Os Amantes: Jaloo e Strobo ilustram em álbum a ‘gostosa tragédia agridoce’ do Pará

·4 minuto de leitura
os-amantes008 (Créditos de Maíra Henriques).jpg

Imagina se os Novos Baianos fossem, na verdade, paraenses. E se eles trocassem os violões que rodavam o Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá, por possibilidades de produção contemporâneas, como samples, sintetizadores digitais e programações. Ou se o desbunde promovido por Gal Costa no histórico show “Fa-tal: Gal a todo vapor” tivesse como cenário a ilha de Cotijuba, também conhecida como Ilha do Amor, a 22km de Belém. Foi dessas provocações imaginárias e de um ciclo criativo despretensioso que nasceu o projeto Os Amantes, cujo álbum homônimo chegou este mês ao streaming pelo selo Natura Musical.

Os Amantes são a reunião musicalmente apaixonada do cantor, compositor, ator e produtor Jaloo com a dupla instrumental eletrônica Strobo, formada pelo guitarrista Leo Chermont e pelo baterista Arthur Kunz. Um casamento que se consumou em Belém, mas que teve seu primeiro beijo no Rio. Em 2016, Jaloo e Strobo, dois dos nomes de maior destaque da música paraense contemporânea, se reuniram para um show na Fundição Progresso, na versão carioca do festival belenense Se Rasgum.

— Sou muito perfeccionista, então como músico eu achei aquele show tecnicamente ruim, mas a resposta do público foi tão orgânica, a galera queria ver mais, que vimos que tinha algo ali — diz Kunz, produtor de Marina Lima, que também foi impactado pelo lado performer de Jaloo. — Eu e Leo só tocamos, não temos essa coisa de figurino, multimídia. Naquela noite, o Jaloo nos vestiu, nos maquiou, ele fez uma entrada triunfal no palco, subiu nas caixas de som... Quis segurar no rabo daquele foguete.

O disco d’Os Amantes nasce também de uma evolução dos músicos envolvidos no sentido de abrir seus processos criativos para algo mais colaborativo, principalmente Jaloo. Em seu elogiado álbum de estreia, “#1” (2015) — que acabou de ganhar sua primeira prensagem em vinil, com todas as 500 cópias vendidas em menos de 24h —, o paraense de Castanhal fez tudo sozinho (“a gay era louca, só trabalhava sozinha”, brinca). Em “FT” (2019), ele forçou uma abertura radical, fazendo um disco colaborativo que teve Céu,Dona Onete, Lucas Santtana e muito mais. “Os Amantes” acaba sendo um lugar intermediário. Para o Strobo, por sua vez, ter o apoio de vozes e letras de Jaloo diminui a responsabilidade de costurar diferentes camadas e ambientes sonoros numa mesma música.

É leve para todo mundo, garantem os envolvidos, apesar de alguma dramaticidade imposta nos versos das dez faixas.

— O Pará é isso, uma tragédia agridoce gostosa, somos apegados ao drama de uma forma engraçada — justifica Jaloo. — Em nossas carreiras, fazemos sons cosmopolitas, pop, que namoram com a música de vários outros lugares. Mas a gente ama o que é feito no Pará. Os Amantes contam nossa história com o Pará da forma mais explícita, mas sem deixar de inovar.

Essa homenagem é mais evidente do que nunca na carismática faixa “Cotijuba”, que ganhou um clipe de colorido tropical filmado em dezembro na ilha que dá nome à canção. A música também ilustra bem a despretensão do trio ao criar o álbum. Apesar de nascidos, todos, no Pará — Chermont é o único que segue mantendo base por lá —, eles nunca tinham ido à tal Ilha do Amor. Essa coincidência, descoberta num papo informal, acabou inspirando a ode ao estado natal: “Mas quando é que tu vai me levar lá pra Cotijuba?”, “Lá, no meu Pará, tem tanta coisa pra desbravar/ Meu bem, lá em Santarém/ Nem de carro ou trem dá pra chegar”, canta Jaloo na música que mistura um tanto de tropicalismo, lambada e brega.

Antes um EP e previsto para ser lançado no começo de 2020, pré-pandemia, “Os Amantes” foi adiado inicialmente por questões logísticas, depois pandêmicas, e também de saúde mental de Jaloo. O trio soube respeitar o tempo das coisas, o que contribuiu para o resultado final. A dramaticidade agridoce dançante passa por diferentes formas de amar: o perdão, a segunda chance, o amor próprio, o platônico e até o ghosting (em português claro, o famoso “dar um perdido”) em faixas como “Linda”, Bye!” e “Colchão”.

Orgulhosos do resultado e instigados pelas possibilidades que essa nova forma de criar trouxe, os três parecem não querer fazer de Os Amantes um casamento fugaz. Na conversa por Zoom, entre declarações de amor, Kunz avisa a Jaloo que quer dar continuidade à parceria. E ainda tem estrada para rolar.

— Eu quero, sim, continuar fazendo música com os meninos, ainda mais quando pudermos voltar a nos encontrar normalmente — garante Jaloo, que atualmente se dedica a produzir o novo disco da conterrânea Gaby Amarantos. — E queremos fazer shows do disco, tocar “Cotijuba” para um público que já vai conhecer a letra...

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos