'Os microplásticos estão em todos os lugares, e nos afetam', diz cientista

Alice Cravo
Jennifer Brandon, Cientista Sênior em Ciências Aplicadas ao Oceano

RIO — Anualmente, 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos, a maioria proveniente de embalagens, como pacotes de biscoitos e garrafas. Com a decomposição natural, muitos reduzem de tamanho, chegando a medir menos de 5mm.

Esses são os chamados microplásticos, e representam um grande desafio para a preservação do meio ambiente.

Eles podem vir não só de pedaços maiores de plástico mas também de fibras de roupas, dos cosméticos e até mesmo da pasta de dente.

Além de não serem visíveis a olho nu, seus efeitos —como a intoxicação da cadeia alimentar— são observados a longo prazo, dificultando a conscientização sobre o perigo que representam para os ecossistemas.

De passagem pelo Brasil para uma série de palestras, a PhD em microplásticos pela Universidade da Califórnia Jennifer Brandon conversou com O Globo sobre os impactos do microplástico, o desafio que representam para os ecossistemas e o crescimento da sua presença no registro fóssil.

O que são os microplásticos?

Microplástico é uma definição baseada no tamanho, isso significa que são plásticos menores que 5mm. Eles aparecem por diversos caminhos. O primeiro deles é o pedaço maior de plástico, que vai sendo quebrado ao longo do tempo pelo sol e pelo sal da água marinha, por exemplo.

O segundo caminho são as microfibras, que saem da roupa desgastada ou durante as lavagens. Como são muito pequenas, elas saem da máquina de lavar junto com a água, vão para os canos e, por conta do seu tamanho, não conseguem ser filtradas pelo sistema de tratamento e acabam indo para o oceano.

Tem também o que chamamos de “microesferas”, que são plásticos muito pequenos que existem nas pastas de dentes e em outros cosméticos. Há, também, a composição do plástico, que vem das fábricas de brinquedos, de garrafas, que se perdem no meio da produção.

Qual seria a solução paraele então?

Ele vem de todos os lugares, mas basicamente vem do solo e das águas residuais. Uma das soluções seria o processamento dessa água para que a gente consega reter mais plásticos na fonte, antes que eles cheguem no oceano. Principalmente, reter esse lixo antes que ele chegue no mar e se fragmente. Então, é interromper na fonte, onde ele é gerado.

O que a presença desse microplástico no meio ambiente significa?

Eles são muitos pequenos, então afetam animais muito pequenos. Isso significa que os animais que estão na camada mais baixa da cadeia alimentar são diretamente afetados. Esses animais, que ingerem essas pequenas partículas de plástico, vão ser comidos por um peixe maior, que come dez desses pequenos peixes de uma vez só. E assim por diante, criando uma cadeia acumulada de microplástico.

Quais são os efeitos a médio e a longo prazo? Vai chegar num ponto em que não vai mais ser seguro entrar no mar?

Não acho que vá afetar a possibilidade da gente ir ao mar. Acredito que vai afetar que tipo de peixe vamos poder comer. Normalmente, comemos peixes que estão no topo da cadeia alimentar, peixes grandes, como atum. Como o microplástico vai se acumulando na cadeia alimentar (quanto mais alto na cadeia, mais plástico ingerido) algum dia, talvez, teremos que alertar as pessoas sobre qual peixe eles vão poder comer. Mas ainda não estamos nesse ponto.

E quanto tempo levaria para chegarmos nesse ponto?

Não sabemos exatamente. Temos que estudar cada animal de forma separada, porque alguns provam o plástico e o eliminam do organismo. Outros comem e parecem não notar que é plástico, e tem animal que come e até gosta mais do que da comida normal. Então não temos noção de como está entrando na cadeia alimentar, parece afetar cada animal de forma particular.

E quais são os impactos para nossa saúde?

A gente não sabe todos os efeitos ainda, mas sabemos que alguns químicos presentes no plástico afetam a nossa saúde, por exemplo, os hormônios e os rins.

A presença do microplástico é tão intensa que já se escuta sobre a 'era do microplástico', como tivemos a do bronze e do metal. O que isso significa?

Eles estão em todos os lugares, achamos eles em rios, no solo, no vento, nas nuvens, na neve, na água que bebemos, então está nos afetando de todas as maneiras. É possível ver microplásticos nos nossos sedimentos, estamos deixando esses microplásticos para trás como se fosse um registro fóssil.

Se ele está presente em todo o ecossistema, por que focamos tanto na discussão sobre o mar?

Eles estão invadindo todo o ecossistema e não só o oceano. Acho que as pessoas pensam mais nos microplásticos nos oceanos porque começamos a procurar por eles ali. Foi onde as pesquisas começaram. E o meio do oceano era o último lugar no qual as pessoas esperavam encontrar plásticos. Mas agora estamos vendo que eles estão em todas as partes.

Como indivíduos, qual é a nossa participação na produção desses microplásticos? Qual é a nossa contribuição para a situação ter chegado no ponto que chegou?

A maior porção de plástico vem do uso único e das embalagens. Como indivíduos, temos um papel a cumprir, temos que pensar no que compramos, nas companhias que apoiamos, nas escolhas que fazemos no supermercado, nos restaurantes. Mesmo que cada um represente uma parte pequena, cada vez que escolhemos uma empresa que usa menos plásticos estamos ajudando e falando para as empresas o que queremos delas.

Você acha que é possível ter uma vida sem plástico? Isso não sairia mais caro em algumas situações?

Eu não acho que vamos conseguir nos livrar completamente do plástico. Acho que precisamos dele em locais como os hospitais, que precisam das luvas plásticas por exemplo. Mas precisamos nos livrar dos plásticos de uso único. Alguns mercados e restaurantes usam muitos talheres, pratos e sacolas de plástico, e não precisamos disso. Vamos voltar para o que usávamos antes. Teria um custo de início, mas estudos mostram que, em um ou dois anos, você começa a economizar dinheiro com menos pacotes, mais talheres de metal, então não custa muito.

Quem são os maiores produtores de micoplástico do mundo?

A gente sabe quais países produzem a maior quantidade de detrito, mas eu não gosto de pensar dessa forma porque somos uma economia global. Os resíduos de um país contribuem para os resíduos de outros países. Eu gosto de pensar nas empresas. Normalmente são as empresas que tem garrafas plásticas ou esses pacotinhos de batata e outros snacks.

Mas você pode falar sobre a participação do Brasil no cenário da produção e da política de combate aos microplásticos?

Fiquei surpresa em ouvir sobre as leis do Rio em relação aos canudos e sacos plásticos nos mercados. Definitivamente, isso é importante e é uma coisa que tem sido feita pelo mundo. O Brasil ocupa uma posição baixa na lista dos maiores produtores de plásticos, mas o Rio Amazonas está bem alto na lista de rios poluídos, então ainda tem um longo caminho sobre a geração de detritos. Muito disso advém da infraestrutura, o que é feito com esses resíduos.

Então, aqui no Brasil, o caminho seria espalhar essa política do Rio e a conscientização individual do consumo de plástico?

Muitas vezes essas políticas são adotadas dessa forma, cidade por cidade, estado por estado. Especialmente em países com o tamanho do Brasil, você tem que ir adotando paulatinamente, uma cidade, depois um estado. E foi assim que vimos as coisas funcionarem em outros lugares, a não ser quando é um país muito pequeno.

É uma mudança muito brusca no estilo de vida.

Sim. E em muitos lugares eu vi que uma mudança que começa devagar, pequena, em algum momento ganha um impulso que faz com que as pessoas comecem a adotar essas práticas.

Quanto de microplástico é produzido por ano e quanto chega no meio ambiente?

Oito milhões de toneladas de plástico chegam no oceano por ano, mas nem tudo é microplástico. Parte disso é plástico grande. E esses plásticos maiores vão ser fragmentados e se transformarão em microplástico. Então...

Microplástico é o plástico em decomposição, então ele está há muito tempo causando um impacto. As pessoas também não conseguem ver os prejuízos que eles causam, nem enxergar essa substância. Você acha que isso dificulta a conscientização?

Sim, é mais difícil. O plástico grande é visível e também afeta mais animais grandes, como tartaruga, golfinhos, passarinhos. São os animais de que as pessoas gostam e que a gente consegue ver que eles ficam amarrados em plásticos, aquelas imagens chocantes. O microplástico vai adoecendo esses animais aos poucos. Vão causar problemas no estômago, por exemplo. É algo menos visível e um processo mais lento. Então é menos óbvio. É mais difícil de limpar o microplástico também. Não é como uma garrafa que você só precisa tirar dali. A conscientização é mais complicada.

Durante os anos de estudo, quais são as principais conclusões?

Primeiro, que o microplástico é menor ainda do que a gente pensava e vai ficando cada vez menor. E essa pequena partícula de plástico pode entrar no plâncton, que ocupa o lugar mais baixo da cadeia, além de invadir o nosso registro sedimentar, o fóssil.