Os cinco maiores mitos do voto hispânico nos EUA

Laura BONILLA e Ariela NAVARRO em Washington
·4 minuto de leitura
O democrata Joe Biden chega em um evento para celebrar o Mês da Herança Hispânica no Osceola Heritage Park em Kissimmee, Flórida

Os cinco maiores mitos do voto hispânico nos EUA

O democrata Joe Biden chega em um evento para celebrar o Mês da Herança Hispânica no Osceola Heritage Park em Kissimmee, Flórida

Existe realmente essa criatura esquiva chamada "o voto latino"? É certo que os latinos votam em democratas? E que seu voto não pode decidir uma eleição presidencial nos Estados Unidos?

Vários especialistas consultados pela AFP derrubam os cinco maiores mitos sobre o voto da população hispânica nos Estados Unidos, a maior minoria do país.

- 1. Existe um "voto latino" -

O maior mito "é que exite um voto monolítico. E acredito que essa eleição ajudou a derrubá-lo", disse à AFP Matt Barreto, co-fundador do instituto de pesquisa Latino Decisions, que trabalhou em pesquisas com a campanha do presidente eleito Joe Biden.

A comunidade hispânica é "muito diversa" e contém de "americanos de origem mexicana, cuja história remete, como é o meu caso, a centenas de anos" até "imigrantes recentes da América Central", porto-riquenhos ou cubanos com uma história muito distinta, destacou por sua vez a conservadora Linda Chávez, a primeira mulher hispânica a integrar um gabinete nos EUA, durante o governo de Ronald Reagan.

Os hispânicos não escolhem em quem votar necessariamente segundo sua origem, mas também segundo sua fé, renda ou idade. Os republicanos, por exemplo, atraem veteranos de guerra e evangélicos hispânicos, não só cubano-americanos, destacou Barreto.

"Podemos dizer que há um bloco de eleitores" hispânicos, avaliou Christine Marie Sierra, professora de ciência política da Universidade de Novo México. Mas na verdade, "há vários blocos dentro dessa população".

- 2. Os latinos votam em democratas -

Sim, a maioria. Mas não todos.

Cerca de 70% dos hispânicos votaram em Biden, segundo estimativas (ainda não há números definitivos), mas em alguns condados votaram em massa em Trump, como em Miami-Dade, Flórida, e em uma área do Vale do Rio Grande, no Texas, na fronteira com o México.

"A imprensa passou anos divulgando mitos sobre os eleitores hispânicos, quando a realidade é que as políticas do presidente Trump são populares nessas comunidades", disse Giancarlo Sopo, que colaborou com a campanha do republicano.

Sierra lembrou, no entanto, que Trump não se saiu melhor com os latinos agora do que há quatro anos.

"Ele se saiu melhor com uma porção específica da população latina na Flórida. Mas (em nível nacional) terminou no mesmo lugar que os candidatos republicanos em eleições anteriores", indicou.

Reagan obteve 37% do voto latino em 1984 e George W. Bush chegou a alcançar um recorde de 40% em 2004. Trump conseguiu 28% em 2016 e um número semelhante este ano, segundo as estimativas.

"Seu teto é de 30%", disse Albert Morales, diretor de política da Latino Decisions. A virada "mais à direita, extremista e anti-imigrante dos republicanos têm consequências", apontou.

- 3. Os latinos não vão às urnas -

A abstenção dos latinos é historicamente alta. Geralmente menos da metade dos eleitores habilitados vai às urnas. 

Mas tudo aponta para "um recorde, um imenso" voto hispânico este ano, tanto antecipadamente quanto no dia da eleição, disse Barreto.

Cerca de 32 milhões estavam habilitados para votar. As estimativas apontam que entre 17 e 20 milhões votaram, mais que o previsto, segundo Morales, embora os números definitivos levarão meses para chegar.

- 4. O voto dos latinos não é decisivo -

O voto dos hispânicos deu a Biden uma margem que lhe concedeu a vitória em pelo menos quatro estados-chave: Arizona, Wisconsin e Pensilvânia, que foram "vermelhos" em 2016 mas se tornaram "azuis" nas eleições deste ano, além de Nevada, de acordo com os especialistas da Latino Decisions.

Morales acredita que nas presidenciais de 2024, o Texas será o palco da "guerra de todas as guerras", já que haverá mais de seis milhões de hispânicos habilitados para votar, apesar de cerca de três milhões não estarem registrados, portanto não são contatados por nenhuma campanha.

Biden perdeu no Texas mas por uma margem muito menor que Hillary Clinton em 2016, graças ao voto hispânico nas grandes cidades.

- 5. A imigração é a questão que mais preocupa os latinos -

É uma delas, mas não a única e nem a principal.

Interessa mais na fronteira com o México e os eleitores com familiares sem documentos, mas menos os hispânicos de terceira geração, ou os porto-riquenhos que são americanos, segundo os analistas.

"A imigração ainda importa (...), mas a isso soma-se a (gestão do) vírus, a economia e o acesso à saúde", concluiu Sierra.

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