'Os novos governos de esquerda serão mais fracos', diz Levitsky ao GLOBO

A América Latina não vive uma nova onda esquerdista, ou rosa, como alguns a chamam, apenas eleições que refletem o descontentamento social com os que governam, como acontece em muitas outras regiões do mundo. Essa é a avaliação de Steven Levitsky, professor de Harvard e coautor do livro "Como morrem as democracias", que observa com ceticismo os anúncios sobre novas articulações entre governos de esquerda que estão assumindo o poder.

Em entrevista ao GLOBO, Levitsky assegurou que os governos de Gustavo Petro, na Colômbia, e Gabriel Boric, no Chile, serão "mais fracos. Não veremos revoluções nem nada disso, nada de socialismo do século XXI".

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A vitória de Petro na Colômbia foi interpretada por alguns analistas como o fortalecimento de uma nova onda de esquerda na região. Qual é sua leitura sobre o atual momento?

Acho um exagero falar em nova onda de esquerda na América Latina. O que estamos vendo, na região e no mundo, é uma onda contra os que governam. Existe descontentamento em muitos lugares, e, em geral, os partidos que governam estão perdendo. No México, a eleição de Andrés Manuel López Obrador foi por um voto anti status quo. A mesma coisa vimos no Chile [na eleição de Gabriel Boric], na Argentina em 2019 [na eleição de Alberto Fernández] e, sem dúvida, na Colômbia agora. Em países como Venezuela e Nicarágua isso não acontece porque nesses países não são realizadas eleições competitivas.

Que diferenças o senhor vê entre estes novos governos de esquerda e os que governaram países da região no começo do século?

Bom, primeiro acho que não podemos colocar na mesma categoria presidentes como López Obrador, no México, [Pedro] Castillo [Peru] e Boric. Dito isto, uma grande diferença que vejo é que os governos atuais não terão os mesmos recursos que os que governaram antes. A situação econômica é bem diferente e difícil, em quase todos os países da região, apesar do aumento do preço do petróleo. A Venezuela não tem hoje os mesmos recursos que teve Chávez. Nenhum dos presidentes atuais terá os recursos que rendeu o boom das commodities, que favoreceu Lula, [Hugo] Chávez, [Rafael] Correa [Equador], [Evo] Morales [Bolívia]. Os de hoje são tempos difíceis, e por isso estes presidentes não terão o apoio popular que tiveram Chávez, Morales e Correa.

São presidentes mais frágeis?

López Obrador é um caso excepcional, porque continua tendo um nível elevado de apoio depois de governar quatro anos, e governar mal. Com exceção dele, os demais governos de esquerda não terão condições econômicas e políticas para construir uma ampla coalizão de apoio, como tiveram Chávez, Morales, Correa, Lula, [Michelle] Bachelet [Chile]. São governos mais fracos. Não veremos revoluções nem nada disso, nada de socialismo do século XXI. O chavismo continua no poder, mas poucos esquerdistas na América Latina querem reproduzir em seu país o que aconteceu na Venezuela, ninguém quer isso.

Em termos de agenda, que diferenças o senhor vê entre esses dois momentos da esquerda no poder?

Na Colômbia, Chile, vemos uma esquerda mais progressista e liberal no sentido social. Mais feminista, ecológica, defensora dos direitos LGBT, essa nova esquerda é verde, social, em termos de valores e culturais, menos tradicional.

A defesa das minorias entrou na agenda.

Vimos um pouco disso em governos do PT, e se Lula voltar acredito que veremos isso no Brasil. Essa esquerda mais verde quase ganhou no Equador, com um candidato indígena. Surgiu com força uma defesa de grupos que até agora estavam marginalizados.

O fato de que sejam governos mais fracos representa um risco para a democracia desses países?

O perigo para as esquerdas governantes, e para a democracia, é que não consigam governar bem. Que ninguém consiga atender as demandas sociais, num clima em que o descontentamento é muito alto. E isso vale para governos de esquerda, centro e direita. Todos decepcionam seus eleitores rapidamente, com exceção dos casos do México, e de [Nayib] Bukele [El Salvador]. É difícil saber o que poderá acontecer, mas poderiam surgir populismos. Em muitos países vinha governando a direita, agora a esquerda. Se as pessoas perceberam que todos roubam, que todos fracassam, que não atendem suas demandas... quando as pessoas concluem que todas as forças políticas são ruins estão mais propensas a votar por um outsider, já vimos esse filme. E isso poderia acontecer em países como Chile e Colômbia.

Na Argentina, o deputado Javier Milei, um populista antissistema, está primeiro nas pesquisas para as presidenciais de 2023...

A Argentina é um dos países que menos sofreu com populismos, os partidos tradicionais se mantiveram fortes, mas a ameaça está instalada. No caso da Argentina, me surpreenderia que ganhe uma oferta tipo Milei, mas, de fato, as pesquisas o colocam como favorito hoje.

O senhor imagina uma articulação entre estes novos governos de esquerda na região?

Pessoalmente, sou super cético, não vejo isso acontecendo. Se fala na união da América Latina desde Perón. São países muito diversos, com interesses, histórias diplomáticas diferentes. Podem haver eixos, alianças temporárias, mas não terão muito tempo. Imagine se ganha Milei na Argentina. Serão cooperações de curto prazo, não mais do que isso.

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