Os capítulos da passagem conturbada de Regina Duarte pela Secretaria de Cultura

Jan Niklas, Gustavo Maia e Danilo Thomaz
Com Michelle Bolsonaro ao fundo, Regina Duarte fala com o presidente no dia de sua posse na secretaria, em março

Foi sem destaque o final da Namoradinha do Brasil na Secretaria Especial da Cultura. Ontem, o presidente Jair Bolsonaro informou que o papel de Regina Duarte na pasta havia se encerrado, apenas dois meses e meio após o início da trama, que de novela acabou virando uma minissérie. Agora, a atriz vai atuar na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, administrada pelo governo Federal e classificada por ela como “um presente”. A instituição enfrenta uma crise, com salários atrasados e acervo ameaçado. Veja abaixo como foram os capítulos do curto período de Regina pela pasta.

Começo pouco promissor

A primeira saia-justa da atriz no governo veio já na cerimônia de posse, no dia 4 de março. Ao discursar, ela tentou arrancar do presidente uma confirmação de que teria autonomia para trabalhar, como ele lhe prometera ao chamá-la para o cargo. Porém,acabou ouvindo do chefe que a tal “carta branca” prometida para montar sua equipe não seria bem do jeito que ela imaginava.

O caso Mantovani

Logo na sequência, Regina já virou alvo de militantes bolsonaristas nas redes sociais, após demitir uma série de nomeados por Roberto Alvim, exonerado por plagiar um discurso do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Entre os afastados pela atriz estavam integrantes da ala ideológica do governo seguidores do escritor Olavo de Carvalho. Um deles o maestro Dante Mantovani, então presidente da Funarte.

Em uma das últimas crises de Regina no governo, no início de maio. Mantovani foi renomeado para o cargo, pegando a secretária de supresa. Porém, a nomeação foi cancelada pelo presidente Bolsonaro no mesmo dia.

Ainda assim, desde que afastou Mantovani e outros olavistas em sua posse, a atriz passou a sofrer sucessivos ataques públicos em redes sociais e começou a ser minada dentro do governo. A perseguição a levou a afirmar, em sua primeira entrevista como secretária especial da Cultura, que tinha virado alvo de “uma facção” que queria ocupar seu lugar no governo. Falando ao “Fantástico”, da TV Globo, no dia 8 de março, ela disse esses grupos estavam fazendo pressão por sua demissão.

As declarações repercutiram como uma bomba entre integrantes do governo. O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, comentou o caso afirmando que "são seus ministros e secretários que devem se moldar aos princípios publicamente defendidos por Bolsonaro, não o contrário".

Choque com presidente da Palmares

Na mesma entrevista dada ao "Fantástico", Regina se referiu ao presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, como "um problema". Ele havia sido afastado do cargo pela Justiça por suas declarações negando a existência de racismo, defendendo que a escravidão foi benéfica e pedindo o fim do movimento negro. A Advocacia Geral da União recorreu da decisão, e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acabou derrubando a liminar que impedia a nomeação. Com o apoio de Bolsonaro, Camargo voltou ao cargo.

Regina havia pedido sua exoneração, porém o governo optou por mantê-lo na entidade que é vinculada à Secretaria Especial da Cultura. O episódio iniciou uma série de ataques públcos de Camargo desafiando sua superior.

Chá de cadeira de Paulo Guedes

Desde o início da paralisação da Cultura por causa do coronavírus, Regina recebeu uma enxurrada de demandas da classe artística para amenizar a crise econômica do setor. Ainda em março, ela pediu para ser recebida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para apresentar as necessidades do segmento cultural. Porém, nunca chegou a ser recebida por ele.

Rompimento de aliados

Tradicional defensor do governo e cotado para integrar a equipe da Secretaria Especial da Cultura, o ator Carlos Vereza não apoia mais Jair Bolsonaro. Ele era cotado para asumir um cargo na equipe de Regina. O rompimento ocorreu após o presidente demitir o ministro Luiz Henrique Mandetta da Saúde, em meio à pandemia do novo coronavírus. Em um publicação na internet, Vereza resumiu seu sentimento em relação ao governo "não dá mais: tirei o time".

Diretor demitido após campanha difamatória

Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de Londres, o psicólogo e historiador Aquiles Brayner teve sua nomeação para o cargo de diretor do Departamento de Livro, Literatura e Bibliotecas anulada três dias após ter sido feita. Apesar de ter trabalhado no gabinete pessoal do presidente Jair Bolsonaro anteriormente, sua nomeação na Cultura deu início a uma campanha difamatória movida por perfis bolsonaristas. Brayner foi alvo de ataques homofóbicos e acusações de que seria um “esquedista infiltrado” no governo.

Limbo entre dois ministérios

Desde que assumiu a secretaria, Regina se viu em condições adversas para tocar seu plano de gestão. A pasta da Cultura segue com sua operação dividida entre os ministérios da Cidadania e do Turismo, apesar de ter sido transferida para este último em novembro do ano passado. Com a divisão entre as duas estruturas, a tramitação dos projetos de Regina precisam passar por todas etapas burocráticas dos dois ministérios. A divisão resultou na perda total de autonomia da secretária, que não assinou nenhum despacho desde que foi empossada.

Recado de Bolsonaro

No início de maio, o presidente Jair Bolsonaro reclamou da ausência da secretária em Brasília. Em entrevista na porta do Palácio da Alvorada, ele afirmou ainda que ela tem tido problemas em lidar com questões que desagradam ao governo dentro da pasta

— (A Secretaria tem) muita gente de esquerda pregando ideologia de gênero, essas coisas todas que a sociedade, a massa da população não admite. E ela tem dificuldade nesse sentido — justificou.

‘Eu acho que ele está me dispensando’

Após a surpresa da renomeação de Dante Mantovani no início de amio, áudio registrado pela revista "Crusóe" trouxe um diálogo entre Regina e uma assessora não identificada, no qual a atriz conta que achava que estava sendo dispensada e que Edir Macedo já teria indicado seu substituto. O "Jornal Nacional" reproduziu o áudio e procurou o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, que negou a indicação.

‘Chilique’ em entrevista

Uma das últimas aparições de Regina antes de sua saída do governo foi numa conturbada entrevista à CNN Brasil. A atriz deu declarações minimizando a censura e a tortura durante a ditadura, relativizou o impacto do coronavírus e defendeu que não era seu papel homenagear artistas mortos durante a pandemia.

Após entrevista: Anitta cobra Regina Duarte no Instagram: 'Seríamos os primeiros censurados caso esse regime voltasse ao Brasil'

Além disso, encerrou a entrevista em meio a um bate-boca: ela ficou irritada quando jornalistas da emissora pediram que ouvisse e comentasse um vídeo enviado à produção por Maitê Proença, no qual a atriz questionava seu silêncio diante do falecimento recente de colegas, citando Moraes Moreira e Aldir Blanc. Após a entrevista, foi divulgado um manifesto com assinaturas de 512 artistas contra as declarações da atriz.

Número 2 exonerado

O advogado Pedro Horta, um dos poucos nomes que Regina Duarte conseguiu emplacar na secretaria especial da Cultura, foi exonerado do cargo de secretário especial adjunto na semana passada. Nomeado no fim de abril para o segundo posto da hierarquia da pasta comanda por Regina, Horta estava há pouco mais de duas semanas no cargo. Antes, ele atuava como chefe de gabinete da atriz no órgão.

Ex-assessor de Carlos Bolsonaro na Funarte

Contrariando os planos de Regina de indicar o produtor Humberto Braga para a Funarte, o governo nomeou ex-assessor do vereador Carlos Bolsonaro para a diretoria executiva da fundação. Luciano da Silva Barbosa Querido já havia sido indicado para um cargo comissionado do órgão no início de abril. Como a Funarte segue sem presidência definida, Querido ocupa a presidência interina do órgão atualmente.

O flerte do governo com Mario Frias

O capítulo final veio nesta semana, quando o presidente Bolsonaro compartilhou em redes sociais entrevista do ator Mario Frias à CNN Brasil, em que o ex-expoente de "Malhação" elogiava Regina, mas dizia que receberia com entusiasmo um convite para assumir a Cultura. A postagem esquentou o clima de fritura da atriz em Brasília. E, em vez de minimizar o constrangimento causado a ela, o presidente ainda o aumentou, recebendo Frias para um almoço ontem.

Último capítulo: vídeo no Palácio da Alvorada

Na gravação do último capítulo de Regina na secretaria, feita diante do Palácio da Alvorada ontem de manhã, ao lado de Bolsonaro, ela começa brincando que foi à residência oficial perguntar ao presidente se ele a estava “fritando”. A atriz foi ao local acompanhada da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), sua amiga.

“Porque eu tô lendo isso numa imprensa em que eu não acredito mais, mas de qualquer forma queria que ele me dissesse pessoalmente: tá me fritando, presidente?”, questionou a atriz, sorrindo.

“Regina, toda semana, tem um ou dois ministros que, segundo a mídia, estão sendo fritados. O objetivo é sempre desestabilizar a gente e tentar jogar o governo no chão. Não vão conseguir. Jamais eu ia fritar você”, respondeu o presidente, também dando risada.

A atriz disse em seguida que acabara de ganhar um “presente”, que “é um sonho de qualquer pessoa de comunicação, de audiovisual, de cinema, de teatro”:

“Um convite para fazer Cinemateca, que é um braço da Cultura, que funciona lá em São Paulo, e é um museu de toda a filmografia brasileira. Ficar ali secretariando o governo, dentro da Cultura, na Cinemateca. Pode ter um presente melhor que esse? Obrigada, presidente!”.

Bolsonaro, então, diz achar que Regina quer ajudar o Brasil e que o que ele mais deseja é o bem da secretária, por seu passado e por aquilo que ela representa para “todos nós”. Nesse momento, o vídeo é editado e o presidente aparece dizendo que a ida da atriz para a Cinemateca, do lado do seu apartamento, na capital paulista, vai fazê-la produzir muito mais, o que lhe deixa “muito feliz”, mas ao mesmo tempo “chateado”, pelo afastamento do seu convívio em Brasília.

“Mas presidente, a família está querendo a minha proximidade, eu estou sentindo muita falta dos meus netos, dos meus filhos, da minha família, que é uma coisa à qual eu sempre fui muito ligada. Então é um presente duplo: é a Cinemateca e é também eu estar próxima da minha família, que é uma coisa que eu estou desejando muito, estou sentindo muita falta”, declarou a ex-secretária.

O presidente Jair Bolsonaro encerra a conversa cobrando dela o compromisso de estar ao seu lado todas as vezes que ele for a São Paulo, sendo abraçado pela atriz. Apesar de alegar que está com saudades de sua família na capital paulista, Regina estava trabalhando de lá durante a pandemia, segundo sua equipe. Ela se reunia com os servidores via videoconferência.

No fim de abril, Bolsonaro chegou a cobrá-la publicamente. Disse que a secretária estava em São Paulo, e ele desejava que ela estivesse “mais próxima”. Depois do puxão de orelha público, ela retornou à capital federal por um breve período.