bogotá.

Juan Pablo Milanese, doutor em Ciências Políticas e Sociais e chefe do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Icesi de Cali, também concordou: "O que observamos é que nos departamentos em que Petro já era forte, ele conseguiu capturar maior número de votos no segundo turno. Pode-se inferir que houve rotatividade de eleitores: novas pessoas foram incentivadas a sair e outras deixaram de fazê-lo".

Não há transferência perfeita de votos

Além disso, dados de participação indicam que muitos cidadãos deixaram de votar no segundo turno em alguns municípios de Antioquia, departamento no qual Hernández teria certa vantagem porque foi onde Federico Gutiérrez, outro candidato da direita, havia vencido no primeiro turno. É o caso de Medellín, onde a participação caiu 1,56%.

Inclusive, houve algumas cidades da Costa Atlântica onde Gutiérrez venceu no primeiro turno, e que no segundo os votos mudaram para Petro. Isso aconteceu em Luruaco, no departamento do Atlântico; Villanueva, Calamar e El Guamo, no departamento de Bolívar; e Salamina, El Piñon e Cerro San Antonio, do departamento de Magdalena.

Isso acontece porque não existe uma transferência perfeita de votos de um candidato do primeiro turno para um outro do mesmo espectro político no segundo turno, como explicou Londoño:

"Esperar que haja uma transferência perfeita de votos de um candidato para outro no segundo turno é um erro. O eleitorado colombiano é complexo, muda de opinião, tem motivações diferentes. Não se pode nem supor que os cinco milhões de pessoas que votaram em Hernández no primeiro turno, voltaram a fazê-lo no segundo. Às vezes, supomos que 1+1 é igual a 2 na política eleitoral, e isso mostra que não é".

Milanese lembrou que em cada votação "os incentivos para votar mudam". "No primeiro turno há mais candidatos e pode ser que muitas pessoas tenham saído para votar motivadas por eles, mas no segundo turno [esse candidato] não estava mais lá. E outros se animaram para votar no segundo turno, sem ter votado antes, porque viram que era mais decisivo”, disse.

As pesquisas mostravam

Albarracín lembrou que as pesquisas anteriores ao segundo turno "já mostraram que havia uma grande relutância" por parte dos eleitores de Gutiérrez e Sergio Fajardo em votar em Hernández. "Por isso se mostrou um empate técnico. Devemos entender que o comportamento do eleitor não é apenas votar em outro candidato ou votar em branco, mas também ficar em casa", reiterou.

Uma pesquisa diária realizada pela consultoria GAD3 para o portal Noticias RCN mostrou que Hernández foi reduzindo sua vantagem nas intenções de voto até chegar a um empate técnico com Petro durante a campanha eleitoral. Após os resultados do primeiro turno, em 29 de maio, Hernández teve 52,5% de intenção de voto, frente aos 44,8% de seu rival. Em contrapartida, na última medição de 11 de junho, a intenção de Hernández era de 47,9% e a de Petro de 47,1%.

Outra medição realizada pelos institutos Guarumo e Ecoanalítica também apontou para um empate técnico entre os candidatos na reta final da campanha.

"Às vezes, se pensa que o outro eleitor é igualmente politizado. Ou seja, se sou eleitor de Fico [Gutiérrez] e meu lema é 'qualquer um menos Petro', suponho que todas as pessoas que votaram nele apliquem o mesmo raciocínio. E não é assim. Não temos todos os mesmos motivos. Essas lógicas simplistas não fazem sentido", acrescentou Londoño.

O ex-candidato presidencial Rodolfo Hernández chega a um local de votação em Bucaramanga, Colômbia, em 19 de junho de 2022 (AFP / Schneyder Mendoza) ( AFP / Schneyder Mendoza)

Eleições “inquestionáveis”

Nas eleições de 19 de junho, 158.744 testemunhas eleitorais de ambas as campanhas políticas foram credenciadas para acompanhar e supervisionar o desenvolvimento da votação em 102.152 mesas em todo o país. Após a votação, nenhum dos candidatos alertou sobre fraudes, como as publicações sugerem.

Na mesma noite da eleição, Hernández reconheceu a vitória de Petro, que tomará posse em 7 de agosto. Em 22 de junho, o ex-candidato reafirmou no Twitter que não concordava com "qualquer afirmação" sobre os resultados eleitorais: "Não é minha intenção, como afirmei na época em que reconheci a vitória do doutor @petrogustavo, gerar qualquer dúvida sobre esse resultado, nem contradizer o que o Registro Nacional [entidade eleitoral da Colômbia], afirmou.

A Missão de Observação Eleitoral, MOE, uma ONG colombiana com mais de 2.000 observadores em todo o país, declarou que mantém "comunicação constante com as autoridades eleitorais e civis responsáveis pelo bom desenvolvimento do processo eleitoral, [...] como nas duas campanhas políticas" no dia das eleições, e não concluiu que houvesse qualquer razão para não reconhecer os resultados.

“Não foram apresentados recursos ou reclamações para a recontagem de votos por parte das testemunhas eleitorais em 85% das mesas observadas. Em 96% das mesas observadas teve-se a percepção de que e os presidentes de mesa conheciam o procedimento de contagem dos votos”, foi uma de suas conclusões.

A Missão de Observação Eleitoral da União Européia na Colômbia também reconheceu os totais eleitorais. "Os observadores da MOE UE avaliaram positivamente o trabalho dos presidentes de mesa e verificaram que a abertura, a votação e a contagem foram realizadas de maneira competente, ordenada e transparente. As testemunhas das candidaturas estiveram presentes na maioria das mesas durante o decurso do dia", disse o organismo em um documento compartilhado com a AFP.

O chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, qualificou os resultados das eleições como "inquestionáveis" .

A Organização dos Estados Americanos (OEA) também enviou uma missão durante o período eleitoral na Colômbia, concluída em 21 de junho, e reconheceu: "Os dados divulgados pelo Registro, com os quais coincidiu a pesquisa por amostragem realizada pela Missão, refletem triunfo do binômio formado por Gustavo Petro e Francia Márquez".

A AFP já verificou outras desinformações sobre as eleições presidenciais de 2022 na Colômbia.

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