Os desafios de Henrique Meirelles

Cassiano Rosário/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

O ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, foi oficializado na terça-feira (22) como o pré-candidato do MDB à Presidência da República. A nomeação se deu após o presidente Michel Temer e seu círculo íntimo perceberem a inviabilidade de sua candidatura diante da atual conjuntura política e judicial. Para Meirelles, a eventual disputa pelo Palácio do Planalto parece ser a realização de uma aspiração antiga, mas é custoso crer que seu nome tenha alguma chance real.

Meirelles está levando a sério a possibilidade de concorrer. Ainda na tarde de terça, recebeu em sua casa o jornalista Gerson Camarotti, da GloboNews, para dar uma pequena entrevista exclusiva a respeito da disputa. No dia seguinte, divulgou um bem produzido vídeo de campanha – a peça, fica evidente, estava pronta antes de seu nome ser anunciado.

Não é surpresa que o ex-ministro esteja investindo em sua imagem. Nas eleições de 2002, foi o deputado federal mais votado em Goiás (pelo PSDB) após gastar quase um milhão de reais em uma campanha cara, que tinha equipe de televisão própria. Há meses, colunas de bastidores indicam o ímpeto de Meirelles pela candidatura, o que o fez, inclusive, trocar o PSD pelo MDB.

O vídeo indica para onde Meirelles deseja caminhar. Ele quer se colocar como um “salvador da pátria”, não na linha de Jair Bolsonaro (PSL), cujos focos são a segurança pública e a corrupção, mas na seara econômica. O vídeo apresenta Meirelles como “esse cara” e indica que ele é um resolvedor de problemas na economia. “Se tinha alguma crise econômica, lá estava o Meirelles para encontrar a solução”, afirma o narrador.

Luiz Inácio Lula da Silva, que convidou Meirelles para comandar o Banco Central em 2002, não é citado – é somente o “presidente da época”, que convidou o ministro para resgatar a economia na conturbada transição entre Fernando Henrique Cardoso e a era petista. Temer, que colocou Meirelles na Fazenda em 2016, também não aparece na propaganda. O ex-ministro, por sua vez, surge sorridente e convocado “para tirar o país da lama” após a crise legada pelo processo de impeachment.

Duas realidades se impõem contra Meirelles. A primeira é a de seu partido. O MDB não é um partido comum. É o exemplo máximo do comportamento comum das agremiações políticas no Brasil: não tem uma ideologia definida, é formado por uma constelação de caciques preocupados exclusivamente com suas agendas eleitorais particulares e pode governar com qualquer um dos lados, esquerda ou direita – a adesão depende de quais benefícios os líderes da sigla podem receber. PP, PR, PSD e outros partidos são projetos de MDB – atuam da mesma forma, mas como são menores, têm um poder de barganha inferior.

Por conta desta natureza fisiológica, o MDB foi até aqui incapaz de se aglutinar ao redor de um único nome nas eleições presidenciais. Ulysses Guimarães, em 1989, e Orestes Quércia, em 1994, sofreram com isso – foram abandonados pelo partido em meio à disputa pelo Planalto.

Mostras de que nova fritura pode se repetir foram dadas de imediato. Três senadores do partido – Roberto Requião (PR), Eunício Oliveira (CE) e Renan Calheiros (AL) – atacaram o ex-ministro. O primeiro lançou sua candidatura contra Meirelles. O segundo disse que só anunciaria apoio a candidato ao Planalto após consultar sua coligação, que deve reunir PT e PDT.

Renan foi o mais assertivo. “A candidatura do Meirelles vai rebaixar o PMDB em todos os estados”, disse o alagoano no Senado. “Essa pré-candidatura não vai passar do pré, pelas maldades que ao longo desses meses eles têm conseguido fazer com o povo brasileiro”, afirmou.

Os comentários de Renan levam à outra realidade contrária a Meirelles. Certamente o ex-ministro está convicto de que fez o certo pelo país em sua gestão na Fazenda, mas o fato é que o governo Temer é odiado pela população.

Segundo a pesquisa CNT/MDA de maio, 71,2% avaliam o governo de maneira negativa, enquanto 82,5% desaprovam a atuação de Temer. O presidente, que é cabo eleitoral de Meirelles, é o pior dos cabos eleitorais da política brasileira – de acordo com o Datafolha, 86% dos eleitores não votariam no indicado de Temer de jeito nenhum.

Na eleição, Temer e Meirelles serão inseparáveis. Ainda que o primeiro seja ignorado na campanha, sua sombra se fará presente, seja pela ação dos outros postulantes ou pela memória da população.

Relata a Folha de S.Paulo que, na quinta-feira (24), Meirelles foi cobrado por prefeitos e vereadores em um evento em Brasília a respeito da greve de caminhoneiros que desde o início da semana coloca o governo nas cordas. O motivo do protesto é a série de aumentos sequenciais no preço dos combustíveis provocada pela mudança na atuação da Petrobras – com Dilma Rousseff, a estatal controlava os preços e, com Temer-Meirelles, não interfere na flutuação dos valores, vulnerável por conta da volatilidade do petróleo. “Tem de se preservar a Petrobras. Ela não pode pagar o preço de aumento do petróleo. A função dela é extrair e distribuir. Ela não tem a função de bancar custo de petróleo”.

É um raciocínio puramente econômico, que não parece levar em conta o resultado da política em seu destino final, o cidadão. É provavelmente esse tipo de postura que faz Renan Calheiros temer o ex-ministro como nome de seu partido em uma eleição.

Ao longo dos últimos anos, Meirelles se acostumou a ser uma espécie de sumidade na economia. O ex-ministro nunca precisou se preocupar, no entanto, com o impacto político de suas medidas econômicas – isso sempre ficou a cargo de outros. Agora, ele terá de se habituar a outra realidade: os agentes do mercado e os editorialistas podem elogiá-lo o quanto quiserem, mas é o eleitor que decidirá a disputa.