'Os países não querem ser peões em uma nova Guerra Fria', diz analista em geopolítica

Muito se fala em uma nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China, mas para Parag Khanna a bipolaridade terminou com o colapso soviético. Ao invés de potências hegemônicas, argumenta o escritor e especialista em geopolítica, vê-se um mundo cada vez mais multipolar no qual cada país orbita ao redor de si próprio e firma as alianças mais benéficas para seus próprios interesses. Um exemplo é a recusa da China e Índia de condenarem a invasão russa da Ucrânia.

Sem fim à vista: Guerra na Ucrânia completa cem dias. O que pode encerrar o conflito?

No continente: Prioridades diferentes afastam Biden de líderes regionais na Cúpula das Américas

Entrevista: Primárias mostram que Trump não é invencível, mas trumpismo o supera, diz cientista política

Para o diretor da Future Map, que participa nesta terça às 9h de um evento on-line gratuito promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), as ações do Kremlin não são surpreendentes, dado que Moscou e Kiev têm há anos problemas mal resolvidos. O escritor indiano-americano também chama atenção para o impacto geopolítico das mudanças climáticas e critica o distanciamento brasileiro do Mercosul durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro: para ele, é a posição regional que torna os países fortes.

Na semana passada, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, apresentou os planos da Casa Branca para fazer frente à ascensão chinesa. Como o senhor avalia a resposta americana?

Foi o governo Obama que originalmente deu essa guinada para a Ásia. Na época, os EUA não ratificaram a Parceria Transpacífica, então já havia uma crítica forte na região de que faltava a parte econômica da estratégia americana. Do ponto de vista militar, Washington já havia anunciado a mudança de foco para a Ásia, mas ainda tinha muitos compromissos no Oriente Médio e não havia construído o Comando Indo-Pacífico nas proporções atuais. Muita coisa mudou em oito anos. Os EUA ainda não se juntaram à Parceria Transpacífica, mas pelo menos apresentaram o Quadro Econômico Indo-Pacífico, o que significa uma tentativa de desviar a cadeia de abastecimento da China para países que compartilham interesses.

Mas também não há confiança internacional nos EUA...

A outra coisa é que o Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad, formado por EUA, Austrália, Japão e Índia) é hoje muito mais desenvolvido do que era há oito anos. Há planos para grandes exercícios militares, países associados como a Coreia do Sul, o Vietnã e as Filipinas, mais trocas de defesa. A terceira parte do quebra-cabeça é que ninguém confia em Pequim. Se antes havia alguma boa vontade, soft power e uma crença de que a ascensão chinesa poderia ser administrada positivamente, isso não existe mais.

O meu argumento é que nós não estamos em uma Guerra Fria na qual os países precisam escolher um lado ou outro. Vivemos uma nova era em que cada país vê a si mesmo como o centro. Não querem se ver como peões no tabuleiro de uma nova Guerra Fria ou estar em um cenário colonial ou neoimperial em que a China é a nova força hegemônica. Eles praticam o que chamo de multialinhamento. Não importa que estes países, e a Índia é o melhor exemplo, não confiem na China ou nos EUA. Eles farão o que lhes for conveniente, como comprar mais armas dos americanos e tentar aumentar o comércio com os chineses.

Podemos creditar a este multialinhamento o posicionamento da China e Índia diante da invasão na Ucrânia?

Sim. Os países asiáticos não veem esta batalha como sua e estão muito preocupados com o preço das commodities, petróleo, gás e comida. Sabem que Rússia tende cada vez mais para a Ásia e que há uma relação de interdependência. Classifico a Rússia como um país do Norte da Ásia há muito tempo e estas relações definitivamente fazem parte da asianização da Rússia. É um processo que vem se acelerando desde 2014, com a invasão da Crimeia. Agora, após a guerra na Ucrânia, ficará óbvio para todo mundo que a Rússia faz parte do Norte da Ásia.

As tensões entre Ucrânia e Rússia vinham se acumulando já faz algum tempo, de modo que havia quem se referisse à situação como um “conflito congelado”. O timing da invasão é surpreendente?

Eu detesto o termo “conflito congelado” porque, se esta guerra prova alguma coisa, é que não existe um conflito congelado. Eles estão sempre presentes, inquietos e perigosamente fora dos holofotes. A CNN ou a BBC não fizeram reportagens diárias de Donbas entre 2014 a 2022, mas isso não significa que o conflito estava paralisado. Muitas pessoas morreram, a fronteira estava incerta e a agitação era contínua. Nunca devemos tratar nenhum conflito como congelado. Há dois tipos de imbróglios deste tipo: os resolvidos e os não resolvidos. Então não é uma surpresa para mim, já que essa era uma disputa não resolvida. É binário deste jeito.

Em “O Futuro é Asiático”, o senhor argumenta que o mundo enfrentará um processo de asianização nas próximas décadas. O que isso significará para a geopolítica global?

É um processo que já está em curso. A minha tese é que o mundo já é multipolar há cerca de 15 anos, com os EUA, a China e a União Europeia como poderes predominantes. Mas também há uma Ásia multipolar em um mundo multipolar. Temos Índia, Japão, Austrália. A China não irá mandar sozinha como os EUA mandam na América do Norte. As civilizações da região são muito maiores e diferentes, de modo que nenhuma delas irá aceitar um domínio chinês. Porque pomos todo o nosso foco na China, acabamos por ignorar os interesses, visões e prioridades dos outros. Mas eles também importam.

O Sudeste Asiático será uma das regiões do planeta mais afetadas pela crise climática. Isso já é um fator levado em conta nas decisões atuais?

Demais. A maior cidade do país mais populoso da região é Jacarta, e a Indonésia planeja mudar sua capital de lugar devido aos riscos climáticos. Não é um cenário futuro hipotético, é um risco muito real. Gosto de dizer que o crescimento econômico da Ásia está contribuindo para que ela afunde porque aumenta as emissões e a atividade industrial e, portanto, as temperaturas e o nível do mar sobem. A Ásia irá afundar devido às consequências da sua própria ascensão.

A questão é a velocidade com que os países da região irão se adaptar. Mudar a capital é um exemplo, mas também construir infraestrutura, fazer a transição energética e realocar pessoas para áreas mais elevadas, por exemplo. Quanto mais investirem nisso, mas preparados estarão.

E os investimentos atuais têm sido suficientes?

Definitivamente não. Um motivo é que as mudanças climáticas estão ocorrendo mais rapidamente do que esperávamos, mas também porque o tamanho do desafio é enorme dado a vasta geografia da região e a pobreza relativa de muitas nações que não têm como investir. O Brasil pode simpatizar. Como uma economia multitrilionária, gostamos de pensar que o país poderia impedir que a Amazônia fosse desmatada tão rapidamente, mas isso não acontece por uma miríade de fatores que são comuns a nações em desenvolvimento cujas economias têm grande dependência de commodities.

E há um cabo de guerra constante entre o Norte e o Sul Global nas conferências climáticas sobre mais recursos para mitigação e adaptação. Existe espaço para consenso?

Um consenso diplomático vem emergindo, como vimos nas conferências de Copenhague, Cancún, Paris, etc. Mas a questão é: isso importa? E a minha resposta é um não muito claro. Não importa. Eu poria um fim nas reuniões climáticas, nos líderes voando pelo planeta em aviões particulares e comendo filés de carne. Acabaria com isso tudo e investiria este dinheiro em transferência tecnológica, na redução de emissões. E além do dinheiro direcionado para a mitigação, precisamos gastar muito mais em adaptação.

O senhor mencionou a Índia e a China, dois países que fazem parte dos Brics. Qual é a relevância atual desse grupo em comparação com 10, 15 anos atrás?

Eu não acreditava nos Brics naquela época e continuo a não acreditar. O primeiro motivo é que não há continuidade geográfica para além da China e da Rússia compartilharem uma longa fronteira. Além disso, há rivalidades muito grandes entre eles, particularmente entre Pequim e Moscou, então há pouco alinhamento de interesses. O terceiro ponto é que eles não crescem todos no mesmo ritmo e, simultaneamente, suas economias não são correlacionadas. Essas não são razões pequenas. São razões muito grandes para o conceito dos Brics não fazer sentido.

Como geógrafo e alguém que estuda geopolítica, o domínio geográfico da região é mais importante do que as relações transregionais ou internacionais. No Brasil, toda a atenção dada aos Brics deveria ir para o Mercosul, para uma possível Área de Livre-Comércio das Américas e melhores relações com os vizinhos. É importante focar prioritariamente na sua geografia, porque você não será importante como um Estado fora de sua região se ela não for estável.

O senhor acha que o governo Bolsonaro errou ao se distanciar do Mercosul?

A resposta curta é sim, essa é uma atitude totalmente incoerente com o que estou falando. Um país nunca deve negligenciar os vizinhos. Uma das coisas que os EUA vêm fazendo acertadamente é que, devido à disputa comercial com a China, houve um aumento do comércio com o México e com o Canadá. Foi este foco no continente que ajudou os EUA a se tornarem poderosos no século XIX, resolvendo disputas de fronteira, mas continuando a expansão para o Oeste, a Doutrina Monroe, a compra do Alasca. Esses eventos entre 1820 e 1870 foram críticos para isso. O Brasil deve pensar de uma forma continentalista. Estabilizar as relações com os vizinhos, cooperar para obter acesso ao Pacífico, construir mais infraestrutura, aumentar os fluxos comerciais.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos