Os oito recados de Lula na primeira reunião ministerial

Durante seu discurso antes da primeira reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez acenos e mandou recados de como deseja conduzir seu terceiro governo. A relação que chefe do Executivo pretende estabelecer junto ao Congresso, o discurso dúbio na relação com os ministros, o aceno ao agronegócio e a proposta de voltar a investir em áreas como educação, saúde e cultura foram os destaques da fala inicial.

Durante o discurso, o presidente deu um recado dúbio para seus ministros as dizer que quem fizer algo errado "será convidado a deixar governo", mas prometeu "não deixar ninguém na estrada".

—Todo mundo sabe que a nossa obrigação é fazer as coisas corretas, é fazer as coisas da melhor forma possível. Quem fizer errado, sabe que só tem um jeito: a pessoa será simplesmente, da forma mais educada possível, convidada a deixar o governo. E se cometeu algo grave, a pessoa terá que se colocar diante das investigações e da própria justiça — disse Lula, acrescentando logo depois: — Estejam certos que eu estarei apoiando cada um de vocês nos momentos bons e nos momentos ruins. Não deixarei nenhum de vocês no meio da estrada. Não deixarei nenhum de vocês.

A declaração do presidente Lula ocorre em meio ao desgaste político do governo provocado pelas relações da ministra do Turismo, Daniela Carneiro (União Brasil), com integrantes de milícias no Rio de Janeiro.

Outro caso de constrangimento dentro do primeiro escalão de Lula é do ministro de Integração Nacional, Waldez Góes. Ele, que ganhou uma vaga na Esplanada graças à articulação do senador Davi Alcolumbre (União Brasil), já foi condenado a seis anos e nove meses de prisão, em regime semiaberto, pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), em novembro de 2019. A ação, contudo, foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que acolheu um pedido de habeas corpus apresentado pela defesa.

A escolha de Góes foi criticada pela ONG Transparência Internacional, que em nota afirmou que "a nomeação de um ministro condenado à prisão destoa desses bons quadros e acende todos os alertas”.

Lula deixou claro que não tem vergonha de ter escolhido parte de sua equipe com acordos políticos. Ele pontuou também que a orientação para seus ministros é de que mantenham suas portas abertas para membros do Congresso, ressaltando que os ministros "têm a obrigação de manter a mais harmônica relação" com o demais poderes.

— Muitos de vocês são resultado de acordos políticos, porque não adianta a gente ter o governo tecnicamente formado em Harvard e não ter o voto na Câmara dos Deputados e não ter o voto do Senado — disse, complementando: — Nós temos que saber que nós é que precisamos ter uma boa relação o Congresso e cada um de vocês, ministros, tem a obrigação de manter a mais harmônica relação com o Congresso Nacional. Não tem importância que você divirja de um deputado ou senador, quando a gente vai conversar, você não está propondo casamento, mas a gente está propondo aprovar um projeto ou fazer uma aliança momentânea em torno de um assunto que interessa ao povo brasileiro. É preciso que a gente saiba que é o Congresso que nos ajuda. Nós não mandamos no Congresso, nós dependemos do Congresso e, por isso, cada ministro tem que ter a paciência e a grandeza de atender bem cada deputado ou senador que o buscar porque se não quando a gente vai pedir um voto, ele diz: "Ah, não vou votar porque quando estive no tal ministério nem me receberam, deram chá de cadeira de quatro horas, o ministro nem serviu cafezinho ou uma água". Não quero isso — avisou.

Lula aproveitou o discursos para mandar um recado também para os presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara Arthur Lira, garantindo diálogo constante com as lideranças.

— Quero dizer para vocês que vou fazer a mais importante relação com o Congresso Nacional que eu já fiz. Quero dizer aos líderes que dessa vez vocês não se preocupem que vocês vão ter um presidente disposto a fazer quantas conversas forem necessárias com as lideranças, com os partidos políticos, com o presidente Rodrigo Pacheco (presidente do Senado) e Arthur Lira (presidente da Câmara). Não tem veto ideológico para conversar nem assunto proibido em se tratando de coisa boa para o povo brasileiro — prometeu.

Ele também pontuou a relação de dependência do Executivo com o Legislativo, que deve ser sempre lembrada pelos integrantes de sua gestão:

— Tenho consciência que não é o Lira que precisa de mim, é o governo que precisa da boa vontade da presidência da Câmara. Não é o Pacheco que precisa de mim, é o governo que precisa de um bom relacionamento com o Senado. E é assim que nós vamos governar nesses próximos quatro anos — prevê.

O presidente fez um aceno ainda aos integrantes do governo que tem posições distantes das defendidas pelo Partido dos Trabalhadores.

"Nós não somos um governo de um pensamento único, não somos um governo de uma filosofia única, não somos um governo de apenas pessoas iguais. Nós somos um governo de pessoas diferentes e o que é importante é que a gente, pensando diferente, tem que fazer o esforço para que no processo de reconstrução desse país, a gente pense igual, a gente construa igual", afirmou Lula.

Entre os nomes que representam essa frente ampla no governo, o principal é o de Simone Tebet, ministra do Planejamento. Ela, que pleiteava assumir a pasta de Desenvolvimento Social, acabou sendo alocada na área econômica, onde precisará enfrentar divergências. Na cerimônia de posse do cargo, a senadora citou o desafio e afirmou que o governo de Lula "do PT e da frente ampla".

— Quando abri minha boca para agradecer (ao presidente Lula pelo convite para virar ministra) e dizer que havia algum equívoco, disse a ele: "mas presidente, nessa pauta, ministro Haddad e ministro Alckmin e ministra Esther, nós temos divergências econômicas". Ele simplesmente me ignorou como quem diz: "é isso que eu quero, porque eu sou um presidente democrata e um presidente democrata não quer apenas os iguais, quer os diferentes para se somar". Porque é assim que se constrói uma nação soberana, justa e igual para todos — contou Tebet.

Lula fez ainda um aceno ao agronegócio, setor da sociedade que durante a campanha eleitoral apoiou maciçamente seu opositor, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O novo presidente citou nominalmente o novo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, como "empresário de verdade", preocupado com a preservação ambiental.

— Fico muito feliz quando vejo um homem do agronegócio como ministro da Agricultura, como o companheiro Fávaro. Eu penso que o Fávaro é a perspectiva que nós temos de fazer com que as pessoas sérias, os homens de negócio do agronegócio, os empresários de verdade que sabem a responsabilidade da produção de alimentos nesse país, que sabem a necessidade da produção sem precisar ofender ou adentrar a Floresta Amazônica ou qualquer outro bioma que tem que ser protegido. Esse empresário que produz de forma responsável será por nós muito bem tratado e muito respeitado.

Ele reforçou ainda que irá combater atividades ilegais e pregou o respeito à demarcação das terras indígenas.

— Agora aqueles que quiserem teimar e continuar desrespeitando a lei, invadindo o que não pode ser invadido, usando agrotóxico que não pode ser usado, esse a força da lei imperará sobre eles e nós vamos exigir que a lei seja cumprida. Porque nesse país tudo vale, a única coisa que não vale é o cidadão bandido achar que pode desrespeitar a vontade da sociedade brasileira, a nossa Constituição e a nossa legislação— disse.

Ao falar sobre saúde, Lula relembrou projetos de suas gestões anteriores, indicando que irá retomá-los. Um dos lembrados foi o "Mais Médicos", que tinha como objetivo suprir a carência de profissionais da saúde em cidades periféricas e no interior do país e ficou marcado pela contratação de médicos cubanos, que foi encerrado na gestão de Jair Bolsonaro. O ex-presidente criou uma nova iniciativa, chamada de "Médico pelo país", com foco na contratação de profissionais brasileiros.

— Esse é uma área que passa ano e entra ano e a Saúde sempre está um pouco ausente daquilo que é o sonho do povo brasileiro. Nós chegamos com Farmácia Popular, com Brasil Sorridente, com Samu. Nós chegamos com os Mais Médicos, teve um avanço importante nesse país, que simplesmente foi destruído. Em nome de combater qualquer coisa, em nome de tirar aquilo que estava dando certo para o povo, naquelas cidade pequenas que não vê médico. Todo mundo sabe que tem cidade nesse país que passa anos sem ver um médico e muitas pessoas morrem sem serem atendidas pelo tal especialista, porque ele não tem vaga — falou.

No campo da Educação, Lula explicou a escolha de Camilo Santana para o cargo. Segundo ele, pesou na escolha os resultados apresentados pelo estado do Ceará na área durante o período em que Santana era governador.

— Todo mundo sabe o nosso compromisso com a educação e eu fiz questão de convidar o companheiro Camilo para ser o ministro da Educação, porque dentro todos os estados brasileiros, o Ceará é o estado que ao longo de muitos anos vem tendo a mais importante história de educação fundamental e de ensino básico — justificou.

Ele também adiantou que pretende se reunir só com Camilo Santana na próxima semana, para discutir a retomada de obras paradas nas gestões anteriores:

— Meu caro Camilo, você sabe que tem responsabilidade. Na semana que eu já quero ter uma reunião com você para discutir o que a gente vai visitar de reforma em escola. Porque nós temos quatro mil obras na área da educação paralisadas. Eu não sei se é creche, não sei se é universidade, não sei se é instituto federal, mas o que tiver, a gente vai ter que colocar a mão na massa. Para que a gente volte a produzir e reconstruir, melhorando a educação, gerando emprego e pagando salários que o povo brasileiro precisa ganhar — garantiu, prometendo ainda que o governo irá dar um salto de qualidade nos ensinos fundamental e básico.

Ao final de sua fala, Lula citou nominalmente a nova ministra da Cultura Margareth Menezes, pedindo para que ela se preparasse para os próximos desafios:

— Margareth se prepare, porque nós vamos ter que fazer uma revolução cultural nesse país. Se prepare que nós vamos fazer, esse povo precisa de cultura. Parte da violência que existe nesse país não é por falta de polícia, é pela ausência do Estado no cumprimento de suas obrigações — pontuou.