Os curiosos casos de alucinações visuais em pessoas que perdem a visão

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Neurologista Oliver Sacks, um homem branco e calvo sentado em uma poltrona verde. Ele  tem barba, bigode e cabelos brancos
Oliver Sacks, neurologista, documentou e investigou muitos desses casos e procurou esclarecer a sociedade e tranquilizar os pacientes sobre este fenômeno das alucinações (Foto: Reprodução/TED)

Descrição da imagem: Neurologista Oliver Sacks durante apresentação no TED. Sacks é um homem branco, calvo, com barba, bigode e cabelos brancos. Ele usa óculos de grau, camisa azul clara e calça marrom. Sacks está sentado em uma poltrona verde.

Imagine que você enxerga, mas por algum motivo perde a visão. Mesmo assim, você passa a ver formas geométricas, cores, luzes, objetos ou até cenas extremamente reais. Esse fenômeno é mais comum do que imaginamos - mas é mal diagnosticado e investigado pela medicina. Chama-se Síndrome de Charles Bonnet.

Essas alucinações visuais nada tem a ver com questões psiquiátricas. Elas são, na verdade, uma reação do cérebro à perda da visão para compensar a falta de estímulos externos. Pode acontecer com a perda total ou parcial da visão.

O curioso é que essas visões são marcadas pela ausência de interação. Ou seja: é como se você tivesse vendo um filme. “não têm sons, nem odores, nem sensações táteis. São remotas, como imagens na tela de um cinema em que se entrou por acaso”, diz o neurologista e escritor Oliver Sacks, no seu livro “A mente assombrada”, que, apesar do título em português, nada tem de sobrenatural.

Oliver documentou e investigou muitos desses casos e procurou esclarecer a sociedade e tranquilizar os pacientes sobre este fenômeno. Uma das principais características da síndrome de Charles Bonnet é que as alucinações quase nunca levam a falsas ideias ou ilusões persistentes. A pessoa que tem essas visões logo percebe que elas não são reais.

Essas visões podem surgir e desaparecer instantaneamente. Apesar da síndrome ser predominante em idosos a partir dos 60 anos, também pode acontecer com pessoas com diferentes idades, de acordo com artigo de Camila Machado e Frederico Figueiroa, publicado na Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria.

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As alucinações visuais simples são compostas de imagens abstratas, flashes de luz, linhas e formas geométricas. Já as alucinações visuais complexas são compostas de imagens mais elaboradas, como de pessoas, animais, plantas ou objetos. Elas podem ser distorcidas ou bem reais. E dependem, claro, das imagens que a pessoa conheceu quando enxergava perfeitamente.

Apesar de ser cego de um olho e enxergar só vultos, cores e luz com o outro, eu nunca experimentei esse fenômeno. Mas tenho amigos que se divertem por verem luzes ou cores com frequência, mesmo que eles não enxerguem mais absolutamente nada.

E, de acordo com o neurologista Oliver Sacks, realmente a maioria dos casos provavelmente permanece nesse nível de padrões, formas ou cores simples.

E olha que interessante: O neurologista diz que cerca de 10% das pessoas com perda auditiva apresentam alucinações musicais. E cerca de 10% das pessoas com perda visual têm alucinações visuais.

Mas, é claro, existem os casos mais graves, com alucinações visuais mais persistentes e que podem até confundir por alguns instantes as pessoas que vivenciam o fenômeno. Nessa apresentação sobre síndrome de Charles Bonnet, Oliver conta uma série de casos em que atuou enquanto médico. Vale a pena assistir para se aprofundar na temática.

Mas por que síndrome de Charles Bonnet? O nome é uma homenagem ao filósofo suíço que descobriu essa condição, no século XVIII. O avô dele, Charles Lullin, passou a ter essas alucinações. E Charles Bonnnet, posteriormente, também, à medida que experimentava deterioração da sua visão.

A verdade é que a síndrome é pouco estudada e diagnosticada. De acordo com o artigo de Camila Machado e Frederico Figueiroa, não existe consenso sobre a terapia medicamentosa na literatura científica, mas os autores afirmam que o esclarecimento sobre o fenômeno reduziu o incômodo causado pelas alucinações nos pacientes e, assim, a terapia medicamentosa foi dispensada.

É por este motivo que devemos divulgar essas informações. Para que chegue em oftalmologistas, profissionais da saúde e pessoas com perda parcial ou total da visão, que sentem vergonha de relatar esses acontecimentos para seus médicos ou outras pessoas. Para saber mais: leia o capítulo “Multidões Silenciosas: a síndrome de Charles Bonnet”, do livro de Oliver Sacks.

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