Os próximos passos da ciência no combate à pandemia

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SÃO PAULO — Enquanto você lê esta reportagem, cientistas de todo o mundo trabalham no desenvolvimento de duas centenas de vacinas contra a Covid-19. Uma parte delas já está em etapa bastante avançada e chegou aos braços da população por meio de autorizações emergenciais e definitivas das agências reguladoras. O trabalho desses desenvolvedores é norteado com dois grandes objetivos: impedir que novos patamares de mortes, como o de hoje, sejam batidos e, por fim, debelar a pandemia.

O brilhante esforço da ciência foi capaz de colocar na praça bons imunizantes com variadas características de tecnologia e logística. Alguns, por exemplo, precisam ser congelados por determinado período, outros vão bem em temperatura ambiente. Há diferentes níveis de eficácia — mas sempre acima dos 50% — e existe ainda diversidade na taxa de efeitos adversos relacionados. Embora, reafirme-se, todas as vacinas sejam seguras e tenham os riscos de seu uso muito inferiores ao benefício conferido, ao proteger contra a Covid-19.

Quase tão quente quanto a corrida dos laboratórios por novos fármacos contra a Covid-19, é a busca por novas informações relacionadas aos antígenos já em uso, o que deflagra novas discussões e ajustes acerca da vacinação (e revacinação) da população em geral. O centro dessa conversa é justamente a gestão de saúde, baseada em novos estudos que apontam caminhos sobre quais vacinas oferecem melhor benefício a determinados grupos, a depender de suas características específicas.

— Agora olhamos para as vacinas pensando que temos um portfólio para escolher. E cada uma delas pode ser melhor ou pior para determinada população. Então, podemos começar a direcionar, para tirar o melhor de cada uma delas — diz a microbiologista e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natalia Pasternak. — Isso, sem dizer ‘minha vacina é melhor que a sua’. Não é isso, pode ser que minha vacina seja melhor para idosos e a sua seja melhor para jovens e crianças. Ou mais segura para gestantes.

Esse novo capítulo é baseado nos novos estudos que, entre outras coisas, apontam que as vacinas de RNA mensageiro (como a Pfizer), têm resposta imune mais intensa, induzem a níveis de anticorpos maiores. O que as fariam importantes candidatas para vacinar e dar doses adicionais em idosos e imunossuprimidos — populações que naturalmente apresentam complicações relacionadas ao sistema imune. A vacina CoronaVac, porém, pode ser um bom trunfo para proteger as crianças — público para a qual também é estudada — uma vez que seus efeitos sentidos dias após o uso são bastante baixos.

Não se trata, porém, de simplesmente desdizer o que foi construído até aqui. As vacinas funcionam. E foram elas as principais responsáveis por retirar uma parte importante da pressão sobre os hospitais — conforme O GLOBO mostrou, a queda em internados em de UTIs utrapaassa os 70% em alguns estados — e de reduzir a taxa de mortes, que chegou a média móvel de 3.100 registros em abril deste ano. Em São Paulo, por exemplo, as menores taxas de internação foram conquistadas neste outubro, em um cenário de total suspensão de quarentenas — embora as máscaras sigam obrigatórias e altamente necessárias.

O que se propõe agora é repensar em quais populações o uso de cada antígeno pode ser potencializado, a depender da sua tecnologia de desenvolvimento.

— Costumamos dizer que uma atitude científica te permite mudar de ideia diante de novas evidências, estamos aprendendo com elas — diz Natalia Pasternak.

Novas pesquisas

Nessa intenção de colher mais informações para estratégias num futuro próximo, pesquisas no Brasil avançam no conhecimento sobre quais vacinas devem ser usadas, por exemplo, em uma aplicação de reforço e quanoo essa agulhada deve ocorrer. Além dos estudos comandados pelas próprias farmacêuticas desenvolvedoras dos fármacos — Pfizer, Janssen e Oxford/AstraZeneca — há uma análise em curso que diz respeito à dose de reforço para a CoronaVac, a pedido do Ministério da Saúde. A pesquisa estuda a combinação de todas as vacinas disponíveis no programa de imunização brasileiro contra a Covid-19 e é coordenada por Sue Ann Costa Clemens, também líder dos testes da vacina Oxford/AstraZeneca no Brasil e autora do livro “História de uma vacina”, da editora Intrínseca.

— Todas as vacinas são necessárias e têm seu valor. Agora, temos que ter a responsabilidade científica e política de acompanhar essas vacinas após o uso nas primeiras doses e de reforço. Na emergência de novas variantes, esses dados valem muito — afirma a pesquisadora.

Também, explicam os especialistas médicos, é absolutamente urgente que se encontre mecanismos para escalar a produção de imunizantes para oferecer a vacina globalmente, de maneira igualitária. Só assim será possível sair de um cenário de pandemia.

— É um tema que discutimos há anos (para outros imunizantes), mas agora se tornou urgente. De uma forma imediata seria preciso buscar acordos bilaterais para finalizar e envasar vacinas, pois há produtores que produzem em massa, mas não têm capacidade de finalizá-las — diz Sue Ann Costa Clemens.

Novos medicamentos

Outra clareira que se abre é o desenvolvimento de novos medicamentos a serem usados no tratamento e até, se os estudos assim mostrarem, na prevenção da Covid-19. Muito recentemente, a farmacêutica MSD — nos Estados Unidos, Merck — apresentou dados iniciais do estudo de fase 3 de seu antiviral experimental contra o coronavírus, o chamado Molnupiravir. O fármaco tem uma ação que “confunde” o vírus ao longo do processo de replicação. Impedindo o mecanismo.

Nos estudos iniciais focados no tratamento dos infectados, o fármaco foi capaz de reduzir em 50% as internações e mortes em comparação ao grupo placebo. Com essas evidências, um comitê independente pediu que os testes fossem encerrados antes do previsto, fruto do bom resultado.

A empresa promete pedir autorização de uso emergencial do medicamento até novembro. Em outra mão, há um estudo previsto para ser iniciado na próxima semana no Brasil em que o fármaco será testado como método de profilaxia pós-exposição, em resumo: uma prevenção da doença aos que entraram em contato com infectados. Em paralelo, outros medicamentos do tipo também estão em testes, inclusive no Brasil, para apresentar respostas à pandemia. Entre as fabricantes em franco avanço em antivirais há a Pfizer e a Roche, ambas com estudos no país aprovados pela Anvisa.

— É um momento histórico. Cada um com a sua parte se sente envaidecido de participar nesse momento na história da medicina e da humanidade — diz Marcia Abadi, diretora médica da MSD.

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